A Família sindiásmica
Engels

As uniões por casal, por um tempo mais ou menos longo, faziam-se já sob o regime do casamento por grupos, ou mesmo mais cedo; o homem tinha uma mulher principal (não podemos dizer uma mulher favorita) entre o número das suas mulheres, e era para ela o esposo principal entre todos os outros. Essa circunstância contribuiu em muito para a confusão feita pelos missionários que viam nos casamentos por grupos, tanto uma comunidade de mulheres sem escrúpulos, como um adultério arbitrário. Mas as uniões desse gênero foram desaparecendo à medida que a gens se desenvolvia e tornava mais numerosas as classes de "irmãos" e irmãs", entre as quais os casamentos eram impossíveis. O impulso dado pela gens à proibição do casamento entre parentes consangüíneos foi ainda mais longe. Assim encontramos entre os índios lrokuás e entre a maior parte de Outros índios ainda em estado inferior à barbárie, o casamento proibido entre todos os parentes assim classificados naquele sistema, dentro do qual existem várias centenas deles. Com essa crescente complicação de proibições do casamento, as uniões por grupos tornaram-se cada vez mais impossíveis; foram suplantadas pela família sindiásmica, Nessa etapa, um homem vive com uma mulher, mas a poligamia e a infidelidade ocasional permanecem um direito dos homens, sendo que a primeira se apresenta raramente (em geral por razões econômicas) enquanto que a maior parte das vezes a mais estrlta fidelidade é exigida às mulheres enquanto durar a vida em comum (o seu adultério é cruelmente punido). Mas o laço conjugal é, tanto dum lado como do outro, facilmente abolido, e os filhos pertencem. antes e depois, apenas à mãe.
Nessa regra, aprofundada, que exclui do laço conjugal os parentes consangüíneos, é ainda a seleção natural que continua a existir. Eis o que diz Morgan:

"Os casamentos entre pessoas não consangüíneas criam uma raça mais forte, tanto física como moralmente; duas tribos em processo juntam-se e os novos crânios e cérebros alargam-se naturalmente até que englobam as faculdades dos dois".

As tribos de constituição gentílíca deviam, portanto. prevalecer sobre os retardatários ou arrastá-los através do seu exemplo.
O desenvolvimento da família na História primitiva consiste, portanto, no estreitamento constante do círculo abraçando a origem da tribo inteira, no interior da qual reina a comunidade conjugal entre os dois sexos. A exclusão progressiva, primeiramente dos parentes próximos, depois, daqueles mais ou menos distantes, e, afinal, daqueles que são apenas parentes por afinidade, torna finalmente impossível, na prática, toda a espécie de casamento por grupos; resta apenas, no final das contas, o casal unido por um laço ainda provisoriamente frouxo: é a molécula cuja desagregação põe fim ao casamento generalizado. Só isso já prova o quão pouco o amor sexual individual, na acepção atual da palavra, tem a ver com a origem da monogamia.
...A família sindiásmica nasceu no limite que separa o estado selvagem da barbárie, a maior parte das vezes no estado superior do primeiro, e excepcionalmente no estado inferior ao segundo. E a forma de família característica da barbárie, como o casamento por grupos o é para o estado selvagem e a monogamia para a civilização. Para o desenvolvimento até à monogamia definitiva, foram necessárias outras causas além das que revelamos aqui. O grupo foi, na família sindiásmica, já reduzido à sua última unidade, a sua molécula de dois átomos, um homem e uma mulher. A seleção natural terminou a sua obra na exclusão sempre mais completa da comunidade dos casamentos; não lhe restava mais nada a fazer nesse sentido. Se as novas forças impulsionadoras, da ordem social, não houvessem entrado em ação, não haveria razão alguma para que, da união sindiásmíca, resultasse uma nova forma de família. Mas essas forças impulsionadoras entraram em jogo.

ENGELS, Friedrich: A origem da família, da propriedade privada e do Estado, p. 30-31, 37.38. Ring Verlag, Zurich (ed. al.).