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uma revolução artística em 1917 parte VI – a crítica literária e movimento revolucionário
O processo revolucionário expresso através da história da literatura russa
A intensificação do processo revolucionário russo, reflete-se, no terreno da crítica literária, no surgimento de toda uma geração de críticos que faziam de suas idéias artísticas uma tribuna em defesa da população oprimida pela monarquia czarista. Tcherni
O militante revolucionário, filósofo, teórico político, econômico e social, escritor e crítico literário, Nicolai Tchernichevski, foi profundamente influenciado pelas idéias e teorias tanto de Bielinski, quanto de Herzen. Partindo do hegelianismo, avançou para o materialismo de Feuerbach, sem, contudo, nunca conseguir avançar para o marxismo, cuja tarefa irá se encarregar mais tarde seu discípulo, George Plekhanov. Seus livros foram extremamente populares e influentes entre a geração de revolucionários russos que atuavam nos anos 1860, principalmente sua novela Que Fazer? - de onde Lênin tirou o título para o seu livro ainda mais famoso -, que canalizou através de uma proposta revolucionária e de uma maneira de viver as inquietações de toda uma geração descontente com a grande miséria em que era obrigado a viver seu povo.

Tchernichevski foi considerado por Plekhanov como seu mestre e Lênin e os bolcheviques o consideravam como o principal precursor do bolchevismo.

Vinculara-se à corrente populista, de socialistas utópicos, que acreditavam que o futuro do país estava nas antigas comunas rurais camponesas. Que estas seriam a base de uma nova sociedade comunista, sem a necessidade da passagem pelo capitalismo. Apesar de sua crença, objetivamente lutava por reformas situadas no marco da transição capitalista, como a libertação dos servos, que implicaria, para ele, na evolução da sociedade russa para o socialismo. Fez, assim, parte da segunda geração de militantes que Lênin definiu como revolucionários democratas, que lutavam de maneira confusa, e até certo ponto inconsciente, pela revolução burguesa dentro da Rússia feudal em oposição aos revolucionários aristocráticos da primeira geração. “O círculo de lutadores se fez mais amplo, e seus vínculos com o povo, mais estreitos”, afirmou Lênin sobre os democratas revolucionários da segunda geração, de origem não aristocrática. Foi Tchernichevski o autor da célebre frase “quanto pior, melhor”, indicando sua crença de que, quanto piores as condições sociais para os pobres, mais inclinados eles se tornariam para se lançarem à revolução, perdendo as suas ilusões em um estado de coisas insustentável, em piedosas mentiras da classe dominante. Enxergava já o potencial revolucionário das massas, ao contrário das expectativas de Herzen, populista da primeira geração.

 
O jornalista revolucionário
 
Filho de um padre, Nicolai Gavrilovitch Tchernichevski nasceu na cidade de Saratov, na Rússia, em 1828, onde viveu até os 18 anos. Estudou no Departamento de História e Filologia da Universidade de São Petersburgo. Compenetrado em seus estudos, em um tempo surpreendente curto, o jovem literato dominou diversos idiomas, admirando os professores com sua grande erudição. Durante toda a vida, Tchernichevski chegaria a dominar intimamente oito idiomas estrangeiros.
 
Após formar-se, em 1850, lecionou como professor de uma escola em sua cidade natal. Manteve-se envolvido neste trabalho durante apenas dois anos, quando resolveu abandonar a profissão.
 
Em 1853 voltou para a capital russa, onde começou a escrever artigos políticos e de crítica literária nos jornais locais, como o "Anais da Pátria" e "O Contemporâneo".
 
Neste último, Tchernichevski passou a trabalhar como editor chefe, ao lado do poeta revolucionário Nicolai Nekrasov e do crítico literário Dobroliúbov. Nesse órgão, ele publicou principalmente resenhas literárias, ensaios filosóficos e críticas às políticas do governo. Seu primeiro trabalho crítico relevante, e considerado um dos mais importantes de sua carreira, foi o "Ensaio Sobre o Período Gogoliano da Literatura Russa". Com este trabalho, Tchernichevski em pouco tempo tornou-se extremamente popular entre a juventude radical, e chegou mesmo a ser chamado de "o profeta da geração jovem".
 
Por uma arte a serviço da vida
 
Não satisfeito, porém, com a mera carreira jornalística, ele procurou retomar a vida acadêmica, preparando sua famosa dissertação "Relações Estéticas entre Arte e Realidade", de 1855. Sua tese, que claramente partia das premissas de Bielinski, da "arte pela vida", e desprezava de antemão as idéias de uma arte dita "pura"; indicava o desenvolvimento da crítica literária para as posições defendidas pelo realismo artístico que se desenvolvia nas diversas áreas da cultura russa. Neste trabalho, Tchernichevski afirmava que nada, nem mesmo a criação artística mais sublime poderia ser mais bela e perfeita do que a própria realidade, pelo simples fato de esta ser uma coisa viva, dinâmica, e nas suas próprias palavras, "beleza é a vida". Segundo ele, a arte deveria ser um "livro da vida", estar estreitamente ligada a ela e existir somente em função dela. Essas tendências utilitaristas em arte encontrariam sua expressão mais definida com os artistas construtivistas russos encabeçados por Tátlin, que defenderiam uma fusão completa da atividade artística com a indústria. A tese fora sua interpretação pessoal das idéias do filósofo materialista alemão, Ludwig Feuerbach para as artes. Apesar do brilhantismo da dissertação, os conservadores da mesa julgadora da Junta Acadêmica da Universidade de São Petersburgo, não eram capazes de compreendê-lo e reprovaram a tese, vetando sua publicação.
 
Abandonando definitivamente a carreira acadêmica, Tchernichevski continuou seu trabalho jornalístico publicando numerosos ensaios sobre arte, filosofia e política na revista "O Contemporâneo", a mais importante da época. Em suas críticas políticas, seu principal foco, como o de todos os revolucionários de sua época, era a necessidade de reforma agrária e a libertação dos servos na Rússia. Quando esta finalmente ocorreu, em 1861, criticou inúmeras vezes a maneira como o governo o fez, sem realizar uma efetiva reforma agrária e distribuição das terras, largando os camponeses à sua própria sorte, para morrerem na miséria. Sem nunca ter conhecido os modernos operários industriais, devido aos atrasos da economia russa, apelava sempre para a necessidade de uma revolução camponesa no País, como única via para uma efetiva melhora das condições de vida da população. Sobre ela, certa vez, afirmou: “Triste nação, nação de escravos, de alto a baixo são todos escravos”.
 
Tchernichevski foi também um grande economista, tendo realizado ricas análises nesse sentido. Traduziu a “Economia Política” de Mill, e muitos de seus artigos econômicos, como “Capital, Trabalho e a Atividade Econômica”, alcançaram grande popularidade em uma época de crise aguda do Estado czarista, então às vésperas da libertação dos servos. Seu trabalho de agitação política foi de fundamental importância na orientação da opinião pública de seu tempo.
 
Temendo essa crescente influência do revolucionário perante a intelligentsia russa, e sob estreita vigilância da polícia secreta, a burocracia estatal mandou fechar “O Contemporâneo”, em 1861. Apenas um ano após, Tchernichevski foi preso e mandado para a fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, onde permaneceria por dois anos.

A bandeira da juventude russa

Lá escreveu, entre outras coisas, a sua famosa novela Que Fazer?, publicada em 1863, por um deslize da censura. O romance, de fundamental importância para o movimento libertador russo, inaugurava na literatura, o surgimento de uma nova categoria de pessoas e expunha os seus valores e atitudes diante de todos os problemas, políticos e outros. Eram os militantes revolucionários. Criaturas obstinadas que viviam em função de seus trabalhos e seus objetivos. Eram socialistas e materialistas convencidos de que a única saída para os males sociais estava na luta política contra todas as forças nocivas ao gênero humano. No livro, Ramatchev, jovem revolucionário, rompe com as futilidades, artificialismo e corrupção da vida burguesa e coloca-se inteiramente a serviço da causa revolucionária. Formulou também um programa de leituras, que seguia dia e noite, e que incluíam apenas o "essencial" - Política e Ciências Naturais -, visando se apoderar de um conhecimento abrangente e efetivo sobre a realidade. Só então o herói revolucionário inicia sua missão, rumo à destruição da velha ordem. Os personagens do romance inauguram também um novo tipo de relacionamento entre homens e mulheres, onde a mulher era "companheira" do homem, e não esposa, num regime de igualdade entre os sexos, baseado na livre amizade.

 
Em essência, o poder do livro, e que o levou a influenciar várias gerações de revolucionários, estava no conteúdo, inovador e revolucionário, na filosofia combativa que transbordava por suas páginas, cristalizada nesses personagens, que nada mais eram que a idealização de um tipo social: A geração revolucionária surgida na década de 1860 na Rússia, muito mais radical que seus antecessores.
 
Que Fazer? era a síntese das concepções sociais, políticas, filosóficas e artísticas de Tchernichevski, mas não apenas dele; era a verdadeira expressão de um novo tipo de pessoa que estava surgindo, o revolucionário profissional que iria ser a marca registrada do partido de Lênin e Trótski. Os novos revolucionários aos quais Tchernichevski dá voz em seu livro são o oposto do militante social-democrata ou pequeno-burguês dividido entre a revolução e a vida miserável de convencionalismo e artificialismo burguês. A Rússia ingressa em um novo período da revolução e exigia novos homens e uma nova personalidade, um caráter feito de novo material, mais sólido. Os “iskristas” que Trótski descreve na sua biografia de Stálin, os “militantes anônimos”, a nata dos revolucionários que iriam compor o bolchevismo, que começavam a militar na clandestinidade aos 13 ou 14 anos de idade são o resultado do desenvolvimento revolucionário da juventude que é não apenas retratado como elaborado no Que fazer?

Tchernichevski não apenas descreveu como desenvolveu em um determinado conjunto de valores o tipo revolucionário novo. Ele é o seu criador ideológico. São os niilistas de Turguêniev, são os terroristas dos anos 80, são os revolucionários profissionais do bolchevismo. Não apenas uma concepção política e um programa, mas um programa e uma concepção política que se torna de carne e osso, pessoas integralmente dedicadas e não divididas.

O romance serviu como inspiração para centenas de revolucionários russos durante várias gerações, que buscavam força para sua militância, na determinação implacável inspirada pelo herói da novela. Entre aqueles que tomaram inspiração na obra, estavam revolucionários como Jorge Plekhanov, que introduziu o marxismo na Rússia e afirmou sobre o livro: "Todos nós ganhamos do romance a força e a crença num futuro melhor"; o líder revolucionário Vladimir Lênin, que sobre ele afirmou: "Este é um livro que nos muda para toda a vida”; a anarquista norte-americana Emma Goldman; o anarquista teórico da “propaganda pela ação” Piotr Kropotkin, que se referiu a ele como "a bandeira da juventude russa", o militante bochevique Anatoli Lunatcharski e o poeta Vladimir Maiakovski, entre muitos outros. Lênin que, particularmente, foi enorme admirador da vida e da obra de Tchernichevski e que, segundo conta-se, chegou a ler o romance cinco vezes em um único verão, deu a um de seus livros o mesmo título: Que Fazer?, em homenagem ao autor. Nesta obra, Lênin esclarece os revolucionários a respeito da necessidade de se fazer um jornal, como instrumento central na atividade de um grupo político, da importância da luta política para a classe operária, dos revolucionários profissionais, integralmente dedicados ao trabalho revolucionário e à necessidade de um partido rigorosamente centralizado.

 
Sob o tacão da monarquia
 
Apesar da falta de provas consistentes da participação de Tchernichevski em organizações revolucionárias, o czar, ciente da grande influência que o revolucionário mantinha sobre a geração mais jovem, condena-o a quatorze anos de exílio em campos de trabalhos forçados na Sibéria. As idéias de Tchernichevski eram um perigo permanente à ordem estabelecida.
 
Em maio de 1864, acontece a cerimônia de condenação do revolucionário na Praça Mitninskaia, no centro de São Petersburgo. Em um relato da época, "Depois de ler a condenação, ele foi forçado a ajoelhar-se, uma espada foi quebrada em sua cabeça, e Tchernichevski foi então fixado a uma cadeia em praça pública”. No entanto, ao invés da reação de condenação por que esperavam as autoridades monárquicas, a multidão ficou silenciosa, e conta-se que alguém teria atirado um ramo de flores aos pés do prisioneiro.
Começa então uma das mais dolorosas histórias de martírio de toda a revolução russa.

Ao todo, Tchernichevski permaneceu mais de vinte e cinco anos exilado, isolado e incomunicável em um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Durante todo o tempo, entretanto, ele nunca parou de escrever textos de ficção, críticas literárias, ensaios filosóficos e obras políticas e econômicas. Seu mais popular texto filosófico foi “A Natureza do Conhecimento Humano”. Um verdadeiro exemplo de obstinação e fidelidade a seus ideais, ele sempre se recusou a pedir “misericórdia imperial” às autoridades czaristas, como fez o anarquista Bakunin, que poderia garantir a redução de sua pena. Dedicou seus últimos anos de vida traduzindo A História Universal, de Weber.

Recebeu, finalmente, permissão para retornar a sua cidade apenas em 1889. Com a saúde profundamente abalada, morreu apenas quatro meses após sua libertação, em 29 de outubro.

Suas obras, permaneceram oficialmente proibidas de serem publicadas durante décadas, sendo editadas apenas após a revolução de 1905. No entanto, uma farta quantidade de seus textos, principalmente Que Fazer? circularam de forma clandestina amplamente por toda a Rússia, muitas vezes, em cópias redigidas a mão. Esta novela em especial, foi livro de cabeceira de gerações de revolucionários, tornando-se verdadeiro clássico literário após a instituição do governo operário, com a Revolução Russa de 1917. Fez-se jus à sua famosa citação: "A história aprecia seus netos, pois entrega a eles o tutano dos ossos que as gerações anteriores tiveram que esfolar suas mãos para quebrar".

A obra de Tchernichevski é desconhecida no Brasil. Não se conhece nenhuma tradução dos seus trabalhos para o português.