Engels e os teólogos da esquerda
10 de novembro de 2006
A biografia intelectual de Friedrich Engels tem sido o núcleo de uma polêmica em torno à natureza do marxismo.
Livros como os famosos Anti-Dhuring (O sr. Dühring suberte a ciência), Ludwig Feuerbach e fim da filosofia clássica alemã e Filosofia da natureza vão se situar no olho do furacão de todos os ataques das filosofias idealistas e reacionárias “modernas” e dos revisionistas do marxismo ou, ainda, de meros charlatões que procuram falar em nome do marxismo, contra o materialismo histórico e o materialismo tout court que serve de fundamento ao marxismo.
Os idealistas travestidos de marxistas e outros vão tratar de transformar o marxismo histórico, utilizando-se da operação fraudulenta de separar tanto Engels como Lênin, de Marx, em alvo de ataque sob o rótulo de “marxismo vulgar” ou “materialismo vulgar”, uma frase retirada diretamente do arsenal da filosofia idealista reacionária. É importante assinalar que um dos principais iniciadores desta fraude intelectual foi o filósofo idealista italiano Giovanni Gentile, convertido ao fascismo durante o governo Mussolini. O ataque a Engels foi desenvolvido depois, nos anos 40 e 50, pelo existencialista Jean-Paul Sartre, outro filósofo idealista e antimarxista.
A levar em consideração esta mitologia grotesca, Marx seria o único marxista ou, inversamente, nem mesmo haveria um “marxismo”, mas o marxismo pessoal de cada um. As teorias marxistas “originais” estariam nos primeiro livros de Marx como os Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, também conhecidos como Manuscritos de Paris, ou em esboços inacabados como os “Grundrisse”, (Fundamentos da crítica à Economia Política), os quais têm merecido nas últimas décadas um interesse expressivo da intelectualidade universitária. Assim, a interpretação idealista e subjetiva de determinados esboços de Marx, interpretação, seja dito de passagem, que nada tem a ver com a obra em si, mesmo sendo um esboço, transforma Marx em inimigo de Marx, dos marxistas e do movimento revolucionário que se baseia em suas idéias.
O grande pecado de Engels e da sua extraordinária obra é a sua defesa integral e sem compromisso do materialismo em oposição a teorias idealistas ou que ficam a meio caminho entre o materialismo e o obscurantismo teológico dos filósofos profissionais.
A continuidade desta luta é ilustrada também pelo destino de outro livro extraordinário de filosofia marxista, Materialismo e empiriocriticismo, escrito por Lênin em 1907 para combater uma nova ofensiva da filosofia idealista da moda nas fileiras do movimento operário revolucionário, neste caso o filósofo positivista alemão Ernst Mach. A oposição filosófica à obra Lênin, na seqüência da oposição aos escritos de Engels é a comprovação de uma das teses fundamentais do próprio Lênin de que a luta ideológica, filosófica, entre o materialismo e o idealismo é uma luta de partidos na qual não cabem nem as vacilações nem as tentativas de estabelecer um meio termo. Que a filosofia idealista utiliza estas vacilações e este meio termo para fortalecer ideologicamente as tendências fundamentais da filosofia burguesia que são o idealismo declarado e a filosofia religiosa.
Esta tendência pode ser vista hoje nas tentativas de interpretar os complexos problemas suscitados pela evolução da física a partir do início do século XX, que refletem até determinado ponto um impasse na evolução desta ciência em um sentido não materialista, idealista, de negação do caráter material do universo e de negação da capacidade da humanidade estabelecer, através da ciência, uma verdade objetiva. Com tais interpretações obscurantistas, a ciência seria substituída por “outras formas de conhecimento”, ou seja, pelo misticismo explícito ou velado de maneira sofisticada por piruetas filósoficas, que procurariam estabelecer a natureza também “mística” do universo. Tais tendências intelectuais e ideológicas, no entanto, nada mais são que a expressão no terreno das idéias das tendências destrutivas, obscurantistas e reacionárias do capitalismo no terreno material, onde a permanência de um regime social em total decomposição se opõe abertamente ao desenvolvimento das próprias forças produtivas.
Estas tendências francamente reacionárias são amplamente difundidas no interior da intelectualidade pequeno-burguesa universitária e, neste ambiente, procuram se passar por uma “nova” forma de ver o mundo, por uma filosofia “moderna”, não “dogmática” e outros clichês que fazem o gosto dos intelectuais de aparência que dominam o ambiente universitário. Na realidade, o que temos aqui é a roupagem filosófica da decaída democracia capitalista transportada para a filosofia e para as formas ideológicas em geral. O que poderia seria mais antiutóritário do que, em filosofia não se subordinar a nenhum lei, na nenhuma autoridade, a nenhuma verdade prévia, mas poder adaptar-se de maneira oportunista a todas as conveniências do momento? O efeito colateral é que este “pluralismo” e este “antiautoritarismo” democrático em termos de ciência só pode resultar em uma completa decadência intelectual, em um pensamento informe, confuso e sem objetividade.
Esta confusão tem também grande penetração na esquerda, inclusive naquela que se diz “revolucionária”, “marxista” e “trotskista”. No extremo, em organizações como P-Sol, defende-se posições abertamente idealistas (Michel Löwy), – que não por acaso mantêm uma frente única política e ideológica com elementos da Igreja Católica – que procuram se passar por uma “modernização do marxismo” ou, curiosamente, com debris da velha escola stalinista de conteúdo reacionário (Carlos Nélson Coutinho, Leandro Konder).
Para estes setores, que criaram uma ideologia centrista que combina a fraseologia trotskista com retalhos de anarquismo, herdados do movimento de 68, e uma política oportunista afiliada ao stalinismo, o bolchevismo é uma das mais perversas concepções políticas existentes e, por este motivo, procuram apresentar Trótski como um democrata burguês em luta contra o stalinismo pelo seu caráter ditatorial.
As tendências idealistas ou semi-idealistas da esquerda pequeno-burguesa são – como sempre aconteceu no passado – uma das bases fundamentais da sua política centrista ou oportunista e de uma ideologia de negação da luta de classes, da revolução proletária e da ditadura do proletariado. Em um ambiente gangrenado pelo ceticismo filosófico idealista e pelo relativismo em todas as áreas de pensamento e de atividade, não há e não pode haver lugar para uma política de princípios, a única que pode ser revolucionária. Para estes liberais com mentalidade radical, uma séria tomada de posição na luta de classes e a luta por um objetivo definido que caracteriza o programa revolucionário do marxismo só pode ser considerada como... “dogmatismo”. Com tais raciocínios, a esquerda “revolucionária”, por trás de toda esta “modernidade” suposta, toda esta “flexibilidade” intelectual, que reflete apenas a ausência de uma concepção definida tanto do mundo como da política, transforma-se em um mero apêndice tanto política como intelectualmente do capital e da sua marcha reacionária.
A importância da leitura da grande obra filosófica de Engels, que está em completa sintonia não apenas com a de Marx, mas também coma de Lênin e Trotski, está justamente na luta contra a imensa confusão intelectual que a pequena-burguesia intelectual terceirizada pela burguesia introduz no interior do movimento operário.
Esta obra foi a base para a formação da mais importante geração de militantes marxistas, a geração de Lênin, que a conhecia de cor. Foi um dos instrumentos teóricos que deram contribuição decisiva para a construção da organização mais revolucionária que já existiu em toda a história da humanidade, o partido bolchevique.
Sua defesa do materialismo e das idéias fundamentais do marxismo, são elas e somente elas as únicas que podem servir de base para a construção de um partido verdadeiramente proletário, verdadeiramente comunista e verdadeiramente revolucionário.
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