PCdoB: um partido entre a aparência e a realidade

15 de novembro de 2006

A presença do presidente da Câmara, filiado ao PCdoB, na presidência por dois dias deu à imprensa dos grandes capitalistas a oportunidade de realizar uma das suas tradicionais operações de desinformação e confusionismo, ao chamar a atenção para o fato, que somente pode ser qualificado como grotesco e ridículo, de que Aldo Rebelo seria o primeiro presidente comunista do Brasil.

Detrás deste gênero de cortina de fumaça, oculta-se, normalmente, o processo político da relação entre os partidos, sua política, as classes sociais e o regime político.
O PCdoB é um dos partidos que mais cumpre a função de desorientar o movimento da classe trabalhadora brasileira, a começar pelo seu próprio nome. Sua história está completamente enredada em confusão, não só para o grande público, mas até mesmo para a esquerda nacional, a qual faz questão de estar sempre informada de todo tipo de rumor e falatório sobre os partidos e personalidades do meio.

O PCdoB começou sua existência com a tentativa de se apresentar como uma alternativa à esquerda do PCB, o partido stalinista vinculado à burocracia da URSS. A ruptura foi um dos efeitos da crise da própria burocracia russa que levou Kruschev a publicar seu famoso relatório com o objetivo de lançar na conta pessoal de Stálin os crimes da burocracia que dirigia, incluindo aí, sem dúvida, o próprio Kruschev.

Esta manobra deveria levar, como efetivamente levou, a uma depuração superficial do aparelho dos partidos comunistas das pessoas mais publicamente comprometidas com a execução da política stalinista. O núcleo dirigente da burocracia stalinista no Brasil dividiu-se em dois. De um lado ficou Prestes e os elementos menos comprometidos, do outro ficou o conjunto dos elementos de proa do stalinismo brasileiro como Diógenes Arruda, secretária-geral de fato do PCB do final do Estado Novo até a ruptura, João Amazonas, Pedro Pomar, Maurício Grabois entre os mais conhecidos.

Este grupo, que havia liderado a luta contra qualquer política proletária em defesa da democracia imperialista sob orientação de Stálin, vai criar uma mitologia de que o PCB havia enveredado pela defesa da democracia burguesa e abandonado... a política revolucionária do grande Stálin.

O novo partido comunista, no entanto, em nada se diferenciou do velho na questão fundamental do momento, participando integralmente na política de completa submissão política diante da burguesia nacional, então no governo com João Goulart, e na capitulação diante do golpe militar de 64, liderado pelo nacionalismo burguês varguista de Brizola e Jango. Tanto PCB como seu filho legítimo, o PCdoB, tiveram a mesma política diante de um dos acontecimentos cruciais da história brasileira do século XX. A diferença é que todo o peso da responsabilidade política recaiu sobre o PCB, único partido capaz de alterar significativamente o rumo dos acontecimentos.

Durante a ditadura, o partido, para dar ares de verossimilhança à sua pretensa natureza revolucionária adotou o maoísmo como fachada ideológica, participando da sua crítica à URSS. Estando a antiga burocracia stalinista separada da classe operária e da própria burocracia de Moscou, tanto pelo seu isolamento em relação ao PCB, um partido de massas, como em função da repressão do regime militar, nada mais natural que uma parcela da burocracia fosse levada às idéias do foco militar guerrilheiro então em voga, uma política que galvanizou inúmeros setores da esquerda pequeno-burguesa em toda a América Latina.

Esta oportunidade de levar à prática a retórica revolucionária do partido foi, entretanto, a razão da maior crise partidária. Embora a ala esquerda do partido tivesse levado à prática, através da experiência isolada do partido feita no Araguaia, a crise partidária teve como desenlace um dos episódios até hoje inexplicados da esquerda nacional, onde um comando da ditadura assassinou todos os líderes da ala esquerda do Comitê Central, Pedro Pomar e Maurício Grabois, em um aparelho do partido organizado em uma casa do bairro da Lapa em S. Paulo, logo após uma reunião do Comitê Central. A acusação de que a disputa interna do partido teria sido teria superada por meio da delação e do acordo com o regime militar foi formulada como suspeita, mas nunca pode ser efetivamente provada.

A partir deste momento, não obstante, a ala direita, dirigida por João Amazonas, consolidou-se na direção de um partido em completa crise, que viria as ser resgatado por uma circunstância que alteraria completamente o seu desenvolvimento e seria decisiva na sua evolução política após a ditadura.

(A ser continuada)

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