PCdoB: um partido entre a aparência e a realidade (final)

17 de novembro de 2006

A atuação do PCdoB como tropa de choque do regime burguês nos sindicatos em função do colapso generalizado do sindicalismo criado pelo regime militar é reveladora da sua política integralmente contra-revolucionária, que, no âmbito do movimento estudantil, em função do absoluto refluxo das lutas estudantis adquiriu uma característica de contra-revolução democrática. O movimento estudantil foi estrangulado por meio da corda da democracia burguesia.

O choque com o movimento operário em Ascenso, no entanto, levou o PCdoB a uma crise integral no movimento operário e à sua quase dissolução como partido. Esta crise foi ainda agravada pela crise da burocracia stalinista no Leste Europeu que liquidou boa parte da sua cobertura ideológica e aprofundou a sua adesão à democracia burguesa de fachada.

Ao mesmo tempo em que declinava no interior do movimento sindical e, muito particularmente, no interior da classe operária, o partido foi criando, através da sua atuação eleitoral, em conjunto os partidos burgueses de direita primeiro e, na frente popular juntamente com o PT, uma burocracia parlamentar, que é hoje o verdadeiro centro de gravidade do partido. Estes parlamentares e políticos profissionais são, na sua esmagadora maioria, ex-estudantes, como é o caso do próprio Aldo Rebelo, ou seja, uma camada tipicamente burguesa que nada tem a ver com a classe operária. Hoje o alto escalão do PCdoB faz parte da elite política burguesa, utilizando os seus cargos nos governos estaduais, no governo federal e no Congresso para se integrar, como quaisquer parlamentares burgueses do PMDB, PFL ou PSDB nas negociatas milionárias da burguesia.

A crise do PCdoB, que acompanhou milimetricamente a crise do regime burguês expressa na evolução do governo Sarney, o levou, como uma manobra defensiva e para se recuperar politicamente a integrar a frente popular. Nos sindicatos, a CUT, que o PCdoB combateu durante 5 anos com o uso sistemático da violência, se tornou a maior potência sindical do País, abrindo uma crise terminal no interior do bloco pelego que, a partir daí, não poderia mais existir a não ser na sombra da CUT. No movimento estudantil, de 86 a 88, o PCdoB finalmente perderia a sua hegemonia, desta vez de forma definitiva. O que possibilitou que este partido em completa crise voltasse a dirigir a entidade, que dirige até hoje, foi a completa capitulação de todas as alas do PT (da Articulação lulista ao PSTU) que em 89 recolocaram o PCdoB na direção da entidade.

Na direção da UNE, em 92, com o direitista Lindbergh Farias na presidência, traíram a campanha do “Fora Collor” e, Lindberg, juntamente com Lula, praticamente deu posse ao governo do vice de Collor, Itamar Franco, preparando, desta forma, os dois governos do PSDB com FHC. O PCdoB foi recompensado pela burguesia pelos importantes serviços prestados com alegalização do esquema das carteirinhas estudantis, o maior esquema de corrupção que o movimento estudantil brasileiro já conheceu em todos os tempos, que consolidou a dominação do PCdoB sobre a UNE, a eleição de mais deputados, como o próprio Lindberg Farias, e o enriquecimento de pessoas ligadas ao partido.

Merece um destaque especial a análise do papel do PCdoB na frente popular formada por Lula e o PT a partir de 89. Este papel deve ser esclarecido por uma compreensão do que significou a formação da Frente Brasil Popular em 1989. Lula, José Dirceu e a burocracia dirigente do PT lutaram desde a fundação do partido para impor a toda a sua militância e, mais importante ainda, a todos os operários que apoiavam o partido a sua política de colaboração de classes com a burguesia. Este processo de luta foi se desenvolvendo por etapas, culminando com a formação da Frente Brasil Popular, que tornou a política de colaboração de classes a orientação geral do partido. Esta foi a maior vitória política da direção oportunista sobre o conjunto do partido e foi uma mudança de qualidade, não na orientação da cúpula dirigente, mas na evolução do próprio PT. Não bastava que a direção tivesse uma política de ser rebocada pela burguesia, era necessário levar as massas para esta política.

Devido à profundidade da crise do regime político, a frente tinha duas características centrais. De um lado, não poderia ser uma frente para governar o País, mas um instrumento para derrotar a classe operária e quebrar a sua linha ascendente de mobilização como forma de criar as condições para a estabilização econômica e política, o que somente poderia ser feito através de um ataque em grande escala à condições de vida da classe operária. De outro, justamente por isso, teria que ser uma frente de aparência “revolucionária” mas, como toda frente popular, com partidos burgueses que dessem à burguesia confiança para apoiar esta coligação.

A frente foi formada entre PT, PSB e PCdoB. A evolução posterior da frente popular revelaria claramente que o partido de confiança da burguesia, que serviria à direção do PT como um contrapeso à tendência à radicalização das bases era justamente o PCdoB.

Esta operação se viu enormemente facilitada pelo fato de que toda a esquerda centrista do PT e da CUT, a maioria dos quais estão hoje no PSol e no PSTU, lançou-se a apresentar o PCdoB como um partido “operário”, de “esquerda” e, inclusive, como sendo de “oposição” à direção do PT.

O PCdoB foi, durante os últimos 15 anos, o principal lastro burguês e direitista tanto para ajudar a estabilizar a dominação ditatorial da burocracia petista na CUT como para estabilizar a frente popular. Agora que o PT está em crise, desde o escândalo do “mensalão”, sua maior homogeneidade como partido burguês e na defesa de uma política de direita, o transforma novamente em uma peça fundamental para reestruturar o governo Lula e o bloco que lhe dá sustentação diante da fragmentação do PT. O partido, no entanto, não está imunizado contra a crise que está dissolvendo o PT. Ao contrário, em alguma momento, o próprio fato de servir como escora diante do desabamento do partido principal deverá leva-lo a uma crise ainda maior que a do seu aliado.

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