Ascensão e queda das privatizações
5 de novembro de 2006
O jornal Valor Econômico publicou uma pesquisa que demonstra que 70% da população brasileira são contra as privatizações.
A consciência da burguesia deste fato já havia se manifestado indiretamente nas eleições no esforço dos dois candidatos burgueses que foram ao segundo turno para demonstrar que qualquer privatização estava fora de cogitação. Até mesmo Alckmin, candidato de FHC, autor da maioria das privatizações feitas no País, mostrou-se um grande opositor das privatizações.
A imprensa capitalista, tão pródiga de análises inteligentes, que conseguem explicar até mesmo o inexplicável, não apresentou nenhuma justificativa para uma atitude tão oposta ás necessidades do mercado, contentando-se em registrar o fato e suas conseqüências.
As privatizações foram feitas sobre a base de uma enorme coerção política e ideológica dos grandes capitalistas a qual somente foi bem sucedida graças à colaboração generosa da frente popular. A falta de oposição das direções do PT, do PCdoB, da esquerda do PT e da esquerda em geral, dos sindicatos etc. abriu caminho para que a burguesia conseguisse quebrar a resistência popular e, inclusive, criar um ambiente ideológico, senão totalmente favorável, ao menos propício para as privatizações.
As ilusões obtidas ao de custo de um enorme investimento, simplesmente cederam diante da realidade. A experiência popular com as empresas privatizadas foi dolorosa: milhões de demissões, aumento extraordinário de tarifas, rebaixamento salarial, queda na qualidade dos serviços, ditadura das empresas sobre os consumidores através do monopólio com a cassação dos direitos dos consumidores.
Esta consciência popular, por outro lado, revela a extensão do fracasso de toda a política dita “neoliberal”. Esta política dominou a cena política durante os anos 90. A pretexto da “força” desta política, a esquerda comandou uma capitulação em regra que revelou claramente que a própria esquerda, dirigida pelo PT, era favorável à política dita privatista.
A consciência política é o reflexo necessário que sempre se dá com atraso em relação aos fatos. Dito de outra forma, a política “neoliberal” das “privatizações” faliu muito antes que se espelhasse na consciência de 70% dos brasileiros.
Os candidatos se comprometeram a não privatizar nada. O que estas promessas valem, é desnecessário dizer. No entanto, o problema não é apenas abster-se de privatizar. O fracasso das privatizações coloca em pauta um programa ofensivo, positivo, para reverter o processo geral de privatizações e impor uma derrota definitiva a esta política.
Este programa positivo deveria compreender as seguintes reivindicações: 1) cancelamento das privatizações, com a devolução das empresas privatizadas ao Estado sem indenização; 2) readmissão e indenização de todos os demitidos em função das privatizações; 3) controle de todas empresas estatais pelos trabalhadores, em oposição à tradicional arenga da burguesia de que as empresas devem ser privatizadas porque são controladas por governos corruptos, os quais, diga-se de passagem, foram eleitos com investimento bilionário da mesma burguesia que faz esta campanha publicitária em favor da moralidade; 4) redução e congelamento de todas as tarifas públicas.
Um programa desta natureza não será colocado em prática, evidentemente, pelo governo Lula, o qual é tão a favor das privatizações quanto o seu antecessor. É importante lembrar que uma das primeiras privatizações a ser realizada no País foi, inusitadamente, realizada por uma prefeitura, não pelo governo federal ou estadual, a de Ribeirão Preto, na administração Palocci, o todo-poderoso ministro da
Economia de Lula. O homem que era partidário das privatizações e pessoa de confiança dos banqueiros, foi a mola-mestra da política econômica do primeiro mandato de Lula, o que já define claramente a disposição deste governo em relação às privatizações.
Lula colocou em prática um amplo programa de privatização das jazidas petrolíferas nacionais, bem como abriu caminho para a privatização da região amazônica, uma reivindicação direta do imperialismo norte-americano.
Somente a mobilização de massas dos trabalhadores poderá colocar em prática este programa. Para isso, é preciso colocar em prática a luta por estas reivindicações através de uma campanha de opinião para transformar aquilo que os trabalhadores já pensam em ação política.
Apesar de todas as promessas vazias de Lula, o Banco do Brasil e os Correios, além de outras empresas estatais, estão na mira da privatização. Somente a força da classe operária é garantia contra esta ameaça e esta força não pode se desenvolver, de fato, sem uma completa independência em relação ao governo e a frente popular.
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