6 de novembro de 2006 As eleições de 2006 colocaram em evidência o impasse geral da esquerda, ou como preferem muitos, da extrema esquerda, diante da evolução política do PT e da frente popular no governo. Antes da eleição, formou-se o PSol, que se colocou imediatamente como o centro de gravidade daquilo que nós preferimos denominar de “esquerda centrista”, ou seja, aquela esquerda que, pretendendo representar uma posição revolucionária, oscila continuamente entre a classe operária e a burguesia, entre a revolução e a contra-revolução. A causa deste fenômeno é que a subida do PT ao governo produziu um isolamento da esquerda que viveu, durante quase duas décadas, na sombra aparentemente confortável da frente popular. Ao assumir responsabilidade direta pela administração do Estado capitalista, a direção do PT foi obrigada a suprimir as ambigüidades puramente aparentes da sua política, da qual vivia a esquerda centrista. Daí que a mais importante destas organizações, o PSTU, tenha enveredado para uma política sectária de autopreservação através da forma da Conlutas, da Conlute e para a política oportunista de construção de um “novo partido”, sem definição de classe e sem programa. O surgimento de um partido com aparência de esquerda, embora claramente dominado por aparatos capitalistas fez com que estes grupos todos que se encontram, na realidade, à deriva, gravitassem em torno dele. A formação da “frente de esquerda”, que muitos procuraram apresentar como um grande progresso, foi, de fato, um extraordinário instrumento para agravar a crise. A política de direita, no sentido usual da palavra, de Heloísa Helena, revelou a completa falta de perspectiva própria desta esquerda e a sua completa falta de bússola política que a colocou a reboque de uma política burguesa e de direita. O segundo turno, além de ter aprofundado a crise do regime político, em função da derrota da manobra para eleger Lula no primeiro turno, aprofundou também a crise no interior da esquerda, servindo ainda para confirmar determinadas posições desta esquerda e clarificá-las de uma maneira objetiva. Essa situação permite, em primeiro lugar, um diagnóstico claro do estágio de decomposição desta esquerda, uma vez que o seu envolvimento acrítico com a política desmoralizante de Heloísa Helena revela a completa falta de compromisso e, portanto, de relação real, dessa esquerda com o movimento operário e com qualquer movimento político significativamente. Significa que não carecem apenas de programa político coerente, como perderam totalmente o contato com a realidade. Amplamente desmentida pela realidade, incluindo o inexpressivo apoio entre o eleitorado de Heloísa Helena para os candidatos “de luta” do PSTU e do PSol, ela revela uma completa confusão política e, mais ainda, o impasse em que se coloca o partido no período pós-eleitoral. Se o voto em Heloísa Helena representa uma tendência operária e de luta como diz o PSTU seria o caso de colocar o programa eleitoral no terreno das lutas. No entanto, como fazer greves e mobilização para “reduzir as taxas de juros” senão na FIESP? Como organizar manifestações de mulheres antiaborto, exceto junto à extrema direita? Como promover a reivindicação de intensa repressão ao crime se não for em conjunto com a polícia e com os políticos da “bancada da bala”? Da eleição, a frente de esquerda dirigiu-se diretamente para um beco sem saída. Agora, seria preciso organizar outra política e não defender a anterior. No entanto, a direção do PSTU encontra-se, aparentemente, em um ponto do caminho do qual é impossível retornar. Devemos esperar mais da mesma política que tende claramente à completa dissolução do PSTU no PSol. De forma igualmente delirante, o grupo da esquerda do PT, racha do grupo O trabalho (O Trabalho Maioria) pede, neste segundo turno, voto a Lula “contra a burguesia”. Que o jornal Brasil de Fato ou outro órgão oficial ou oficioso do PT, façam essa pregação, adotem essa retórica pseudo esquerdista para enganar os trabalhadores é natural, pois, assim como Lula, carecem de outra alternativa. Coisa que é feita, de diferentes modos, por todos os partidos burgueses, os quais nunca se apresentam diante da população proclamando seus reais objetivos. Assim, é natural que os cínicos profissionais do PCdoB e da Articulação do PT falem isso. Outra coisa é um agrupamento que se apresenta como revolucionário e trotskista. A formação do ministério de Lula, já em marcha, com as indicações de Roseane Sarney, Jorge Gerdau e outros leva estas alegações imediatamente e diretamente a uma completa e grotesca desmoralização. Da mesma forma, a direção do PSTU ao afirmar que a participação nas eleições foi uma “auto afirmação da esquerda”, reaglutinação da vanguarda” etc. mostra que esta encontra-se completamente desligada de qualquer movimento real da sociedade e são capazes de fazer afirmações em que ninguém em juízo perfeito pode sequer levar a sério. A perda de contato com realidade, da parte da maioria da chamada extrema esquerda, ou esquerda centrista, como é mais apropriado, não é causa de uma crise, mas um sintoma, uma expressão clara do grau de evolução da sua alienação teórica e prática, produto da sua confusão política, das tendências reais do movimento operário.
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