O real e o fantasioso na política do segundo governo Lula
7 de novembro de 2006
Após a vitória de Lula, a imprensa burguesa ingressou em uma via de frenéticas especulações sobre qual seria a política do segundo mandato do atual presidente da República. Segundo os mais entusiásticos o governo liquidaria a política de Palocci, leia-se a política dos banqueiros e do FMI, e ingressaria em uma via de “desenvolvimentismo” e distribuição de renda.
A política real do governo Lula, porém, é totalmente oposta ao mundo de fantasia apresentado na campanha eleitoral e logo após a vitória, tendendo, por isso mesmo, a desfazer as últimas ilusões populares no governo.
Discute-se a formação do futuro ministério e há claros sinais de que este tende a ser uma federação de representantes diretos dos setores do grande capital, acentuando-se uma tendência já expressa no primeiro mandato onde despontaram figuras como Henrique Meirelles, do PSDB, ex-presidente mundial do Banco de Boston (representando o setor financeiro) e Fernando Furlan, da Sadia, representando os exportadores industriais, entre outros. Este caráter seria acentuado pela presença no governo dos representantes do PMDB, representação mais acabada do fisiologismo, da repressão e da política reacionária.
No segundo mandato, este “loteamento” do governo pelos representantes capitalistas e pelos seus partidos políticos tradicionais será ainda mais acentuada, explicitando o caráter de “comitê colegiado dos empresários” que sempre teve o governo Lula. Isso em decorrência do agravamento da crise e do enfraquecimento dos principais partidos do regime que obriga que todos setores da economia a disputar um lugar no governo para defender diretamente seus interesses econômicos.
Assim há toda um discussão da presença de Jorge Gerdau (principal acionista da CSN) no governo, representante dos “privatizadores” do governo FHC; já o setor do agronegócio reivindica a nomeação do ministro da Agricultura; o PMDB pleiteia entre quatro e cinco ministérios (um dos quais seria dado à candidata derrotada ao governo do Maranhão, senadora Roseane Sarney, que se filiaria ao partido) etc.
Outro aspecto prático da conformação do governo Lula no segundo mandato é que, enquanto alguns aficcionados fazem discursos em torno do “desenvolvimento”, a burguesia evidencia seu temor diante de qualquer alteração na política econômica, enfatizando – de forma unânime - que o fundamental é manter o controle da inflação. Isto porque o grande temor da burguesia é que a volta da inflação seja o estopim de uma ampla mobilização da classe operária, em nível superior ao verificado na década de 80.
Diante desse pavor de um repique inflacionário e das tendências de ampliação da crise mundial, a possibilidade de uma política de tipo “desenvolvimentista” é a mais remota de todas as possibilidades em termos de política econômica do governo. Sua ação irá por certo, no sentido oposto, como os principais jornais burgueses já reivindicam: corte nos gastos públicos (menos investimentos), ajuste fiscal, reforma trabalhista etc. medidas que são uma maior expropriação da população que, no melhor dos casos, garantiria a manutenção da margem de lucros dos setores capitalistas mais fortes e uma redução possibilidade de novos investimentos, com um crescimento econômico insignificante. O povo deverá neste sentido, pagar ainda mais para obter ainda menos.
O descontentamento de setores empresariais que defendem uma reversão da política de juros e de comprometimento do orçamento público com o pagamento de juros e serviços da dívida, como no caso do vice-presidente, que lamentou o fato de o governo pagou nos últimos anos cerca de R$ 680 bilhões de dívida externa e assinalou que seria necessário reduzir pela metade estes pagamentos para criar condições de investimentos, não tem a menor viabilidade diante da política adotada pelo governo.
Entre tudo o que se anuncia, o mais significativo do que será o novo governo é a informação que já circula na imprensa como balão de ensaio, de que o governo, em oposição a todas as promessas eleitorais, deverá cortar a verba do bolsa-família. Mas este é um assunto para uma próxima coluna.
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