Leon Trótski

8 de novembro de 2006

7 de novembro é a data de nascimento de um dos maiores revolucionários e uma das mais extraordinárias personalidades que o mundo já conheceu, Leon Trótski.

Líder das massas nas Revoluções Russas de 1905 e 1917, em ambas presidente do soviete de Petrogrado, principal cidade operária do País, considerado o maior orador do movimento socialista em todas as épocas. Nesta cidade, organizou e dirigiu a insurreição que derrubou o governo burguês e colocou no poder o primeiro governo operário da história. Comandante militar e organizador do maior exército revolucionário que o mundo já conheceu, apelidado o Carnot da Revolução russa. Construtor, em associação com Lênin, do primeiro Estado operário da história da humanidade, a URSS, e da mais importante organização revolucionária que o mundo já viu, a III Internacional, tornou-se o criador e líder indiscutível da oposição ao próprio regime que ajudara a criar quando este desviou-se irremediavelmente dos seus propósitos. Nos seus últimos anos de luta, criou a IV Internacional, que seria a única possibilidade de continuidade do movimento operário revolucionário consciente iniciado por Marx e Engels em 1848.

Grande dirigente das massas, organizador genial, comandante militar vitorioso, governante, exemplo moral, lutador infatigável pela causa do socialismo. Tais qualificações colocariam qualquer ser humano em lugar de destaque no panteão da história, mas estão longe de esgotar as qualidades do revolucionário russo.

Trotski foi um dos quatro grandes teóricos desta ciência combatida, perseguida, caluniada e vítima de todo o tipo de perversão que se chama marxismo. Juntamente com Karl Marx, Friedrich Engels e V. Lênin sua vasta obra deu forma acabada aos seus aspectos essenciais. Seu trabalho teórico é um verdadeiro monumento intelectual. Foi o primeiro marxista, com pouco mais de 25 anos de idade, a desvendar o segredo da revolução proletária na época moderna, na época de transição, em que o capitalismo transforma-se em imperialismo. A teoria da revolução permanente é, hoje, a única base real e consistente para o programa de um partido revolucionário e todas as demais interpretações há muito deixaram de ter validade diante dela. Foi Trotski o único teórico que soube dar uma interpretação do desenvolvimento da sociedade soviética, a primeira sociedade a se defrontar com os problemas da revolução proletária e da sua crise. Foi ele também que soube traduzir para a realidade nova do século XX esta doutrina clarividente que é o marxismo-leninismo em todos os seus aspectos fundamentais como o fascismo, as frentes populares, os estados semi-coloniais, os sindicatos modernos e uma infinidade de outros problemas.

Sua atividade teórica não se limitou à economia e à política, mas enveredou por diversos outros aspectos da vida social. Como nenhum outro marxista antes dele ou depois soube aplicar o materialismo histórico à interpretação da literatura, explicando a complexidade das novas escolas que surgiram nas três primeiras décadas do século em uma obra que deve ser compreendida, embora não desenvolvida de maneira sistemática, como a mais importante contribuição neste terreno. O mesmo se pode dizer dos seus escritos militares. Trotski ainda escreveu obras maiores e menores, mas de valor inestimável sobre os mais variados aspectos da vida social da moral aos menores aspectos da vida cotidiana.
Como escritor, ou seja, como talento literário que consegue unir o conteúdo a uma forma específica, eficiente que se torna decisiva para a comunicação com os demais seres humanos Trotski, entre os marxistas somente pode ser comparado a Marx. Suas obras mais elaboradas como Minha Vida, História da Revolução Russa, Stálin, Lênin etc. são, tanto quanto grandes obras de teoria marxista, grandes obras literárias, dignas de serem colocadas ao lado da dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas de todas as épocas em virtude do seu estilo clássico, da sua clareza e precisão de expressão, das suas imagens vívidas que constituem um estilo pessoal original e que dá a tudo o que é descrito e analisado um relevo incomparável.

A sua História da Revolução Russa, em particular, que pode com toda justiça ser considerada sua obra-prima será talvez a obra de historiografia ao mesmo tempo mais profunda e mais envolvente jamais escrita. O estilo de Trotski revela-se aí em toda a sua plenitude, desenvolvendo todas as qualidades até um artesanato completamente maduro que já se pode ver em seu impressionante trabalho de juventude sobre a revolução de 1905. A técnica literária é típica do século XX e das escolas de vanguarda. O leitor que espera uma árida enumeração de fatos e a justaposição de conceitos aos fatos é colocado, de chofre, dentro do cenário majestoso da revolução pra compreende-la em toda a sua extensão e profundidade. As complexas análises do materialismo histórico, da teoria política marxista, adquirem ossatura humana nas multidões e nos indivíduos; os casos individuais e os acontecimentos coletivos se entrecruzam e se fundem em todos os movimentos; a análise teórica da fisiologia da revolução se funde com a narrativa dominada em um estilo que dificilmente poderia existir antes do cinema, da psicanálise e da literatura moderna; o destino individual adquire sentido no destino coletivo das classes sociais e este último, que é o movimento da história, se vê exposto de maneira gráfica no primeiro. O livro, como um romance de James Joyce, tem uma multiplicidade de enredos e de planos que se combinam para um efeito devastador em uma obra de arte que constitui uma verdadeira enciclopédia de ciência política revolucionária.

Esta vida extraordinária aparentemente contrasta com o pano de fundo cinzento das personalidades políticas do século XX e com crescente e envolvente mediocridade de propósitos. No entanto, esta grande existência é expressão fiel, talvez a mais fiel, da sua época, marcada, como ele mesmo descreveu, pelas maiores vitórias e maiores derrotas do proletariado e da revolução. Nesse sentido, bem como em muito outros, Leon Trotski é o verdadeiro arauto dos novos tempos e das terríveis contradições da época atual.

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