O bicho-papão da imprensa capitalista: a ocupação da USP e os partidos

14 de junho de 2007

A imprensa capitalista não prima apenas pela sua completa falta de honestidade, brilha também pela carência de imaginação e pela repetição dos mesmos velhos truques de propaganda reacionária.

O jornal O Estado de S. Paulo, velho dinossauro reacionário, procurou com a pesada tentativa de sutileza que o caracteriza, intrigar os partidos de esquerda com os demais ocupantes lançando a carta do “espanto” e do “escândalo” com a presença de partidos de esquerda na ocupação.

Montado o cenário escandaloso, os velhos reacionários começaram a pintar a ocupação como um uma perigosa conspiração dirigida por “revolucionários profissionais” que “mandam” nos pobres e indefesos estudantis.

Ao ler a matéria do Estado do último domingo, pude recordar, com uma certa nostalgia da velha retórica dos anos do regime militar que ninguém mais quer lembrar... exceto, evidentemente, o Estado.

Qual é o escândalo? PCO, PSTU, PSol etc. são partidos legais, que participam da vida política do País. É pura hipocrisia acreditar que se possa transformá-los em partidos clandestinos, cavernários e sinistros, atuando em catacumbas. Os redatores do Estado não têm, por outro lado, talento para tais folhetins baratos de terror.

Por que será que a imprensa burguesa, os governantes burgueses, os políticos burgueses e até mesmo os políticos burgueses são sempre “apartidários” na sua própria propaganda.

No velho movimento estudantil dos anos 70 e 80, sempre me chamou a atenção que a propaganda contra os partidos era invariavelmente obra de partidos que estavam próximos da burguesia, como a defunta esquerda stalinista. O cinismo cru daquela propaganda antipartido feita pelos partidos que se escondiam vergonhosamente do escrutínio dos estudantes. Eram como que clandestinos dentro do movimento estudantil.

A burguesia é apartidária por um motivo muito simples. Porque os seus partidos são partidos obscenos. Quando se fala em partidos burgueses logo vem à lembrança as dezenas de escândalos com nomes pitorescos: “mensalão”, “anões do orçamento”, “Collor”, ‘operação furacão”, “operação navalha”, “operação têmis” e um incontável número de CPIs. Por esta ala dos horrores do museu de cera de Madame Tussaut que é o regime político burguês e seus partidos, passa todo o tipo de crime.

Qual crime? O crime do colarinho branco contra o povo. Todos os partidos burgueses estão envolvidos nisso até o pescoço. Mesmo o esforço dos prestidigitadores da imprensa desinformadora ao estilo do Estado não estão conseguindo distrair a atenção do público, que está cada vez mais revoltado.

Será que este enorme partido de quase 40 siglas que se chama PT-PMDB-DEM-PSDB-ETC, apesar de todo o dinheiro, de todo o apoio das finanças capitalistas, do poder do Estado que controlam, da imprensa disposta a tudo que os defende, conseguiria falar na ocupação da USP e ser ouvido pelos estudantes. Temos a mais absoluta certeza que não. Tanto que são suficientemente espertos para se fazer ausentes, ao menos como partidos.

Os partidos de esquerda não têm esta preocupação. Por isso, participam abertamente do movimento de massas em diversos lugares.

Este é o motivo que leva a burguesia e seus sicários da palavra escrita como o Estado a investir com uma mal arrumada sutileza e mal disfarçado rancor contra os partidos de esquerda na ocupação. Como não posso apresentar em público o meu partido, ruminam de maneira biliosa, também não vou permitir o seu.

É, em resumo, o apartidarismo dos partidos obscenos. A falsa castidade dos impotentes.

Entre os estudantes sempre aparecerão “apartidários” para repetir as intrigas dos dinossauros do Estado. Eles sempre existiram e existirão no ambiente de cinismo e canalhice que é a política burguesa.

Esta propaganda enganadora dirige-se à parcela inexperiente dos estudantes que acredita que não pertencer a partido é um sinal de pureza política. Em certo sentido, estão certos, porque os partidos burgueses, os mais em evidência são, efetivamente, uma fossa séptica. É, em geral, da parte dos honestos, um sinal de inexperiência política não saber distinguir acabadamente entre as quadrilhas de criminosos que são os partidos burgueses e os partidos da esquerda, em especial depois da experiência com o PT.

Acreditamos que experiências como estas vão ajudar os estudantes a amadurecerem. O movimento estudantil brasileiro tem uma tradição partidária enorme. E os partidos da esquerda, mesmo os piores, deram em seu momento uma contribuição importante para organizar este movimento. Em um momento oportuno aprenderão, com toda a certeza a não jogar a criança com a água suja do banho, como dizem os ingleses.

A luta política só pode ser travada efetivamente através de partidos. Não devemos e não podemos deixar o monopólio da organização partidária, quer dizer, da organização política aos partidos burgueses; precisamos organizar um partido próprio da classe operária e das massas em geral, entre elas os estudantes. Um partido essencialmente diferente do monturo que são os partidos burgueses.

A ocupação da USP, está claro, não pertence aos partidos da esquerda, mas também não pertence a ninguém em particular, com ou sem partido. É um movimento geral dos estudantes. Os partidos revolucionários pretendem ser apenas uma parcela mais organizada, mais dedicada deste movimento e não os proprietários do movimento com os partidos burgueses são proprietários do Estado.

Cabe aos partidos da esquerda, àqueles que se dizem revolucionários e socialistas esforçar-se para justamente expressar a vontade real dos estudantes, dar a ela maior amplitude, dar uma contribuição positiva ou ser ultrapassado pelos acontecimentos por colocar interesses particulares acima dos interesses gerais.

O grande Karl Marx já assinalou em sua época que não podemos deixar a política para a burguesia, como quer o Estadão, e nos transformar em espectadores passivos, em uma massa desorganizada que sofre apenas os efeitos da política. É preciso organizar um partido operário, o qual nada tem a ver com as monstruosidades exóticas que a burguesia insiste em chamar de partidos. Para o Estado, só Serra tem o direito a ter partido sem ser acusado de conspiração e somente os partidos burgueses, cuja arte maior é o roubo, têm direito a existir.
Marx também assinalou, e que isto sirva como advertência para a esquerda, que no movimento estudantil se diz revolucionária, que os comunistas não formam um partido com interesses próprios que se encontram em oposição aos interesses dos operários, dos explorados e oprimidos, mas trabalham sempre para representar o interesse geral do movimento em todas as suas etapas.

O valor da propaganda reacionária do Estado é que abre a discussão entre os estudantes. São os frutos do desespero com a pressão que a ocupação faz sobre a burguesia.

Afinal, em boca calada, mosquito não entra. Vamos apanhar a luva lançada pelos inimigos da ocupação e do movimento estudantil e das massas em geral e aceitar o desafio. Nosso lado da disputa tem tudo para vencer nesta luta idéias e inevitavelmente vencerá porque justamente está na trincheira da luta dos estudantes enquanto que o Estado e os demais falsos pregadores do “apartidarismo” de conveniência estão do lado de fora da ocupação, torcendo para que esta acabe o mais rápido possível de modo a permitir que o voraz sistema digestivo dos partidos burgueses, do dinheiro público, possa funcionar sem ser atrapalhado pelos interesses e demandas populares.

 

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