Os antecedentes da Revolução de 1917

15 de abril de 2007

Um dos itens do vasto arsenal de argumentos utilizados pela burguesia na luta ideológica contra a Revolução Russa é a idéia de que esta teria sido um mero acidente histórico.

Para alguns teria sido um resultado da guerra – como se a guerra não fosse precisamente uma componente essencial do regime capitalista e da sua crise revolucionária -; para outros, seria a punição inevitável recebida pelo regime político russo por não ter aderido mais prontamente ao estado mais sagrado da política que é a democracia burguesa.

Tais fábulas, no entanto, servem para obscurecer a realidade para muitos que buscam compreender de fato este inigualável fenômeno histórico.

A Revolução Russa tem, ao contrário da fábula interesseira, um longo passado. Foi um processo histórico de longa e, se podemos dizê-lo, paciente maturação.

O regime feudal russo, apoiado no latifúndio e na servidão e protegido pela monarquia absoluta, encontrava-se em um completo impasse quando Napoleão Bonaparte e seu Grande Exército invadiram o país em 1812. A vitória russa, conseguida através de uma enorme concentração de forças, de gigantescos sacrifícios e do apelo ao martirizado camponês russo tem como resultado o enfraquecimento terminal do regime feudal. Em dezembro de 1825, parte da nobreza militar a primeira tentativa de derrubar a monarquia. O movimento decembrista é o impulso necessário para voltar a sociedade russa para a revolução. A tenebrosa ditadura de Nicolau I, que se inicia exatamente na data do levante, não conseguiu impedir a revolta política de se manifestar em um vasto movimento de opinião liderado pela brilhante geração intelectual de 1848, conhecida na história russa como a “Geração dos anos 40” composta de homens da altura do filósofo e publicista Alexandre Herzen, do poeta Nicolau Ogarev e do crítico literário Vissarion Bielinski. O movimento revolucionário russo nascia também sob a influência das teorias revolucionárias européias que, apesar do atraso econômico e cultural do país, eram absorvidas com grande rapidez e lucidamente pelos revolucionários.

A luta de idéias era a expressão da revolução camponesa em marcha. Em 1861, o Czar Alexandre II, cede ao imperativo da realidade e decreta o final da servidão. Os anos que vão de 1861 a 1862 vêem uma situação revolucionária que, segundo Lênin, marca com a transformação agrária que deles resulta o início da revolução russa que será concluída em 1917.

Nestes anos revolucionários da década de 60 surgiu a nata da geração revolucionária russa de antes das revoluções de 1905 e 1917, geração em que destaca-se, acima dos demais, o político revolucionário russo por excelência do século XIX, Nicolau Chernichévski. Na luta permanente entre a revolução e a contra-revolução, foram passados em revista as teorias revolucionárias, os programas, as táticas e as formas de organização. Tudo foi testado através de fracassos e vitórias e foi confluindo em uma corrente revolucionária extraordinariamente fecunda: a propaganda política através da imprensa, a agitação de massas, as organizações jacobinas conspirativas, o terror individual e várias outras fórmulas políticas e concepções.

O partido operário russo, surgido já no século XX, apóia-se nesta inigualável tradição da escola revolucionária russa que se combina com a teoria marxista elaborada por Marx e Engels e desenvolvida pelos teóricos da social-democracia e com a enorme experiência política em organização de massas, na luta semi-legal, na atividade parlamentar e na organização sindical do socialismo europeu.

Após a derrota da revolução de 1848, a tradição revolucionária declinou na Europa avançada, a qual conhecerá um grande e último surto de verdadeiro desenvolvimento capitalista, como muito bem souberam compreender Marx e Engels. Enquanto a tradição revolucionária decaía na Europa, na Rússia, apesar de toda a repressão, ela conhecia um desenvolvimento oposto, buscando por uma estrela polar que somente ser achada no marxismo. Daí ser fácil compreender que os revolucionários marxistas russos tenham formado a mais importante corrente de pensamento revolucionário do mundo, apesar do enorme atraso do seu país em relação à Europa Ocidental.

Esta experiência foi refundida pelo marxismo e a lição passada a limpo em 14 anos de intensa luta política e duas grandes revoluções proletárias. Mas deixemos a explicação a quem melhor compreendeu este processo: “o bolchevismo surgiu em 1903 alicerçado na mais sólida base da teoria do marxismo. E a justeza dessa teoria revolucionária – e de nenhuma outra – foi demonstrada tanto pela experiência internacional de todo o século XIX como, em particular, pela experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões do pensamento revolucionário na Rússia. No decurso de quase meio século, aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento de vanguarda na Rússia, sob o jugo terrível do despotismo czarista selvagem e reacionário, procurava avidamente uma teoria revolucionária justa, acompanhando com zelo e atenção cada ‘última palavra’ da Europa e da América neste terreno. A Rússia tornou sua (sublinhado do autor) a única teoria revolucionária justa, o marxismo em mais de meio século de torturas e sacrifícios extraordinários, de heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível energia e abnegada pesquisa, de estudo, de experimentação na prática, de desilusões, de comprovação, de comparação com a experiência da Europa. Graças à emigração provocada pelo czarismo, a Rússia revolucionária da segunda metade do século XIX contava, mais que qualquer outro país, com enorme riqueza de relações internacionais e excelente conhecimento de todas as formas e teorias do movimento revolucionário mundial.

“Por outro lado, o bolchevismo, surgido sobre essa granítica base teórica, teve uma história prática de quinze anos (1903/1917) sem paralelo no mundo, em virtude de sua riqueza de experiências. Nenhum país, no decurso desses quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente, por uma experiência revolucionária tão rica, uma rapidez e uma variedade semelhantes na sucessão das diversas formas do movimento, legal e ilegal, pacífico e tumultuoso, clandestino e declarado, de propaganda nos círculos e entre as massas, parlamentar e terrorista. Em nenhum país esteve concentrada, em tão curto espaço de tempo, semelhante variedade de formas, de matizes, de métodos de luta de todas as classes da sociedade contemporânea, luta que, além disso, em conseqüência do atraso do país e da opressão do jugo czarista, amadurecia com singular rapidez e assimilava com particular sofreguidão e eficiência a “última palavra” da experiência política americana e européia” (V. I. Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo).

A revolução russa foi um produto de longo amadurecimento. Em certo sentido, pode-se dizer que este processo acelerou a formação revolucionária de toda a classe operária européia que, na sua ausência, teria demorado mais para obter uma teoria revolucionária tão acabada e tão rica como a que presidiu à criação da III Internacional em 1918.

Lênin, o Bolchevismo e a classe operária russa, longe de serem um movimento de ocasião, de revolucionários excêntricos que ganharam na loteria da história, foram a síntese e a personificação deste complexo e original desenvolvimento político que uma vez realizado através do lento e cruel trabalho da história tornaram-se patrimônio dos revolucionários de todos os países. Parodiando o grande pioneiro do pensamento revolucionário russo que foi Alexandre Herzen, podemos dizer que da mesma forma que uma criança na escola vai ter que descobrir o teorema de Euclides, mas não ter que descobri-lo do nada, apenas percorrer um caminho já percorrido, a classe operária mundial vai ter que descobrir a teoria revolucionária do bolchevismo, hoje chamada trotskismo, através do estudo e da experiência, mas não vai ter que descobri-la do nada, refazendo em muito menos tempo todo o caminho percorrido pelos imortais revolucionários russos, dos decembristas a Lênin e Trótski.

Faça um comentário

Antonio (Recife-PE)
15/4/2007 - 20:17:48
O PCO É A ÚNICA ESPERANÇA DA CLASSE OPERÁRIA PARA TOMAR AS ORGANIZAÇÕES OPERÁRIAS DAS MÃOS DOS TRAIDORES DE TODOS OS ESCALÕES. ESTÁ NAS MÃOS DE RUI COSTA PIMENTA A TAREFA HISTÓRICA DE CONSTRUIR UMA ORGANIZAÇÃO DE REVOLUCIONÁRIOS. AQUI EM RECIFE E REGIÃO METROPOLITANA VÁRIAS CIDADES ESTÃO NAS MÃOS DO PT/PCdoB, O GOVEERNO DO ESTADO FAZ PARTE DA MESMA TURMA, USA A MESMA BASE DE SUSTENTAÇÃO. AQUI SE UMA ORGANIZAÇÃO MARXISTA TOMAR AS ORGANIZAÇÕES OPERÁRIAS CAEM COM UM SÓ TIRO AS BASES DOS GOVERNOS MUNICIPAIS, ESTADUAL E FERDERAL. MAS ONDE ESTÁ ESTA ORGANIZAÇÃO MARXISTA? A CLASSE OPERÁRIA CLAMA POR ELA. SEM ESSA ORGANIZAÇÃO PARA DESCER O CACETE NOS PELEGOS, RUI, SUAS PALAVRAS VÃO SE PERDER AO VENTO; SEUS DISCURSOS SERÃO INÓCUOS. VAMOS FAZER COINCIDIR AS PALAVRAS COM AS AÇÕES. VAMOS NOS TORNAR VERDADEIROS COMBATENTES A FAVOR DA CLASSE OPERÁRIA. POR FAVOR, RUI, CHEGA DE PALAVRAS SEM A RESPECTIVA AÇÃO. A CLASSE OPERÁRIA CLAMA PELOS CIENTISTAS DO MARXISMO, COMO VOCÊ, PARA CONDUZI-LA À LIBERTAÇÃO DA ESCRAVIDÃO EM QUE ELA VIVE SOB O CAPITALISMO.)
___________________________________________________________

Comentários e respostas

Receba esta coluna por email