15 de fevereiro de 2007 O aniversário de 90 anos da Revolução Russa de 1917 certamente oferecerá para os “intelectuais” da esquerda, na sua maioria ligados direta ou indiretamente à frente popular e ao seu governo, a oportunidade para a sua tradicional lamentação sobre os “erros”, os “problemas” e as “terríveis conseqüências” deste grande acontecimento histórico. O centro da discussão é ocupado pelo stalinismo e seus crimes políticos. A esquerda burguesa e pequeno-burguesa, que não tem qualquer vínculo verdadeiro com qualquer revolução, menos ainda com a de 1917, aproveita-se da situação para oferecer um ritualístico mea culpa como estratagema para mostrar que o único merecido por este acontecimento crucial para a classe operária e a humanidade é a lamentação fúnebre e pedidos de desculpa endereçados à história. O ponto de vista revolucionário, está claro, nada pode ter a ver com esta encenação grotesca de pessoas que temem dizer abertamente que são contra a revolução por interesses menores. Para os revolucionários, o problema continua a ser a revolução, não como fantasma a ser exorcizado, mas como objetivo a ser perseguido. Para nós, a Revolução Russa deve ser discutida neste seu 90º aniversário como propunha Trotski alguns anos depois do acontecimento: ”Se, a cada guinada táctica importante, a observação que acabamos de fazer é justa, é-o tanto mais no que toca às grandes guinadas estratégicas. Em política, entende-se por táctica, por analogia com a ciência da guerra, a arte de orientar operações isoladas; por estratégia, a arte de vencer, isto é, conquistar o poder. Não fazíamos vulgarmente esta distinção antes da guerra, na época da II Internacional, limitando-nos à concepção da táctica social-democrata. E não era por obra do acaso: a social-democracia tinha uma táctica parlamentar, sindical, municipal; cooperativa, etc. A questão da combinação de todas as forças e recursos, de todas as armas para alcançar a vitória sobre o inimigo, não se levantava na época da II Internacional, pois esta não fixava como tarefa prática a luta pelo poder. Depois de um longo interregno, a Revolução de 1905 pôs novamente na ordem do dia as questões essenciais, as questões estratégicas da luta proletária, garantindo com isto enormes vantagens aos social-democratas revolucionários russos, quer dizer, aos bolcheviques. Em 1917 começa a grande época da estratégia revolucionária, primeiro para a Rússia depois para toda a Europa. É evidente que a estratégia não impede a táctica: as questões do movimento sindical, da atividade parlamentar, etc., longe de desaparecerem do nosso campo visual, adquirem agora uma importância diferente, como métodos subordinados da luta combinada pelo poder. A táctica está subordinada à estratégia. Dedicarmo-nos agora a apreciar os diferentes pontos de vista sobre a Revolução em geral e a Revolução Russa em particular, passando em silêncio a experiência de 1917, seria ocuparmo-nos com uma escolástica estéril e não com uma análise marxista da política. Seria agir à maneira dessas pessoas que discutem as vantagens de diferentes métodos de natação, mas se recusam obstinadamente a encarar o rio onde estes métodos são aplicados pelos nadadores. Assim como é quando o nadador salta para a água, que melhor se pode verificar o método de natação, também para a verificação dos pontos de vista sobre a Revolução não há nada que chegue à sua aplicação durante a própria Revolução” (1). Daqui extraímos três considerações básicas sobre a Revolução Russa. Em primeiro lugar, que esta “inaugura a grande época da estratégia revolucionária”. A esquerda brasileira e mundial atual vive, conforme a clara caracterização do dirigente da IV Internacional, na época da tática da segunda internacional, ou seja, traduzido para os dias de hoje, em uma política completamente adaptada ao regime político dominado pela burguesia. Na época atual, independentemente das flutuações inevitáveis, a política da classe operária não pode deixar de estar subordinada ao problema estratégico da tomada do poder, conforme já se demonstrou mais de uma vez, mas acima de tudo em 1917. A política que prega “a combinação de todas as forças e recursos, de todas as armas para alcançar a vitória sobre o inimigo” e que é uma decorrência da primeira idéia introduz uma completa mudança na maneira de pensar da vanguarda operária após 1917 tornando obsoletas de fato, ainda que não eliminando-as do panorama político, as fórmulas tradicionais dos partidos reformistas na luta política. No Brasil, a lição da esquerda, em particular de todas as alas do PT, constituem neste sentido, um verdadeiro manual de uma política superada pelos acontecimentos e desastrosa. Finalmente, Trotski assinala claramente que a discussão sobre a revolução em geral tem um caráter prático e que este caráter prático obriga o exame da atividade prática real da revolução, em particular daquela que foi completamente vitoriosa contra todas as expectativas como no caso da Revolução Russa de 1917. A Revolução Russa de 1917 é o maior, mais acabado e mais importante exemplo da luta revolucionária vitoriosa do proletariado, da compreensão da tática e estratégia política proletária nos dias de hoje e dos seus métodos de luta. Por este motivo é que ela deve ser celebrada e estudada no seu 90º aniversário. (1) Leon Trotski, As lições de Outubro. Faça um comentário Comentários e respostas ___________________________________________________________ Gilcênio Vieira Souza (Pio XII – MA)
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