A guerra civil brasileira

17 de março de 2007

O Núcleo de Estudos sobre a Violência da USP acaba de divulgar um estudo que mostra que a Polícia Militar, em distintas partes do País, assassinou cerca de 7 mil pessoas no ano de 2002 a 2005. A este número deve-se somar os 350 mil presos e mais de 200 mandados de prisão não executados, as torturas em delegacias e todos os demais aspectos desta situação calamitosa.

Uma certa direita raivosa, que hoje em dia chama a si mesma de “democrática”, sem deixar por isso de ser a velha direita cavernosa de sempre, considera que o aumento da repressão contra o conjunto da população pobre do País é a via a ser percorrida para enfrentar o problema.

O clamor pelo aumento sistemático da repressão não deixou de fora sequer a chamada extrema-esquerda, como se pôde verificar na campanha presidencial na propaganda histérica da candidata da “frente de esquerda” por uma “dura” repressão contra os criminosos, idêntica como duas gotas d’água com a pregação reacionária da direita. O mais impressionante é que esta pregação pela maior violência do Estado opressor e explorador contra os mais pobres é que é feita paralelamente à exploração demagógica do cristianismo que pregou, em tempos imemoriais, que os homens deviam amar-se uns aos outros.

Somente os muito simplórios, reacionários ou não, podem ignorar que o crescimento da criminalidade guarda uma relação íntima e direta com a crise capitalista e a desagregação política e social que ela comporta. Menos que ninguém poderia a esquerda, como PT e PCdoB, e a extrema-esquerda como PSol e PSTU ignorar tais fatos.

A crise de criminalidade nada mais é que um aspecto da crise política e social geral do capitalismo, independentemente do anedotário macabro, o crescimento da criminalidade é uma expressão da revolta da sociedade contra si mesma, ou seja, uma convulsão do organismo social profundamente atingida pela crise.

A receita da violência para “pacificar” a sociedade, o clamor pela repressão nas favelas, nos bairros pobres, é a falsa solução facistóide e bárbara para um problema gigantesco. Na medida que em nada serve para resolver problema algum, é uma recita demagógica, uma violência gratuita, uma reação desesperada dos privilegiados diante dos efeitos da crise da sua dominação por eles mesmos provocada.

Nos Estados Unidos, a atividade repressiva ao extremo do imperialismo, criou uma população carcerária de cerca de dois milhões de seres humanos, sem diminuir a crise, sem solucionar nada.

O objetivo da repressão não é combater o crime como fenômeno social, mas aterrorizar a população pobre levada ao precipício do desespero para conter a revolta social que se expressa através do elemento mais fraco, de forma desordenada, puramente destrutiva. O fortalecimento da repressão estatal, no entanto, somente terá como resultado maior opressão, maior exploração, maior corrupção e, conseqüentemente, maior miséria e maior revolta e destruição. A repressão estatal também não está voltada para combater o crime, uma vez que o aparato do Estado em seu conjunto não pode escapar à crise social e está profundamente dominado pelo crime e pelos criminosos, em particular o aparelho repressivo, que seria o encarregado de “combater o crime”. Igual a toda a sociedade, o Estado não está acima da crise capitalista, antes está o olho deste furacão.

A única solução real é a luta contra o conjunto da organização política e social, que deve ser liquidada para abrir caminho para uma reorganização social geral. Esta é, por definição, uma luta revolucionária. Não se trata apenas de um objetivo posterior, a consumação da revolução social, mas também de um objetivo imediato, porque cada passo prático na luta pela revolução social é uma luta concreta e imediata contra este estado de coisas e com conseqüências imediatas sobre a realidade. Quando uma parcela da sociedade organiza-se para combater a doença social que é o capitalismo, como todo anticorpo, abre-se a perspectiva de uma melhora no estado de saúde social de imediato, que deverá ser generalizada e consolidada pela transf]ormação social geral.

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Comentários e respostas

Thomas Brasileiro (Santo André - SP)
10/4/2007 - 10:50:09

A luta em si é mero processo e, por ser processo, não é o fim. Na realidade, trata-se de um meio.
Sendo assim, a luta em si não é a solução de nada.
Após a luta, com uma eventual vitória, o que se fará com o poder é que conta.
Será que temos a oferecer à sociedade brasileira um plano coerente e aplicável para uma nova organização social?
Talvez seja a ausência de um planejamento concreto para essa nova organização social que nos faz ter tão baixo número de votos nas eleições que disputamos até hoje.
Caso não seja a ausência do referido projeto concreto e implementável a razão da nossa baixa votação, com certeza é a falta de sua divulgação de maneira clara e objetiva, sem ufanismo.

Geraldo Esteves (Belo Horizonte - MG)
7/4/2007 - 23:34:43

A persiguição sofrida pela classe trabalhadora é incomensurável. Os direitos básicos são negados a população assalariada. Todo movimento de reação sofre o espancamento da PM. Em diversos episódios como o dos moradores da favela cachoeirinha que interditaram um dos principais corredores da cidade em protesto contra a atitude criminosa da PM que atirou em um morador indefeso, a população tem reagido com paus e pedras.

Luciano Pita (Niterói- RJ)
25/3/2007 - 23:19:57

: "A guerra civil brasileira"
Mas qual seria a saída: a conformação de um partido revolucionário que busque a participação popular sem romper com sua natureza revolucionária e socialista ou a guerilha, seja ela popular ou não?
Todas as conquistas populares alcançdas através da guerrilha descambaram em ditaduras burocráticas e opressores dos trabalahdores. E Pela via partidária acabaram cmo PT, PDT, etc.
Qual a melhor via?

Luiz Cláudio Azevedo Guterres (Pelotas- RS)
24/3/2007 - 13:11:01

Olá caros amigos socialistas!
Quanto ao texto ! A Guerra Civil Brasileira" o que acabamos de ler é uma realidade da crise profunda do sistema capitalista onde a concentraçao renda, a exploração da classe trabalhadora e a corrupção representam os caprichos das elites que governam este país não possuem alguma preocupação com os deveres do Estado. Então procuram apenas medidas oportunistas momentâneas para burlar o povo. Esse modelo de estado burguês já está falido!
O socialismo é o caminho!Partido é o PCO!

Geraldo Esteves Paiva (Belo Horizonte - MG)
6/4/2007 - 22:52:31
O extermínio de membros da classe trabalhadora, pela PM, expressa o desespero da classe privilegiada diante da reação desesperada dos explorados, que desistem da vida sub humana do assalariado ou desempregado e  partem para o crime, em busca da sua participação no lucro expropriado de sua classe. 6 março 2007 Geraldo Esteves Paiva.

Carlos (Recife - PE)
6/4/2007 - 17:08:12
Devemos apresentar o que corresponde. Para liquidar com a violência, o primeiro que a de reivindicar é a dissolução do aparelho repressivo do estado, das milícias armadas que atuam, igual que na colômbia, como parapoliciais, sendo que na realidade é o próprio estado quem as arma "moral" e materialmente. Só os trabalhadores através de suas organizações de classe, que há  que recuperar para a luta operária, é que poderão estabelecer os passos a dar-se para acabar com a violência estatal, o crime organizado com seus vínculos com os mandantes e abrir uma perspectiva real neste terreno

Rafael Mendes (Gravataí- RS)
21/3/2007 - 13:32:52

Boa Tarde! Na minha opiniao; o aumento da repressao so aumenta a revolta.acho que reprimir e dar algum tipo de resposta a burguesia.Acho tambem que tudo passa pela educaçao;pois mais tempo na escola menos tempo na escola do crime; penso que as escolas de turno integral de 1 ate a formaçao superior;resolveria dois problemas,primeiro as maes trabalhodoras deixariam seus flihos na escola e poderiam trabalhar em paz;segundo as crianças e jovens adolecentes se ocupariam sem tempo para entrarem no crime; uma escola com ensinamentos socialistas;como viver em igualdade sem que presise explorar o proximo.em fim uma politica social de verdade que nao beneficie minoria( burguesia) e sim a maioria(proletarios).Essas soa so pequenas amostras do que pode ser feito para eliminar essa grande onda de criminalidade que asombra a nos todos

Arimatea Lafayette (Maceió- AL)
21/3/2007 - 17:50:31

A direita se diz democrática, porém é fascista, autoritária e ditatorial. Se não tivermos educação a polícia matará a serviço do estado democrático de direito.

Denis Ferreira (São Paulo- SP)
22/3/2007 - 13:32:52

Gostei bastante do texto, pois é bastante esclarecedor quanto as causas verdadeiras da violência que assola o nosso país.

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