Getúlio e Lula

18 de fevereiro de 2007

As comparações com a Revolução de 30 foram constantes após o final do regime militar. Tancredo Neves, por exemplo, apelidou o novo regime pseudo democrático de “Nova República” em recordação à “República Nova” que surgiu da revolução de 30. Apesar das intenções, a regeneração esperada da República não ocorreu. De crise em crise, com intervalos de calmaria, apoiados nas derrotas operárias, o regime político foi se decompondo. Não deixa de ser um destino paralelo do da República Nova...

Maiores e mais importantes semelhanças, porém, podem ser encontradas nas figuras dos dois grandes líderes da política burguesa no período, isto é, entre Getúlio Vargas e Lula.

O que eles têm em comum, no fundamental? São líderes políticos que conseguiram erguer-se acima das estruturas e instituições políticas tradicionais da burguesia, em grande medida por necessidade política e, em menor medida, do ponto de vista da sua psicologia individual, pela sua ambição que os torna pessoas completamente desligadas dos esquemas políticos fixos que, mais que em outros políticos burgueses, é visto apenas como trampolim. O primeiro, um fato material da política, é a condição do fenômeno psicológico e pessoal.

Vargas foi o pivô das intrigas políticas no interior do Estado, a partir da revolução de 30, pela sua dupla condição de homem de confiança da ala mais reacionária da burguesia e pela sua independência política dos partidos. Sua autoridade como chefe da oposição legal ao regime, vítima da fraude nas eleições que precederam a queda da República Velha, lhe dava um pequeno, mas necessário apoio popular. A sua falta de poder político real lhe permitia colocar-se cada acima do regime político na mesma medida em que todas as facções políticas e classes sociais fracassavam em dar um rumo político ao País. O governo bonapartista de Vargas foi consolidado a partir de 37 no Estado Novo.

Lula se encontra em uma situação análoga em uma etapa prévia à desagregação revolucionária do Estado. A crise do PT, com os episódios, da sua derrota eleitoral nas eleições municipais de 2002, e da crise posterior do “mensalão”, representou a quebra do mais importante e, em certo sentido, último pilar de sustentação do regime parlamentar, isto é, do regime onde o controle das massas que dá estabilidade ao Estado se faz através do regime representativo e de eleições periódicas, cuja engrenagem central é o parlamento.

O PT foi quebrado em função das suas contradições internas e do enorme poder político que adquiriu ao chegar ao leme do estado em face da desagregação acentuada dos partidos adversários. A divisão do PT mostrou-se, agora, de corpo inteiro com a disputa pela presidência da Câmara e com o desafio ao presidente da República. A força de Lula rumo a uma autonomia do executivo repousa justamente na incapacidade do PT de controlar efetivamente o regime burguês devido aos interesses profundamente contraditórios da burguesia. O PT contestou a preponderância dos banqueiros sobre a política econômica, pedindo a exoneração da Meirelles, representante direto dos bancos e foi rejeitado por Lula.

Agora, abre-se uma nova luta em torno à composição do ministério. Na medida que o PT, liderado por José Dirceu, que vem conquistando uma hegemonia completa dentro do partido, aumenta suas demandas de controle do governo, a crise do sistema partidário e parlamentar tende a se intensificar em proveito do executivo, com o apoio do setor mais importante dos grandes capitalistas que não pode abrir mão do seu controle sobre o governo e a política econômica.

O papel de Lula, como o de Vargas da década de 30 é o de jogar em todos os times que disputam o campeonato, do Operário futebol Clube ao Esporte clube Milionários, agradar a todas as torcidas, ao mesmo tempo em que não tem contrato com nenhum destes clubes e nem compromisso com nenhuma torcida. Na realidade, Lula é o craque do Lula FC e tem compromisso apenas consigo mesmo, o que o torna dependente, em última instância do setor mais poderoso do capital nacional e estrangeiro como ocorreu com Getúlio.

A marcha da crise determinará quanto futuro tem o ensaio lulista de bonapartismo, em particular o efeito da crise sobre a organização independente da classe operária.


Faça um comentário
___________________________________________________________

Comentários e respostas ___________________________________________________________

Paulo Edson Silveira (Juiz de Fora - MG)
20/2/2007 - 21:09:56

Ilmo. Companheiro Rui Costa,
O exemplo ímpar de Ernesto Che Guevara, deve ter como parâmetro básico o desprendimento material e pessoal, que o mesmo possuía. Após seu assassinato brutal por ordem da velha CIA, a esquerda latino-americana declinou, e velhas oligarquias continuaram no poder. Após a queda do Muro de Berlim, a ideologia capitalista se intensificou, só que as contradições do capitalismo, parecem não poder serem superadas. Têm que se analisar o exemplo do Che,e olhar-se por exemplo, se Hugo Chaves e Evo Morales serão herdeiros da esquerda revolucionária, isto parece prezado companheiro Rui, que só o tempo e a história nos dirão. Fraternalmente, Paulo

 

Receba esta coluna por email