19 de abril de 2007 As revoluções são feitas pelos seres humanos, mas não são obra de indivíduos, são a obra das grandes massas humanas. A Revolução Russa foi a obra das massas operárias dirigidas por um partido de vanguarda, que se formou através de mais de meio século de luta sacrificada. A qualidade principal deste partido é que expressava no seu programa, na sua teoria revolucionária de vanguarda, na sua organização e na sua tática política, a consciência de classe profunda alcançada pelo proletariado russo. O Partido Bolchevique foi, também, o resultado de 15 anos de luta, de 1903 a 1917, contra as mais diversas tendências burguesas no interior do movimento operário e somente se formou de modo definitivo sob o calor da própria revolução. No momento em que toma o poder do Estado conta em suas fileiras com centenas de dirigentes talentosos, produto deste milieu revolucionário que os formou, no que diz respeito à maioria, desde a adolescência. Este partido não tinha absolutamente nada a ver com a maioria dos partidos de esquerda que os sucederam. Não se trata apenas de que haviam rejeitado todo o carreirismo pela causa do socialismo, da qual nunca tiraram, nem mesmo no governo, qualquer proveito pessoal ou que tivessem enfrentado a perseguição do maior estado policial da época, mas sobretudo do fato de que haviam tido a sua personalidade política formada sobre a base da luta operária real, da organização dos operários, da luta ideológica mais profunda e intransigente. Não é por nada que a ditadura stalinista tenha se erguido definitivamente apenas sobre os seus cadáveres em um dos processos políticos mais complexos da história da humanidade. Sobre este grupo extraordinário erguiam-se dois líderes ainda mais excepcionais, dos mais excepcionais com que qualquer classe, qualquer país, qualquer revolução já contou até hoje. Ainda hoje é difícil avaliar corretamente a grandeza política e moral de homens como Vladimir Lênin e León Trótski. Lênin, o verdadeiro arquiteto intelectual e político da vitória da classe operária na revolução e principal criador do seu partido dirigente, personifica acabadamente a evolução da classe operária sob a influência do marxismo. Merece justamente o título de maior cérebro político que o mundo já conheceu. Diferente dos heróis políticos da burguesia, alguns extremamente talentosos e até geniais, não pôde escalar uma máquina política já pronta dentro de um regime político já pronto, apoiado pela imensa riqueza de uma classe dominante. Ao contrário, ergueu dos porões da sociedade uma classe não apenas inculta como em grande medida analfabeta, organizando um partido acabadamente revolucionário e mostrou, pela primeira vez em toda a história, como uma classe despossuída poderia arrancar o poder das mãos dos poderosos, ricos, assentado no poder há séculos. Esta obra continua e adquire um aspecto ainda mais espantoso com Lênin à frente do governo soviético onde revoluciona completamente o que sempre se entendeu por arte de governar. Ao invés de estabelecer, como gostariam os utopistas reformistas da esquerda dos dias de hoje, criar castelos institucionais e sociais de areia, não deixou-se “guiar por normas calculadas para um tempo remoto, mas por considerações revolucionárias conformes à sua finalidade” (1). O governo de Lênin é o caso mais desenvolvido e acabado de governo revolucionário, isento de considerações utopistas. É um puro governo revolucionário porque responde, com uma consciência que nenhum governo revolucionário antes dele teve, à situação concreta da luta entre a revolução e a contra-revolução, ao fato de que a luta entre a classe operária e a burguesia estava muito longe de ser concluída, e não a fantasias de edificar por um ato de vontade o paraíso na terra. O tratado de Brest-Litóvski, a guerra civil e o chamado comunismo de guerra, a Nova Política Econômica, a luta pela unidade ante a classe operária e o campesinato, a luta pela unidade do partido governante, todos estes fatos e muitos outros somente podem ser compreendidos e corretamente apreciados à luz da idéia de que se tratava de um governo revolucionário, de luta contra a burguesia, cuja consideração primeira era a luta de classes e não planos artificiais. Toda esta obra, porém, ficaria para sempre incompleta sem os noves meses que vão da revolução de fevereiro à revolução de outubro, onde Lênin conduz com a segurança de um regente de orquestra que tivesse ensaiado exaustivamente antes do espetáculo. Lênin e Trótski sempre consideraram a revolução de 1905 como o “ensaio geral” da revolução de 1917 e, antes deste ensaio geral, com figurino e cenários completos, houve milhares de “ensaios” parciais, tanto na mente como na realidade prática, onde centenas de milhares de problemas concretos da revolução foram sendo resolvidos. Neste sentido, o virtuosismo político de Lênin na revolução não é misterioso, nem pode dar lugar a hipóteses sobrenaturais ou idealistas. No entanto, seu papel absolutamente central chama a atenção para o fenômeno histórico da concentração das forças em acontecimentos, instituições e indivíduos. Esta sabedoria adquirida pela longa e tortuosa marcha da deusa da revolução acumulou-se, concentrou-se em uma personalidade, um caráter e uma inteligência superior criando para a maior revolução de todos os tempos o maior líder revolucionário que se poderia conceber. (Continua) (1). León Trótski, Terrorismo e comunismo.Faça um comentário Comentários e respostas Antonio (Recife - PE) Fernando Brás Cardoso Pereira (Francisco Morato - SP)
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