Reforma política: o que a classe trabalhadora deve defender?
1 de dezembro de 2006
Ontem, nesta coluna destacamos a frente política que se formou entre partidos de direita e de esquerda para “lutar” juntos pela “democracia”. O sentido do ato público pode ser visto pelo discurso de Heloísa Helena afirmando que “as divergências políticas dos partidos que estão nesse ato e a oposição implacável, sem nenhuma flexibilidade tática, que fazemos ao governo, mas não é justo que o vice-presidente José Alencar, que hoje é o Presidente da República, em pleno gozo do seu direito constitucional e o partido dele não possa ter os mesmos direitos”. Para a esquerda, a “democracia” é um valor acima dos partidos e justifica a aliança com o governo. Contra quem, então, seria esta luta? Está claro que é a luta para convencer os senhores deputados e senadores do erro que estão cometendo com a reforma política em marcha.
Ontem, por falta de informação, não destacamos um fato da maior importância, que destacaremos hoje: a participação no ato do presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, José Maria de Almeida que declarou comicamente que “com a mesma gana com que defendemos os interesses do povo e dos trabalhadores, defenderemos a existência dos nossos partidos”. Nossos partidos? Dos trabalhadores, juntamente com o grande industrial e vice-presidente da República José Alencar? Ou será dos partidos “deles”, os que estavam no ato: vamos defender a existência dos partidos burgueses com a mesma “gana” que defendemos o interesse dos trabalhadores? Seja como for...
A frente de “esquerda” alia-se, agora, formalmente, com a direita para... “defender a democracia” e a “existência dos nossos partidos”.
A chamada “reforma partidária”, repetimos aqui o que dissemos ontem, é obra da burguesia, dos seus partidos, o que inclui logicamente todos os partidos burgueses presentes no ato: PRB, PV, PCdoB etc. Chamar os trabalhadores a lutar contra ela em aliança com estes partidos é mais que demagogia, é um ataque direto à organização independente e à consciência de classe do proletariado brasileiro.
Esta unidade, contudo, tem o mérito – e não é pouco – de colocar em relevo a ideologia política dos dois partidos da esquerda presentes ao ato, PSTU e PSol, ou seja, o seu completo abandono de qualquer perspectiva socialista em favor da ideologia burguesa.
A “luta pela democracia” não é uma luta da classe operária. A classe operária luta pelo governo operário e pelo socialismo, os quais nada tem a ver com a democracia burguesa, mesmo que esta seja entendida de uma maneira muito mais ampla do que o simulacro de democracia burguesa que existe hoje no Brasil ou, mesmo, no mundo, nesta época de decadência da burguesia e, portanto, da própria democracia.
A classe operária luta pelos seus direitos democráticos contra a burguesia e contra o regime democrático da burguesia para criar as condições para levar adiante a sua luta de classe contra a burguesia. O movimento operário não luta por um regime burguês ideal, mas por liberdade para se organizar politicamente, atuar política e vencer a burguesia.
O regime político brasileiro não é apenas antidemocrático, mas uma monstruosidade antidemocrática. Nenhum dos partidos presentes ao ato, incluindo aí a “esquerda” nunca fez caso disso, ao contrário, sentiram-se sempre neles como um peixe dentro d'água. Foi por este motivo que Heloísa Helena, indignada, pediu a repressão, no que foi atendida pelo seu companheiro de luta nesta frente “democrática”, Aldo Rebelo, que mandou prender mais de 500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, quando estes invadiram este templo da democracia que é o Congresso Nacional.
O que está em jogo em toda a reforma política são os direitos políticos da classe operária, não dos grandes empresários como José Alencar ou de serviçais da burguesia como o PCdoB.
A luta pelos direitos políticos da classe operária – por integral liberdade partidária, por exemplo – não podem ser conquistados juntamente com os seus inimigos em nome de que a “democracia” unifica a todos.
A frente “democrática”, ou seja, a frente da frente de esquerda do PSol e PSTU com os partidos do governo Lula, incluindo o PT, que estava também cinicamente presente ao ato, não tem como objetivo nenhuma democracia, mas a busca de uma saída, através da concessão de um privilégio para que os partidos burgueses de menor estofo possam ter participação nos privilégios e na mamata do Congresso Nacional.
A classe operária e suas organizações têm que se organizar de forma independente não só da burguesia e da esquerda governamental, mas também daqueles que, como PSol e PSTU, lhes apresentam como solução a arapuca da frente com os partidos que compõem o governo “mensalão” de Lula e do PT.
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