85 anos da “Semana”

22 de fevereiro de 2007

A provinciana cidade de S. Paulo de 1922 viu, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, um grupo de jovens artistas, filhos da burguesia, realizar o que, para a época, parecia a mais escandalosa manifestação pública possível aos olhos do público culto da época.

Alegremente inspirados pelos Dadás alemães e franceses que, nos anos anteriores e até então, haviam sacudido os círculos literários da capital cultural do mundo, Paris, os brasileiros, realizaram uma verdadeira revolução no interior do copo d’água da acanhada sociedade cultural da época.

O cenário não poderia ser melhor escolhido: o Teatro Municipal, construído por inspiração da arquitetura francesa do século XIX, aumentava a incongruência de todo o espetáculo.

Como ocorre em qualquer verdadeira revolução, o edifício contra o qual se arremetiam estava podre do alicerce até o topo. As últimas manifestações da literatura e da arte da geração republicana dos anos 70 do século anterior haviam assumido a forma de um maneirismo decadente, ritualístico e insuportável. Esta cultura transformada em norma oficial já vinha sendo solapada por toda uma geração de pioneiros isolados como Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros que se afastavam do bizantinismo literário da República Velha para descobrir entre as construções decadentes da economia do café as contradições da formação nacional brasileira que levariam à Revolução de 30.

Hoje, à distância de quase um século, já não pode haver qualquer dúvida da estreita ligação entre a revolução cultural iniciada em 22 e que dominaria a paisagem literária e artística brasileira até a guerra mundial, e a Revolução de 30. É também nesta conexão que deve ser procurada a explicação das diferenças, em meio a tantas influências e determinações, entre o chamado modernismo brasileiro e as vanguardas européias como o expressionismo, o cubismo, o futurismo, o movimento Dadá e o surrealismo.

Enquanto que os últimos eram uma manifestação internacional da crise capitalista internacional, tendo como centro a repulsa à carnificina da I Guerra, o conjunto das manifestações da revolta brasileira, tem um conteúdo fundamentalmente nacional. Na Europa e, de maneira análoga, nos EUA, as vanguardas artísticas e literárias respondem à decadência e decomposição do capitalismo, no Brasil, ao crescimento e desenvolvimento do capitalismo que anseia por uma porta de saída do atraso e do abraço de urso do imperialismo mundial. Em certo sentido, apesar das profundas influências recíprocas, são dois movimentos culturais opostos, unidos pela luta comum contra o imperialismo mundial.

A “Semana” mostra como as formas do pensamento e da cultura podem servir, com pequenas modificações, a conteúdos diversos. Não se pode deixar de notar a identidade entre os happenings dadaístas em Paris após 1918 e a manifestação da “Semana”. No entanto, enquanto que os primeiros estavam compenetrados de um completo niilismo cultural, que visava a colocar tudo abaixo, toda a cultura ocidental maculada pelo sangue e pela lama da guerra, os outros visavam claramente a construir uma cultura nacional, a modernizar o País e a introduzir novos caminhos para superar o atraso nacional.

No mesmo ano, surge uma espécie de manifesto do movimento, como prefácio, o famoso Prefácio Interessantíssimo, do livro de poemas de Mário de Andrade, Paulicéia, onde em meio a uma profissão de fé de anarquia cultural, o “desvairismo”, assimilado do dadaísmo, se pode entrever aonde conduz tanto desvairio:

Bilac, Tarde, é muitas vezes tentativa de
harmonia poética. Daí, em parte ao menos, o
estilo novo do livro. Descobriu, para a língua
brasileira, a harmonia poética, antes dele
empregada raramente. (Gonçalves Dias,
genialmente, na cena da luta, Y-Juca-Pirama).
O defeito de Bilac foi não metodizar o invento;
tirar dele tôdas as conseqüências. Explica-se
històricamente seu defeito: Tarde é um apogeu.
As decadências não vêm depois dos apogeus.
O apogeu já é decadência, porque sendo
estagnação não pode conter em si um progresso,
uma evolução ascensional. Bilac representa
uma fase destrutiva da poesia; porque toda
perfeição em arte significa destruição. Imagino
o seu susto, leitor, lendo isto. Não tenho tempo
para explicar: estude, si quiser. O nosso
primitivismo representa uma nova fase
construtiva. A nós compete squematizar,
metodizar as lições do passado.
Volto ao poeta. Ele fez como os criadores do
Organum medieval: aceitou harmonias de
quartas e de quintas desprezando terceiras,
sextas, todos os demais intervalos. O número
das suas harmonias é muito restrito. Assim,
“... o ar e o chão, a fauna e a flora, a erva e o
pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera,
a água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera”
dá impressão duma longa, monótona série de
quintas medievais, fastidiosa, excessiva, inútil,
incapaz de sugestionar o ouvinte e dar-lhe a
sensação do crepúsculo na mata.

O nacionalismo cultural é a estrada que a cultura brasileira está obrigada a percorrer, o que fica claro nas manifestações culturais “espiritualistas” da direita católica e outra, como Jorge de Lima, bem como na literatura burguesa que reflete as tendências revolucionárias da classe operária, como Oswald de Andrade.
É por este motivo que o nacionalismo cultural da Revolução de 30 soçobrou e despedaçou-se em diversas manifestações do integralismo ao trotskismo após os anos, oferecendo o maior e mais importante caleidoscópio através do qual se pode ver a cultura e as contradições nacionais.

 

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