Iraque: uma tomografia computadorizada do imperialismo

26 de novembro de 2006

”Um país mergulhado no caos”. Esta é a conclusão do relatório da ONU sobre a situação do Iraque, resultado da invasão norte-americana em março de 2003.

Em três anos e meios, a invasão estrangeira matou 50 mil pessoas, apenas no que respeita à população civil. Estima-se que o número de militares mortos pelos bombardeios é muito maior. Dois milhões de iraquianos foram obrigados a fugir do seu próprio País, cuja infraestrutura já foi considerada, apesar da pobreza do País, uma das melhores do Oriente Médio. Cerca de meio milhão migrou dentro do País fugindo das áreas de maior conflito. Somente no mês passado quase quatro mil civis foram mortos. O país está dividido em todos os sentidos.

O martiriológio do povo iraquiano, seguindo o padrão das últimas décadas em diversos países como a antiga Iugoslávia, Ruanda, a antiga URSS, é o resultado direto da política do imperialismo mundial.
Para justificar a invasão e legitimar seus objetivos de pirataria, o imperialismo norte-americano lançou a esfarrapada campanha ideológica de que estava invadindo o País para defender a “democracia”, como se uma operação militar de bilhões de dólares pudesse ter tal justificativa, em particular de um Estado dominado até as menores engrenagens burocráticas por grandes corporações que são capazes de qualquer coisa para ganhar ou não perder dinheiro.

Passada a densa nuvem de palavras utilizada para transfigurar a realidade, ficam os fatos nus e crus. A dádiva do imperialismo ao povo iraquiano é a destruição, o genocídio, o caos, a tortura, a opressão política mais violenta, a destruição e a pilhagem econômica.

A enorme crise imperialista no Iraque, causada pela resistência iraquiana apoiada sobre a crise mundial, coloca às claras o aspecto político do problema: o esgotamento visível da ideologia democrática com que o imperialismo encobre seus crimes contra todos os povos do mundo. Depois do Leste Europeu, onde as “ditaduras” foram substituídas pelas “democracias” imperialistas, a crise iraquiana está se revelando o túmulo do imperialismo “democrático”. Os sinais desta crise estão em todos os lugares, da América Latina ao Oriente, da Europa aos EUA.

Um segundo grande mito ideológico está sendo subvertido no Iraque. A interpretação arbitrária e puramente ideológica dos acontecimentos no Leste Europeu e na ex-URSS levou tanto ao mito da “democracia” imperialista como ao mito complementar da “força” do capitalismo. O Iraque é uma demonstração de fraqueza muito maior do que já foi a derrota imperialista no Vietnã 30 anos atrás. Não apenas a resistência iraquiana não tem e nunca terá a consistência da feroz resistência vietnamita, como que a crise começa a atingir o imperialismo em casa muito antes que tenha atingido a dimensão que atingiu no Vietnã. Isso se deve não propriamente ao fato de que o Iraque seja comparável ao Vietnã, mas ao fato de que o imperialismo de 2006 é incomparavelmente mais fraco que o imperialismo dos anos 70.

A crise iraquiana indica, na realidade, que o imperialismo nunca se recuperou, senão superficialmente, da crise dos anos 70, contrariando ponto por ponto o otimismo ideológico dos seus defensores e dos que buscavam pretextos para o fracasso do stalinismo.

É possível dizer que, de uma certa forma, o imperialismo repete hoje, em condições de maior senilidade, a crise que levou à situação revolucionária mundial do início do século XX. Naquele momento, a crise geral do imperialismo, após décadas de democracia parlamentar, expressou-se na grande onda nacionalista e na Guerra Mundial de 1914. Conforme se sabe, as repetições históricas não são verdadeiras repetições, mas a imagem degradada do passado. Passadas tanto a euforia do crescimento dos anos 50 e 60 e a onda democrática dos anos 80 e 90, com o cume revolucionário dos anos 70, o imperialismo é hoje uma sombra do que já foi e se avizinha uma crise sem precedentes. O Iraque, mais que o núcleo central da crise, é um sintoma.

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