Crise dos partidos burgueses, crise da esquerda pequeno-burguesa

29 de novembro de 2006

A crise do regime político burguês não se expressa apenas na crise dos partidos burgueses, como seria natural, incluído aí o partido de Lula, Luís Gushiken, José Genoíno, Ricardo Berzoini e Antônio Palocci, travestido de partido “dos trabalhadores”. Ela tem uma outra expressão, com toda a certeza inesperada para muitos, na crise dos partidos da chamada “extrema esquerda” como o PSol e o PSTU.

Estes partidos formaram uma “frente de esquerda” para as eleições. Esta foi apresentada ao público como uma frente de luta e não apenas uma operação eleitoral. Seria a tentativa de organizar a “vanguarda” para a luta, seguindo um cânone tradicional da esquerda pequeno-burguesa de ocultar sua política que consiste, acima de qualquer coisa, de lutar por uma participação no Estado burguês para compensar o seu completo raquitismo social.

A participação da “frente de esquerda” nas eleições foi um estrepitoso fiasco.
Todos os integrantes da coligação acreditavam que a política eleitoral não passaria das anódinas declarações a favor da “luta”, contra o “neoliberalismo” etc., uma política que permite qualquer tipo de acomodação pela sua completa ausência de conteúdo político efetivo. Para o público pouco crítico a que esta esquerda se dirige, o caráter burguês liberal da política fica disfarçado por uma fraseologia socialista. Desta vez, no entanto, a candidata presidencial, sentada no tapete voador do apoio escancarado que lhe dava a burguesia, traçou um roteiro completamente diferente. Explorando a sua completa independência em relação a todos os integrantes da frente, tanto as diversas facções do PSol como do PSTU, lançou-se a uma política significativa: escolheu como vice César Benjamin, um elemento da burguesia, redator do programa presidencial do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, do PMDB, aliado preferencial de Lula, e adotou uma política claramente voltada para conquistar o apoio de setores dos grandes capitalistas. Chegou ao extremo de fazer uma campanha mais reacionária que Geraldo Alckmin do PSDB. O ex-governador de S. Paulo, sendo um homem da organização católica de extrema-direita Opus Dei, foi poupado de fazer declarações reacionárias sobre diversos problemas, que a candidata do PSol fez absoluta questão de fazer, como o aborto, a religião, a repressão ao crime, a repressão aos sem-terra etc.

Esta campanha desorganizou não apenas a própria campanha eleitoral, como também liquidou, de fato, a frente de esquerda que, agora, se dissolve lentamente porque os seus integrantes não querem chamar atenção para o velório e para o enterro que denunciam a completa falta de perspectiva de sua política.

Terminadas as eleições, o vice – a figura-chave da coligação – imediatamente retirou-se sem qualquer cerimônia, propondo... um acordo com o governo Lula que, supostamente, seria o grande inimigo da frente e daqueles que dizem representar, os trabalhadores!
Nas eleições, Heloísa Helena teve cerca de seis milhões de votos. Para uma frente de luta contra o governo seria um capital para lançar uma política que colocasse o novo governo em xeque, principalmente tendo em vista a grande debilidade com que Lula sai da eleição, buscando um governo de unidade nacional. No entanto, nem uma única pessoa da frente pensou em utilizar esta votação para nenhuma política de oposição, seja qual for. O fato é que, a evolução posterior à eleição revelou que estes votos nada mais são que um mero registro estatístico, sem significado político algum, uma vez que o eleitorado assumiu um perfil político e ideológico claramente conservador, e, portanto, não servem sequer para manter a frente unida. A maior manifestação de que tais votos não têm valor político algum é a distância entre o desempenho da candidatura presidencial e a performance eleitoral nos estados, onde a eleição foi um completo fiasco.

A conclusão fundamental é que a frente de esquerda foi uma composição de ocasião, com o objetivo de propiciar carreiras eleitorais, não tem coerência, não tem programa coerente e se desfez, em luto, não em luta, depois das eleições.

Esta é a base da crise que, neste momento, atinge todos os partidos da frente de esquerda, sem exceção. Não são partidos que representam a tendência das massas a se opor ao regime, com um programa que oriente, de modo consciente, esta tendência, mas partidos que se apóiam, para progredir, ou tentar progredir, no próprio regime que dizem combater, de cuja força esperam retirar a sua própria força ou, mais precisamente, do qual dependem para ter qualquer força que se possa conceber.

Nesse sentido, a tendência de crise dos partidos da “extrema esquerda” acompanha a crise do regime político, quando seria de se esperar, se acreditássemos na propaganda destes partidos, que se fortaleceriam na mesma medida em que o regime burguês se enfraquece.

Seu território específico dentro do regime político são as organizações das massas. Claro que estas organizações são, quando não estão dominadas por estas massas através de uma direção de classe, organizações do regime político.

Ali promoveram um completo esvaziamento que indica claramente que não são capazes de mobilizar ninguém, nem limitadamente, detrás da sua política, mas, ao contrário, que dependem da paralisia destas massas para exercer a sua direção política. São a parte minoritária e mais fraca destas organizações. Agora, a crise que se expressou nas eleições tende claramente a se expressar no interior destas organizações, uma vez que a maioria da burocracia, ligada diretamente ao governo e apoiada em aparelhos mais fortes, é mais capacitada para manter estas organizações fora do controle das massas, ao menos por um período.

A conclusão fundamental é que a tendência das massas a se erguer sobre os seus próprios pés se encontra em completo antagonismo com esta esquerda e deverá elevar a temperatura da crise, em primeiro lugar, nestas correntes políticas.

Faça um comentário
___________________________________________________________

Comentários e respostas

Receba esta coluna por email