Observações sobre os atos de 1º de maio

2 de maio de 2007

Ontem, foram realizados quatro atos de 1º de maio em S. Paulo. O balanço destes atos propicia uma reflexão sobre a situação do movimento sindical brasileiro.

O ato realizado pelos empresários da FIESP e pelos banqueiros, com a etiqueta da Força Sindical foi um fracasso. O comparecimento caiu, apesar da milionária distribuição de prêmios, que vão desde apartamentos até carros zero quilômetro. Este ato foi planejado pelos empresários e seus meninos de recado da Força Sindical para cumprir o mesmo papel que cumpriram em épocas anteriores os famosos atos oficiais dos governos, inclusive dos governos ditatoriais, ou seja, desviar a atenção do trabalhador do dia de luta dos trabalhadores para um feriado inócuo, sem reivindicações e sem política. A Força Sindical, agora titular do Ministério do Trabalho evitou cuidadosamente até mesmo as perfunctórias menções à reivindicações trabalhista, transformando o “dia do trabalho” em dia da ecologia, a fraude ideológica do momento para a burguesia internacional. Não está em questão defender os interesses dos trabalhadores e sim “salvar o planeta”. Nada como idealismo barato para tentar enganar o povo.

Que o “1º de maio” da Força Sindical está em declínio, mesmo como forma de pura fraude política pode ser constatado nas palavras do próprio “Paulinho”, líder maior desta organização sindical amarela, como se dizia em outros tempos, que afirmou que se não fossem os prêmios, os sindicalistas trariam mil pessoas. Foi extremamente generoso com os “sindicalistas” da Força Sindical, odiados pelos trabalhadores devido ao serviço prestado aos patrões.

Os jornais generosamente falaram na presença de um milhão de pessoas no programa de prêmios da Força Sindical. O número de um milhão virou um número de Cabala, com significado místico. Todos os atos que claramente não tem um caráter revolucionário, mas burguês, contam com um milhão de pessoas, enquanto que atos de verdadeiro protesto têm que contar sempre com milhares. Seriam alguma coisa como 15 estádios do Morumbi lotados de torcedores. Nunca ninguém viu tais manifestações, que seriam facilmente reconhecidas pelos seus efeitos extraordinários.

Mesmo distribuindo dinheiro, a atividade patronal contou com poucas dezenas de milhares de pessoas.

O ato da CUT foi um fracasso maior ainda. Como não têm nada para falar aos operários, os sindicatos cutistas utilizaram o dinheiro dos trabalhadores para promover um show de música e, como show, foi um fiasco. A imprensa capitalista, sempre generosa, chegou a falar em 45 mil pessoas, o que não havia nem mesmo na distribuição de prêmios da Força Sindical. Qualquer show organizado por empresários capitalistas e pago levaria mais pessoas.

O terceiro ato foi, provavelmente, o maior fiasco. Patrocinado por mais de 50 organizações sindicais, entre elas, quatro partidos – PcdoB, PSol, PSTU e PCB – e várias organizações da Igreja Católica, realizado após a missa da Catedral da Sé, com a presença do novo Arcebisbo de S. Paulo, o direitista D. Odilo Scherer, contou com menos de mil pessoas em um ambiente de completo desânimo político e muito pouco espírito combativo para opositores do governo. A principal atração entre os oradores foi ex-candidato a governador do PSol, Plínio de Arruda Sampaio, homem da Igreja e notório expoente da ala direita do PT.

Muito diferente foi o ato realizado pelos sindicatos e oposições da Corrente Nacional Sindical Causa Operária, pelo Partido da Causa Operária e a Aliança da Juventude Revolucionária na Casa de Portugal próximo à Praça da Sé. O pequeno número, cerca de mil pessoas que, como vimos, não fica a dever aos demais atos, foi o resultado da mobilização das lutas sindicais e populares, mas reuniu-se para realizar um ato nas mais revolucionárias tradições do 1º de maio, levantando as reivindicações fundamentais da classe operária para o momento e de outros setores oprimidos, como, por exemplo, no chamado a realizar uma ampla campanha nacional pelo direito de aborto, denunciando o imperialismo e denunciando a política do governo Lula, relembrando as tradições do 1º de maio em uma homenagem aos mártires de Chicago e discutindo a questão do socialismo e da revolução proletária em torno à celebração dos 90 anos da Revolução Russa. Foi um verdadeiro ato independente, de luta, revolucionário, socialista e internacionalista como deve ser o 1º de maio. Particularmente, foi o único ato genuinamente operário, realizado com independência e contra a burguesia.

Os atos de 1º de maio permitem avaliar o agrupamento de forças, o estado de espírito, a consciência e a disposição das forças que disputam o apoio da classe operária. Neste sentido, apenas o ato da Casa de Portugal apontou para o futuro, os demais são mero reflexo do passado.

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