O fim do PFL

3 de dezembro de 2006

As eleições que acabam de ocorrer marcam o fim do PFL. Exagero? Não, se for entendido em um sentido puramente político e não em um sentido cartorário. A sigla poderá ou não continuar existindo. Os cardeais pefelistas continuarão a manter uma certa influência sobre o Estado, em particular, em escala regional. O partido, no entanto, enquanto unidade política, está liquidado.
Em uma eleição nacional, o partidos dos mais experientes defensores políticos dos grandes capitais, não conseguiu eleger um único governador estadual. O próprio Arruda, solitário governador eleito pelo partido é um locatário da legenda e não um membro da casa.

Um partido, mesmo o mais direitista dos partidos burgueses, pode ser um mero conglomerado de dirigentes políticos, mesmo os mais experientes e sagazes. É preciso, mesmo no mais antidemocrático dos regimes democráticos, que um partido tenha eleitores. Isso é exatamente o que o PFL não tem. A enorme confiança depositada neles pelos banqueiros não pode, por força da formalidade do regime eleitoral e de partidos, se transformar em poder. E isso nas condições em que os grandes capitalistas nunca pouparam um extraordinário investimento financeiro no poder destas pessoas.

Há muito o PFL tornou-se, do ponto de vista do mecanismo eleitoral, um partido coadjuvante. Já durante a ditadura, os atuais integrantes do partido foram deslocados do poder pela camarilha malufista que, aproveitando-se do limitadíssimo mecanismo eleitoral da convenção da Arena, demonstrou a inviabilidade do partido dos banqueiros na pátria dos banqueiros nacionais. Desde então, o PFL é uma nulidade política em S. Paulo. Uma nulidade política em S. Paulo não poderia jamais ser mais que um partido coadjuvante.

A crise do regime militar deu origem ao PFL, que constituiu o centro principal da manobra de preservação dos interesses capitalistas que dominam sob o regime militar. O PFL ingressou no primeiro governo civil como coadjuvante do PMDB, embora representasse os interesses econômicos predominantes no governo e chegasse inclusive a ter o presidente da República após a morte de Tancredo Neves na figura do ex-líder da ditadura no Congresso, José Sarney.

Daí para frente, nos governos Collor e FHC, o PFL foi uma eminência parda, governando detrás do trono, porque representava os interesses dos grandes capitalistas.

Ao final do primeiro governo FHC, os cardeais do partido chegaram a sonhar com deixar os bastidores e voltar ao palco como ator principal. No entanto, a crise do partido da ditadura, apesar de toda a camuflagem e de todo o investimento, não deixou, em momento algum de progredir desde a sua formação, mostrando o imenso repúdio da classe trabalhadora a este partido de grandes exploradores, apesar de todos os seus recursos extremamente fartos.

A “democracia” brasileira, mais precisamente, a instauração de um regime de cobertura democrática foi, essencialmente, uma operação de salvação dos interesses sociais e políticos que vigoraram durante o regime militar e nada mais. Foi uma operação política feita sob a pressão da mobilização revolucionária da classe operária e das massas brasileiras. A trajetória de decomposição do núcleo político fundamental da ditadura demonstra que a “democracia” serviu para retardar, mas não para conter e menos ainda reverter a crise do regime político burguês em conflito com as massas.

A crise do PFL, também, não é um fenômeno isolado. É a dianteira de um processo geral de decomposição dos partidos políticos do regime, do PT (aí incluída a esquerda que gravita em torno à frente popular). Se considerarmos o esforço da direita de explorar a corrupção do governo Lula em proveito da sua reabilitação e a profundidade da queda do PT no governo, poderemos medir com precisão a queda da direita e, através desta, a queda do regime burguês.

A direita não representa apenas os interesses crucias da burguesia, uma vez que são os seus verdadeiros homens de confiança, mas também um fator de equilíbrio do regime político, um contrapeso às “vacilações” e às tendências demagógicas da esquerda burguesa. Com o enfraquecimento extremo deste contrapeso, o regime político ingressa em uma etapa de desequilíbrio fundamental.

Não por acaso, o PFL mantém apenas como posição política o Senado Federal, onde compõe a primeira minoria e, em aliança com os demais partidos, mantém um poder de veto sobre as decisões de todo o Legislativo. Não por acaso, também, procura se ocultar detrás da figura de Heloísa Helena, musa da esquerda e da direita.

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