Antipartidarismo e ideologia imperialista
3 de maio de 2007
A derrocada dos regimes políticos stalinistas do Leste Europeu nos anos 90 deu lugar a ampla confusão política: morte do socialismo, crise do socialismo, fracasso do stalinismo, fracasso do leninismo e do marxismo, o fim da história, a vitória do capitalismo.
Entre os agentes mais ativos de difusão desta mitologia política estiveram, por um lado, os próprios ex-stalinistas, o que é natural, na medida que procuram dar uma cobertura ideológica para a sua ação política contra-revolucionária, a qual constitui um dos elementos decisivos nestes processos e, de outro, as diversas variantes de dissidências do stalinismo, tais como as antigas organizações foquistas dos anos 70. A crise do stalinismo chegou a um ponto de fissão com a revolução polonesa do início da década de 80 que soou o dobre de finados para a dominação da burocracia, tal como havia se dado até ali. A glasnost e a perestróika de Gorbachov foram uma resposta contra-revolucionária da burocracia a esta crise de características terminais.
O conteúdo desta resposta foi o ingresso do conjunto da burocracia na via de restauração do capitalismo na URSS e nos países do Leste Europeu, primeiramente, mas das burocracias de todos os demais estados operários em seguida (Cuba, China, Vietnã, Coréia etc.). Para a burocracia, o que estava em jogo era proceder a uma transição, digamos assim, a frio, para o capitalismo, onde manteria sua dominação política e transformar-se-ia em classe proprietária e exploradora.
O que determinou o caráter convulsivo e explosivo do atual processo político e econômico nesses países foi a completa incapacidade da burocracia de colocar em prática o seu programa restauracionista. O golpe de agosto de 1991 na URSS e o literal desmoronamento da Alemanha Oriental, com a sua subseqüente anexação pela RFA são os pontos culminantes deste fracasso.
O que temos diante de nós é, portanto, uma situação de características nitidamente revolucionárias, onde o status quo político mundial não pode ser mantido em lugar algum e entrou em uma etapa de dissolução e tentativas de recuperação do equilíbrio perdido em meio a gigantescas mobilizações de massa.
A ideologia da “morte” ou da “crise” do socialismo está longe de ser uma mera interpretação distorcida dos fatos, mas cumpre um papel político real, uma função ideológica na luta de classes. O limite da atual crise, que somente pode ser adequadamente definida como uma crise histórica do capitalismo, está dado pela ausência de uma direção revolucionária da classe operária. Este, no entanto, é um limite que de forma alguma é uma barreira fixa, mas que se recoloca, se reposiciona sistematicamente a partir da própria evolução da crise impulsionada pelos seus fatores objetivos (decomposição econômica, desagregação da burguesia etc.). A classe operária em cerca de dois séculos de lutas criou poderosas organizações sindicais e políticas, as quais, inclusive sob a direção atual erguem-se como obstáculo às investidas capitalistas contra as condições de vida das massas e são um fator de agravamento da crise. As situações revolucionárias, como a atual, somente podem existir sob a forma da luta entre a revolução e a contra-revolução, sendo que seu ponto de equilíbrio não se encontra entre estas duas componentes da situação, mas pode ser dada apenas pela vitória de uma sobre a outra. Nestas circunstâncias, todas as conquistas históricas da classe operária são inúteis sem uma direção revolucionária.
O imperialismo é consciente desta situação em altíssimo grau e, justamente por isso, uma das suas trincheiras ideológicas fundamentais é a luta contra a organização revolucionária da classe operária mundial.
Esta é a essência de todo o democratismo imperialista que domina completamente todas as variantes políticas mundiais. Ao contrário do que apregoaram muitos, a nova onda democrática está longe de ser apenas uma válvula de descompressão da situação política de características revolucionárias surgida na segunda metade da década de 70 e que levou à crise das ditaduras militares sustentadas pelo imperialismo mundial e à crise do leste. Na realidade, a democracia é uma arma política utilizada para se opor às tendências revolucionárias das massas mundiais a partir da experiência do Irã, Nicarágua, El Salvador e da própria Polônia, também nos anos 70.
Nesse sentido, a ideologia formulada a posteriori, sobretudo pelos stalinistas convertidos em adeptos da democracia, mas também por outras tendências pequeno-burguesas que buscam influenciar a classe operária, de que a idéia de um partido revolucionário está superada demonstra antes de tudo a sua oposição visceral à tomada do poder pelo proletariado para a qual a construção de um partido revolucionário é um sine qua non.
___________________________________________________________
Faça um comentário
Comentários e respostas
| Receba esta coluna por email |
|
|