A crise de direção

5 de dezembro de 2006

Cerca de setenta anos atrás, Trótski inscrevia no famoso Programa de Transição a idéia central da política revolucionária da nossa época em uma frase lapidar: “a crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”.

Esta frase, ao contrário do que costumam acreditar os metafísicos da política revolucionária, não tinha um caráter suprahistórico. Não tinha sequer um propósito de longo prazo. Em 1938, a II Guerra batia às portas da Europa e colocava na pauta o futuro imediato de toda a civilização conforme o desenlace da guerra.

Para os espíritos superficiais e para as direções contra-revolucionárias das organizações operárias como o stalinismo e a social-democracia, a disjuntiva era “democracia ou fascismo”. Para Trotski, sem a vitória da revolução proletária, com a derrota do fascismo, desenlace mais provável diante do maior poderio industrial do imperialismo norte-americano, poderia resultar na dominação irrestrita dos monopólios imperialistas e na escravização geral do proletariado.

No entanto, para Trótski, a revolução era a linha geral da evolução política e uma necessidade histórica, uma vez que “as leis da história são mais poderosas que o aparelho burocrático. Qualquer que seja a diversidade dos métodos dos social-traidores - da legislação “social” de Léon Blum às falsificações judiciárias de Stalin - eles nunca conseguirão quebrar a vontade revolucionária do proletariado”.

O desenlace da guerra foi, para muitos, durante muito tempo, uma negação das afirmações clarividentes do dirigente revolucionário. A falta de uma concepção objetiva da história lhes impedia compreender que a marcha da história pode ser retardada apenas para ganhar um novo ímpeto com maior força. A revolução proletária foi contida, mas não esmagada na Europa. O hiato que se produziu na evolução da revolução proletária foi considerado uma nova etapa histórica.

A reabertura da crise revolucionária do regime capitalista nos anos 70 conferiu à idéia central do programa de transição novamente um caráter de imediatismo. A crise capitalista assume uma mais vez um caráter catastrófico em escala mundial. Dentre as inúmeras manifestações, sua expressão maior é a guerra.

A idéia central do Programa de Transição adquire um caráter de urgência. No entanto, no interior da esquerda mundial, a oposição à idéia de construção de partidos revolucionários nacionais e de um partido internacional cresce na mesma proporção. Não há nenhuma novidade neste viés ideológico da esquerda. Da mesma forma que as direções oportunistas do movimento operário como o PT existem em estreita conexão com o regime democrático parlamentar da burguesia imperialista mundial, as manifestações mais radicais da pequena-burguesia encontram a solução dos seus impasses em uma exacerbação ideológica da democracia burguesa que iria, em pensamento, além do regime parlamentar existente e, portanto, dos partidos políticos que parecem completamente ligados a ele.

A construção de um partido proletário, contudo, está muito longe de ser uma operação organizativa ou mesmo política e organizativa. A operação política e organizativa somente tem sentido como parte do processo histórico de evolução da classe operária. Uma das peculiaridades do período que vai do final da guerra até a reabertura da crise está em que consolidou um conjunto de direções contra-revolucionárias nas organizações operárias cuja lenta agonia estamos assistindo há pelo menos três décadas.

O avanço do processo de agrupamento da vanguarda depende de uma luta programática, ou seja, teórica e política, para superar o ônus do passado e colocar o movimento da classe operária, do ponto de vista da sua consciência, em sintonia com os tempos atuais. Em certa medida, todo o movimento da classe operária vive no passado, uma vez que a consciência, como fenômeno social especialmente, é um reflexo daquilo que já ocorreu. Os novos acontecimentos, ou seja, o que está acontecendo hoje, deve transformar completamente a mentalidade dos setores mais dinâmicos da classe operária, em particular diante dos grandes acontecimentos da luta de classes que estão por vir.

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