Lula, o poderoso

7 de dezembro de 2006

O atual presidente da República, agora reeleito, é considerado por todos como mais poderoso agora depois da sua primeira eleição. Seja para festejar, seja para se lamentar, tanto a burguesia quanto os opositores de Lula que se situam à esquerda do governo, vem propagando a idéia de que Lula tornou-se mais popular e mais forte após as eleições. Este sentimento é tanto maior quanto mais é acentuado pela imprensa burguesa que não se cansa de mostrar a votação de Lula, o seu apoio entre as camadas mais pobres da população e assim por diante.
A força do governo Lula está assentada no apoio unânime que a burguesia, quer dizer, tantos os grandes capitalistas nacionais como estrangeiro, está obrigada a lhe dar e nada mais.

O apoio popular atribuído a Lula tem um caráter sobretudo fictício. Mesmo que deixemos de lado tudo o que foi além da mera manipulação para torcer o resultado eleitoral em favor de Lula, o voto popular apresentado em favor de Lula tem um sentido político específico e limitado. Se Lula conta com apoio nos setores mais organizados do movimento operário, organizado nos principais sindicatos cutista – e aí seu voto sofreu uma profunda deterioração – este apoio não é mais que um registro eleitoral, uma decisão tomada por determinados setores em oposição a um espantalho político. E este espantalho político, representando pelo PSDB, privatizações, ataques aos trabalhadores, é, fundamentalmente, o programa de governo de Lula, o que torna a relação do governo petista com estas camadas da classe operária particularmente contraditório.

O apoio popular a Lula viria, segundo os políticos burgueses, das camadas mais pobres da classe trabalhadora, em particular rurais e das regiões mais pobres do País como o Nordeste. Este apoio, extremamente passivo, depende, completamente do aparato burocrático do Estado e, em uma certa medida, do apoio político das mais reacionárias oligarquias políticas nordestinas. O fato de que a burguesia tenha apoiado uma política desta natureza, da parte do governo do PT, é reveladora da enorme debilidade das instituições políticas tradicionais, em particular dos seus partidos políticos. A idéia do governo apelar para uma base popular de famintos e miseráveis através da caridade estatal identificada com uma personalidade supostamente carismática, mesmo na forma ultraconservadora em que foi executada, revela a crise do regime político em seu conjunto e a transformação de Lula em um eixo insubstituível para o funcionamento desta máquina quebrada.

Esta política está direcionada para conter a crescente divisão e dispersão política burguesa pela falta de apoio popular ao regime da parte da classe operária em um dos seus setores mais organizados e da pequena-burguesia das cidades. Ela tem duas fraquezas básicas. De um lado, se o regime político não conseguir conter a luta das massas, este apoio transformar-se-á no que já é praticamente hoje, em um esquema clientelístico para ganhar eleições com o apoio dos grotões, através de uma reconstituição precária de um sistema partidário falido. As massas em luta tenderão a esvaziar completamente a política “popular” de Lula arrastando estes setores com facilidade para a luta contra o governo. De outro lado, a convocação destas massas desorganizadas e empobrecidas para dar apoio a um regime falido na pessoa de uma personalidade dirigente, como Lula, pode ser ela mesma o estopim necessário para a mobilização popular diante da crise do regime. Todo o problema consiste em que a burguesia, através do “líder carismático”, consiga isolar o movimento operário e a pequena-burguesia das cidades, por meio da sinuosa engrenagem parlamentar, usando os milhões de beneficiários do bolsa-família como base para manobras eleitorais e parlamentares para envolver as massas dos grandes centros com ajuda dos políticos pequeno-burgueses e da burocracia sindical.

A precariedade deste esquema revelou-se nas próprias eleições, onde a base “popular” do governo não foi suficiente para garantir a vitória “esmagadora” no primeiro turno pretendida pela burguesia. Jogam contra ele tanto as contradições internas da burguesia, como as tendências de luta das massas, em particular da classe operária, alimentadas pela profunda estagnação econômica.

O poder de Lula na atual situação política está menos que preso com alfinetes.

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