Antonio Gramsci, a 70 anos da sua morte

8 de maio de 2007

Morria o revolucionário italiano Antonio Gramsci no dia 27 de abril de 1937, aos 45 anos, pouco depois de sair dos cárceres fascistas, onde havia permanecido mais de 10 longos anos. Morria em função de problemas crônicos de saúde agravados pelas condições carcerárias. O regime de Mussolini, ainda não consolidado, foi obrigado a soltar o prisioneiro moribundo em liberdade condicional para fazer um aceno à opinião pública internacional.

Se os livros têm o seu destino, poucos destinos serão politicamente mais tortuosos e enganadores do que o deste escritor e revolucionário.

A complexidade daquilo que poderíamos chamar de “o caso Gramsci” está em que este viveu, lutou e morreu em um período de transição na história da classe operária mundial e, conseqüentemente, da revolução mundial. Quis o destino, e não fortuitamente, que o partido para cuja fundação havia sido um dos principais artífices, se tornasse, após a Guerra Mundial de 1939-45, se tornasse o maior e mais influente partido comunista do Ocidente.

Seu infortúnio está em que, muito tempo depois da sua morte prematura, tornou-se nome de uma escola de pensamento em política e filosofia, com ramificações sobre para a sociologia da arte e para a pedagogia. O infortúnio consiste em que o revolucionário – qualquer que seja a apreciação crítica que se possa fazer da sua vida e da sua obra – que defendia a ditadura do proletariado foi transformado em um apóstolo da democracia burguesia da sua época de decadência imperialista, da luta cultural em substituição à luta de classes, do gradualismo da “ocupação de espaços” em substituição à revolução proletária como meio.

Tendo em vista a acidentada trajetória política e ideológica de Gramsci e seus equívocos políticos e teórica, muitos poderiam dizer, e efetivamente o fazem, que quem semeia ventos colhe tempestade. Nós, no entanto, não fazemos parte deste número. Não é de bom aviso confundir as vítimas de estelionato com os estelionatários, os assaltados com os assaltantes. No interior do movimento operário, a primeira operação intelectual, política e até mesmo, poderíamos dizer, abusando da linguagem, moral necessária é saber distinguir os revolucionários, os combatentes do movimento operário, quaisquer que sejam a sua falhas, dos carreiristas, charlatães e impostores que se disfarçam com a bandeira da revolução.

Como se pode ver, não somos partidários nem de Antonio Gramsci e, com toda a certeza não do “gramscianismo”, um produto adulterado extraído da sua obra e encoberto com o seu nome.

Comparando-se coisas muito desiguais, pode-se dizer de Antonio Gramsci, mutatis mutandis, o que disse Trótski de Rosa Luxemburgo: “Várias vezes já tomamos a defesa de Rosa Luxemburgo contra os grosseiros e imbecis ataques de Stálin e de sua burocracia. Continuaremos fazê-lo. Fazendo-o, não obedecemos a quaisquer considerações sentimentais, mas aos preceitos da crítica histórico-materialista. Nossa defesa de Rosa Luxemburgo não é, entretanto, absoluta. Os aspectos débeis de suas teorias foram colocados a nu teórica e praticamente. As pessoas do SAP (partido centrista alemão dos anos 30, n. do r.) e os elementos que lhe são aparentados (...) só se servem dos lados fracos e das carências que, em Rosa Luxemburgo, não eram de modo algum, preponderantes. Generalizam e exageram estas fraquezas e constroem um sistema absurdo. O paradoxo está no fato de que até os próprios stalinistas, em sua nova reviravolta, aproximam-se teoricamente dos lados negativos e desfigurados do luxemburguismo, sem mesmo falar dos centristas tradicionais ou dos centristas de esquerda no campo social-democrata”.

As teorias e a história da revolução transformam-se, em épocas revolucionárias, em um grande campo para o exercício dos catadores de detritos e de lixo, com os quais fazem uma colcha de retalhos que é a única maneira em que conseguem fazer as suas teorias reacionárias, cuja função primeira é justamente combater a revolução. Rosa Luxemburgo e Gramsci foram objeto de uma intensa manipulação nos anos 50 e 60.

É este problema que procuraremos debater em matérias nesta coluna.


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