9 de maio de 2007 O editor do órgão de imprensa Meio e Mensagem, Costabile Nicoletta foi demitido, a pedido da direção do jornal Folha de S. Paulo, porque permitiu que fosse publicado um Box no obituário do velho Otávio Frias Filhos revelando o óbvio, ou seja, que o fundador da Folha fez a sua carreira explorando, como muitos, o tenebroso regime militar de 64. Não é segredo para ninguém que muitos dos grandes capitalistas de hoje cresceram através da colaboração com os sanguinários generais-presidentes. Os grandes bancos de hoje, a rede Globo de milhares mais de grandes empresas chegaram ao topo subindo a escada do regime militar. A ditadura foi, entre outras coisas, um grande negócio, apoiado na repressão, na corrupção, na tortura. Que o patriarca da democrática Folha de S. Paulo foi um dos mais ardentes negociantes do “anticomunismo” e da “anti-subversão” não é matéria controversa, mas surge como problema apenas por de empresários de direita quererem manter intacta a sua imagem comercial de democratas para pode continuar enganando o público. Também os colaboradores do nazismo que sobreviveram à guerra não queriam expor os esqueletos que tinham no armário. O caso do jornal paulistano é delicado porque, de maneira sempre fiel ao seu oportunismo, o velho Frias operou nos anos 70 uma guinada política. De jornal sensacionalista e de direita, apoiador do regime, passou a ser um verdadeiro porta-voz da democracia. Pode-se acusá-lo de não ser fiel aos seus patrocinadores de farda, mas não se pode negar que tivesse sentido para aproveitar oportunidades. O jornal teve um grande momento, atuando sempre de maneira direitista e conservadora, mas com um bom verniz democrático, conseguiu quebrar a supremacia do seu concorrente que permaneceu liberal e conservador, O Estado de S. Paulo. O golpe seco da guilhotina no pescoço do editor de Meio e Mensagem mostra o quanto valem as crenças democráticas da Folha de S. Paulo. O jornal transparente, que, juntamente com outros com pior disfarce, se ergue como juiz moral da sociedade, sempre que lhes convêm, é uma fachada lucrativa e oportuna, mas nada tem a ver com a realidade. O episódio, no entanto, é mais revelador ainda sobre o verdadeiro caráter da democracia brasileira, estabelecida com a ajuda da Folha e de muitos que apoiaram e se beneficiaram do regime militar, da corrupção e da repressão. O que muitos chamaram, à época, inclusive os habituais esquerdistas com a visão permanentemente obnubilada pela sua fé na burguesia, de “revolução democrática” foi, na realidade, uma contra-revolução democrática que fez retroceder o impulso popular pela derrubada do regime militar – o qual neste caso arrastaria as folhas de S. Paulo e similares – para estabilizar um regime dominado pelos sustentadores do ancién régime. Reproduzimos aqui nesta coluna o box fatal da mataria de Meio e Mensagem e julgamos que, se pecou, foi por excesso de modéstia. Fica aqui a nossa integral solidariedade ao editor demitido e aos companheiros jornalistas que entraram em greve contra mais esta arbitrariedade. "Nem tão liberal assim" “Em que pese a vitoriosa trajetória pessoal e profissional de Frias, sua figura nunca desfrutou de consenso. O jornalista Mino Carta, editor de Carta Capital e um dos maiores nomes da imprensa brasileira, disse em entrevista publicada em 2006 na revista Caros Amigos que a Folha, diferentemente da propalada pluralidade, sempre serviu à ditadura e cresceu graças às benesses do poder. “Até hoje o jornal, que gosta de posar de democrata e transparente, tenta esconder esse período macabro, que revela todo o seu caráter de classe e a sua postura direitista”, alfinetou Carta. “Há razões para a crítica de Carta. O liberal Frias teve, de fato, uma história controversa em suas posições políticas. Logo ao comprar a Folha, teria feito do jornal um instrumento a serviço da conspiração golpista. Estampava manchetes sensacionalistas contra o “perigo comunista” e assinava editoriais histéricos contra a “corrupção e a subversão”. Na fase mais aguda da ditadura militar, por exemplo, a Folha da Tarde, também do grupo, divulgava a "morte de terroristas em emboscadas policiais” quando estes ainda estavam na prisão. “A falsa notícia servia para encobrir as torturas. Grupos armados, como resposta, incendiaram três peruas da empresa, usadas não só para transportar o jornal como recolher torturados ou pessoas que seriam torturadas na Oban (Operação Bandeirantes, órgão de segurança que combatia a subversão, inaugurado em 1969). Assustada, a família passou a morar no prédio da Folha – de setembro de 1971, quando da morte de Carlos Lamarca, militar que atuou na oposição armada, até fevereiro de 1972. Um apartamento foi construído no oitavo andar do prédio, com vidros à prova de bala. “Os filhos aprenderam a usar armas. “Na ocasião, um furioso editorial contra o movimento de guerrilha foi publicado na primeira página: “Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil...”. Faça um comentário Comentários e respostas
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