Ofensiva da direita ou polarização?
8 de dezembro de 2007
Os expedientes políticos, tanto quanto as idéias e programas, são, como costume em boa parte dos processos humanas e naturais, produto de uma seleção espontânea operada pelo tempo e pela experiência.
A esquerda oportunista substituiu todo e qualquer programa socialista ou revolucionário por expedientes que servem para camuflar a sua política burguesa.
É o caso de um dos tradicionais espantalhos da política dos adeptos da conciliação com a burguesia: o espantalho da ofensiva da direita.
A função deste espantalho é a de criar o reflexo condicionado da união das fileiras da esquerda contra a direita, como mecanismo de defesa diante da ofensiva. Uma tal união deverá, se dar,como é claro, em torno da política dos oportunistas que, pelas suas profundas e íntimas conexões com a boa sociedade burguesa, aparecem sempre como os mais capazes de fazer alguma coisa real, apesar disto nunca passar de uma miragem.
Este expediente está apresentando, neste momento, uma clara tendência a se desenvolver. Isso ocorre, por um lado, devido ao fato de que tais esquerdas, como o PT e a frente popular brasileira, carecem, nesse momento, de atrativos para as massas e até mesmo para os seus próprios adeptos devido à baixeza extraordinária da sua política.
A vitória eleitoral de Sarkozy na França e seus rugidos em torno de um programa de ataque contra as condições de vida das massas francesas, feitas por de um mise-em-scène do thatcherismo britânico de 20 anos atrás enseja a oportunidade para o uso deste expediente.
Este mesmo tema aparece agora com os acontecimentos em curso na Venezuela e na Bolívia.
A derrota de Chavez para a direita venezuelana no referendo constitucional e as mobilizações promovidas pela direita boliviana são integrados como prova da existência da ofensiva da direita em todo o mundo.
O tema merece maior reflexão, uma vez que o que está ocorrendo é exatamente o contrário do que procura demonstrar a esquerda oportunista.
A primeira peculiaridade dessa discussão sobre a ofensiva internacional da direita é o menosprezo pelos dados objetivos, quer dizer, sólidos e com lastro, da situação política internacional: o colapso da ofensiva militar norte-americana no Iraque e no Afeganistão, a tendência ao colapso do sistema de poder do imperialismo em diversas regiões do mundo através da crise de países chave (Paquistão, Turquia, Israel etc.), a crise financeira mundial, nada mais que a manifestação a reabertura da crise capitalista mundial, acrescida das fortes tendências à retomada da inflação dos anos 70 expressa na disparada do preço do petróleo e na crise do crescimento chinês.
Tais dados não são, evidentemente, compatíveis com a análise de que há, mundialmente, uma ofensiva da direita. Ao contrário, demonstram a perda de iniciativa e a quebra da iniciativa política mundial do imperialismo.
Como interpretar, então, a agressividade da direita em países como a França, Bolívia, Venezuela?
O problema das teses da esquerda oportunista é que são um retrato de um fragmento da realidade, uma fotografia de um instante e não a análise de um desenvolvimento político em todas as suas determinações e contradições.
A ofensiva da direita foi precedida em todos estes países de uma ofensiva das massas populares. O governo Villepin, na França, do qual Sarkozy era ministro foi sacudido por gigantescas mobilizações da juventude pobre da periferia e dos estudantes; o governo Evo Morales foi construído sobre uma enorme derrota da direita quando as massas literamente botaram abaixo o governo Sanchez de Losada. Na Venezuela, desde 2002, a ofensiva em estado do lado das massas populares. Nisso reside a explicação: não se trata de uma ofensiva, mas de uma tentativa de contra-ofensiva diante de uma situação crítica.
Quando temos um movimento de intensificação das lutas de lado a lado, das massas e do imperialismo, devemos chamá-lo mais apropriadamente de “polarização” política.
A situação, do ponto de vista do movimento físico da política, consiste na desintegração do centro, na liquidação das tendências centrípetas dos regimes burgueses, expressa na política de centro-esquerda tradicional, uma frente popular direitista e democrática, e na acentuação dos pólos extremos da sociedade para onde se dirige o conjunto do movimento político. Esta polarização, como toda polarização, representa antes e fundamentalmente um crescimento das tendências revolucionárias das massas e não da direita. Os minguados 28,3% dos votos da direita venezuelana, com todo o apoio recebido da burguesia local e do imperialismo mundial, são a prova irrefutável e contundente deste fato.
O imperialismo mundial sabe que precisa tentar recuperar terreno diante da desagregação das suas posições acentua a contra-ofensiva direitista na tentativa de restabelecer o centro, de promover um novo agrupamento, uma nova tendência de fluxo para o centro. Dito em outras palavras, recuperar o poder atrelamento das massas através dos regimes pseudo democráticos e do parlamentarismo de fachada.
A política baseada na “ofensiva da direita”, busca o mesmo resultado por outras vias, complementares das da direita: reagrupar as massas em torno da centro-esquerda frentepopulista e da “democracia”.
O caso venezuelano demonstra claramente, através do voto ultra-minoritário da direita contra Chavez e da enorme abstenção que a tendência geral caminha no sentido de uma maior polarização, sim, maior, porque o abstencionismo, em que pese a capitulação chavista, é uma expressão de censura dos métodos “democrático-imperialistas” de Chavez. As massas venezuelanas rejeitaram votar com a direita facistóide e financiada pelo imperialismo do bloco do “não”, mas não apoiaram a perspectiva chavista.
Manifesta-se na Venezuela uma maior tendência à polarização, não ao crescimento da ofensiva da direita que não conseguiu impor o “não” e progredir na luta contra Chavez. É esta tendência que deve ser transformada em um programa e uma perspectiva classista, socialista e revolucionária.
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Comentários e respostas
Obrigado, Rui. Você torna possível que fujamos ao cerco midiático feito de desinformação. Graças ao portal do PCO, a você mesmo, ao que você escreve e a outras pessoas críticas e sábias como você a ciberteia é tão luminosa e libertadora.
Chauke Stephan Filho
Cuiabá/MT
Quanto ao artigo "ofensiva da direita ou polarizaçao?" ,algumas consideracoes:o governo de chavez apresenta uma forma de aglutinar as forcas das massas pois ainda nao existe uma forca de esquerda revolucionaria capaz de analizar o governo populista de chaves e ganhar as massas trabalhadoras para a tomada do poder e assim começar a ditadura do proletariado com caracteristicas latinas. outrossim esta no facto do medo da direita em perder qualquer posicao no poder, mas o sr. chaves vai futuramente procurar algum artificio politico para se manter no poder, pois representa uma parcela da burguesia mais à esquerda sem contudo ser confudida com a esquerda revolucionaria, devemos adotar a duvida quanto a politica do sr. chaves...
Vicente Doria,
Recife/P
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