Reprovação a cada dois anos
Governo disposto a tudo que não traga melhorias à Educação
15 de março de 2007
A cidade mais rica do País e da América Latina – com um PIB superior a muitas metrópoles capitalistas – obteve, nos exames nacionais oficiais, resultados deploráveis: esteve entre as piores classificadas no SAEB - Sistema de Avaliação do Ensino Básico e conseguiu no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio – a proeza de que nenhuma escola estadual da cidade de São Paulo obtivesse “nota azul”, ou seja, “tomando-se 633 estabelecimentos de ensino sob controle do Estado e excetuando-se 11 escolas técnicas e uma ligada à Faculdade de Educação da USP, todos os 621 colégios restantes tiveram notas inferiores a 50 (de 100 pontos possíveis)” (Folha de São Paulo, 05/03/07). Dentre as escolas estaduais, 96% tiveram notas abaixo de 45 pontos; e 69% ficaram abaixo dos 40 pontos.
No caso das caríssimas escolas particulares paulistas, o resultado também não foi brilhante: alcançaram a média de 52,81, enquanto a média geral da cidade foi de 38,42.
Com diferenças de nuances, o resultado foi igualmente lastimável em toda Grande São Paulo e apenas “menos ruim” na maioria das regiões do interior. E, ainda que parcialmente, foi uma demonstração dos verdadeiros resultados da política educacional implementada pelos governos tucanos nas duas últimas décadas e mantidas pelos governos do PT.
Diante da enorme revolta da população contra um sistema educacional decadente que está diplomando jovens sem que saibam sequer ler e escrever, o governo primeiro tentou despistar e, depois, passou à demagogia.
Com a tradicional “cara de pau” da burocracia tucana que comanda a Educação, a coordenadora da CENP, Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, professora Maria Aparecida Kuriki, teve a coragem de afirmar que a indiferenciação de resultados entre as escolas de bairros centrais e as da periferia de São Paulo é "um ponto bastante positivo", pois isto mostraria que "todas as escolas recebem um mesmo encaminhamento da Secretaria de Educação, que não há discriminação contra escolas de áreas periféricas, que o tratamento é igual para todas."
Para encenar que está pretendendo agir diante da situação, o governo José Serra (PSDB) além da tradicional tentativa de responsabilizar os professores, passou a divulgar algumas medidas sem menor efeito como a pretensão de aumentar a reprovação por meio do aumento dos ciclos de avaliação no ensino fundamental (1ª à 8ª séries, do antigo 1º grau).
Atualmente, vigora a “progressão continuada” com esta “avaliação” sendo realizada apenas nas quartas e oitavas séries, quando uma pequena parcela dos alunos é retida para que – supostamente - seja feita uma “recuperação” do conteúdo tido como essencial que não se aprendeu nos quatro anos anteriores. Mesmo em situações muito ruins, de baixíssima aprendizagem, os índices de retenção (embora significativos) não refletem a realidade por conta da enorme chantagem feita sobre os professores para que não reprovem. Por exemplo: no pagamento do Bônus anual dos professores, um dos itens considerado é a taxa de reprovação das escolas: maior a retenção menor a nota da escola e, por conseguinte, menor o bônus.
Agora, a secretária de Educação, Maria Lucia Vasconcelos, anuncia que “durante todo este ano, uma equipe da Secretaria de Estado da Educação vai estudar e avaliar possíveis mudanças nos ciclos de avaliação da progressão continuada... Uma das hipóteses, segundo ela, é que haja de três a quatro avaliações durante os nove anos do ensino fundamental - com a primeira avaliação (e fim do primeiro ciclo) na terceira série do ensino básico“ (da página da Secretária Estadual de Educação, 05/03/07).
Em poucas palavras, o governo não pretende mexer em nada que tenha significado. Não se cogita aumentar os salários dos professores (que equivalem hoje a um terço do seu valor real de duas décadas atrás), não se pretende aumentar as verbas para a Educação (o governo já iniciou o ano com novos cortes como a redução de 50% das verbas da Escola da família etc.) e nem mesmo quer acabar com o famigerado sistema de “aprovação automática” da chamada progressão continuada.
As “mudanças” são apenas disfarces para manter tudo como antes ou cada vez pior. Um processo contínuo, sistemático e consciente do Estado de destruição do Ensino público, em favor dos interesses dos grandes capitalistas que o controlam, os quais querem abocanhar cada vez mais os recursos públicos que deveriam ser destinados à Educação e sucatear ainda mais o ensino, comprometendo o presente e o futuro de milhões de crianças e jovens, um verdadeiro crime de lesa-pátria. |