Santa Catarina

Falta de investimento levou ao desastre

Santa Catarina é o segundo pior estado do país em tratamento de esgoto. A cidade de Blumenau, por exemplo, tem apenas 5% do esgoto tratado e tem a maior rede do Vale do Itajaí

29 de novembro de 2008

Até a última sexta-feira, 28, os números da Defesa Civil de Santa Catarina indicavam 78.707 desabrigados, 99 mortes e 19 pessoas desaparecidas.
 
O mais impressionante é que apesar de não ser a primeira vez que o estado passa por situação de inundações e desabamentos, mesmo havendo estudos que indicam as áreas mais vulneráveis etc. ainda assim, os governos dos últimos vinte anos nada, ou quase nada, fizeram para impedir a catástrofe atual.
 
De acordo com o relatório "Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina", elaborado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) concluído em 2006, mais de 800 mil pessoas já ficaram desabrigadas e 248 morreram em desastres naturais no estado de 1980 a 2004.

A cidade de Blumenau, uma das principais atingidas com as últimas chuvas, sofreu 32 inundações nesse período. A cidade também foi atingida por deslizamentos de terra e vendavais.

Em 13 ocasiões, as ocorrências foram graves e deixaram, no total, 44 pessoas mortas e 181 mil desabrigadas.

Todas as 12 cidades catarinenses em estado de calamidade pública, até o dia 27, constam no documento como palco de algum desastre natural.
Ao olhar os números da infra-estrutura, como acesso ao saneamento básico, fica mais fácil entender o tamanho do descaso. Entende-se por saneamento básico o acesso a água, esgoto sanitário, coleta de lixo, cada um de forma independente, ou os três concomitantemente.
 
Dados divulgados pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes) em outubro desse ano deram conta de que, entre os 293 municípios de Santa Catarina, apenas 30 têm rede coletora e tratamento de esgoto.
 
Os números fazem parte de um balanço feito pela associação a respeito do saneamento básico do Brasil. Segundo o estudo, cerca de 57,4% da população brasileira tem acesso ao serviço.
 
No país, onde a situação já é muito ruim de um modo geral, Santa Catarina tem o segundo pior tratamento de esgoto. O pior tratamento é o do estado do Piauí.
 
O Vale do Itajaí, principal região onde foram registrados desabamentos e nesse momento está coberta por lama e água, tem o vergonhoso desempenho de 0,68% da população total atendida com redes coletoras. Em Criciúma, no extremo sul, a situação é ainda pior, com zero cobertura de esgoto.
 
Mesmo as cidades turísticas do estado, que tem o segundo maior porto do Brasil, como Blumenau, conta com apenas 5% do total do esgoto coletado e tratado.
 
Quantos desastres ainda serão necessários?
 
Após o desastre que acomete a população catarinense, o governo Lula promete mais de R$ 1 bilhão para “ajudar” a região a sair da situação de calamidade.
 
Porém, apesar do estado ter a menor rede de esgoto da região sul, o investimento previsto para esse ano através do PAC ficou em apenas 17,32% dos R$ 3 bilhões previstos para toda a região.
 
O mais irônico, pra não dizer criminoso é que, segundo o estudo do próprio governo federal intitulado “Diagnóstico do Saneamento x Investimento do PAC”, em Santa Catarina seria necessário algo em torno de R$ 1 bilhão em investimentos para atender os déficits em redes de água e de coleta de esgoto no Vale do Itajaí.
 
Os investimentos do PAC do governo Lula são sim para infra-estrutura, mas não para atender a maioria da população e garantir uma estrutura mínima como o acesso a água e esgoto, mas para garantir as exportações e os lucros dos capitalistas.
 
Enquanto isso, em todo Brasil quase metade da população não conta, sequer, com redes coletoras de esgotos e 80% dos resíduos gerados são lançados diretamente nos rios, sem nenhum tratamento.
 
E ainda assim o governo e a imprensa burguesa tenta culpar a população, vítima de um Estado criminoso que doa aos capitalistas em crise centenas de trilhões de reais, enquanto obriga a classe trabalhadora a morar em situação totalmente insalubre, sem as mínimas condições para uma vida digna, de serem responsáveis pelos desabamentos, que segundo o governo seriam ocasionados pela ocupação irregular do solo.
 
Os verdadeiros responsáveis são os governos municipais, estaduais e federal que não investem minimamente na infra-estrutura das cidades, nem do país, com obras superfaturadas, de má qualidade e que visivelmente não são suficientes para atender toda a população.
 
A constante degradação a cada dia a condição de vida da população, o rebaixamento de salários, a retirada de direitos, a destruição do sistema de saúde, educação, moradia, saneamento básico etc., inevitavelmente resulta em tragédias como a que nesse momento acomete a população de Santa Catarina.