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O romântico do jazz
Este mês completa-se 20 anos da morte de Chet Baker
Uma das mais lendárias figuras do mundo do jazz, Baker deu ao seu trompete uma inconfundível sonoridade romântica que o tornaram um dos símbolos do cool jazz da década de 50
15 de maio de 2008
Apesar da genialidade de sua música, parte considerável da fama de Chet Baker vem também da vida conturbada que cultivou. É conhecido pela suavidade romântica de seu trompete e seu cantar sussurrado. Apesar de não ser dado a virtuosismos e não ter inovado propriamente o estilo, encontrou no cool sua melhor expressão, e como Billie Holiday, baseou toda sua técnica no sentimento. Portador de uma profunda melancolia, Baker e é talvez um dos músicos que mais se sentiram a vontade dentro dessa expressividade, "suave como o oceano".
Filho de um guitarrista amador de bandas country, foi de seu pai que o jovem Chet adquiriu a paixão pela música. Nascido em uma fazenda em Oklahoma, aos dez anos mudou-se com sua família para o subúrbio de Los Angeles onde passaria toda a adolescência. Era o final dos anos 30 e o país vivia ainda os reflexos do crack da bolsa de Nova Iorque que acontecera em 1929. Ainda jovem, cantava no coral da igreja, e aos 13 anos, para poder participar da banda da escola, ganhou seu primeiro trompete, instrumento que seria sua grande paixão musical. Em sua biografia, Baker conta que era avesso ao estudo da teoria musical, e costumava afirmar que se salvou por ter um excelente ouvido.
A Guerra e o be-bop
Quando explode a Segunda Guerra Mundial na Europa, Baker falsifica seus documentos, acrescentando um ano à sua idade. Dessa maneira, com apenas 17 anos entra para o exército. Em pouco tempo ele consegue ingressar na banda do corpo do exército, juntamente com centenas de músicos que eram designados para entreter as tropas norte-americanas durante a campanha aliada na Europa.
Era o auge da popularidade das grandes orquestras de swing, e o jazz desse período, impulsionado pelo financiamento e propaganda oficiais, havia se tornado a grande música popular dos Estados Unidos. Centenas de bandas de jazz foram recrutadas para animar os soldados na Europa, tanto no Exército quanto na Marinha e Aeronáutica. Divertidos relatos descrevem músicos que tinham às vezes de parar no meio de suas apresentações, pegar em armas e atirar contra algum avião inimigo que passava.
Quando as tropas aliadas invadem Berlim no início de 1945, Baker é transferido, juntamente com sua banda, para a capital alemã. É lá que, certo dia, em uma rádio do exército, ouve os primeiros sons do novo jazz que nascia na América. Era um estilo frenético, virtuoso, que utilizava um fraseado extremamente sofisticado para impulsionar alucinados vôos musicais. Seu nome era be-bop, e seus principais expoentes eram Charlie Parker e Dizzy Gillespie. A intensidade e liberdade daquele novo som encantaram o jovem Chet Baker.
Novos vôos musicais
O be-bop havia se desenvolvido em Nova Iorque quase sob o desconhecimento de todos. Durante todo o período da guerra, o sindicato dos músicos e as gravadoras viviam um impasse que só foi resolvido em 1945. Nesse intervalo de tempo nenhum disco foi gravado, e em decorrência disso, o novo estilo só era conhecido pelos freqüentadores dos bares noturnos nova-iorquinos, onde jovens músicos passavam a madrugada improvisando em agitadas jam-sessions. Ansiando por novidades, centenas de instrumentistas procuravam romper com o convencionalismo do repertório das grandes orquestras em que tinham que trabalhar durante o dia pra ganhar a vida. Nas jam-sessions, reuniões informais de músicos que desafiavam-se uns aos outros em divertidos duelos musicais, eles encontravam a liberdade que procuravam. Era permitida a participação de qualquer músico que tivesse músicas próprias e capacidade para improvisar.
Após o término da guerra, Baker retorna aos Estados Unidos pensando em retomar os estudos. Chegando lá, porém, ao se informar da agitada cena musical que fermentava em Los Angeles, muda de idéia e passa as madrugadas participando das jam-sessions, tocando lado a lado de nomes como Fats Navarro e Miles Davis.
Depois de tentar se alistar duas vezes no exército, acaba sendo classificado como "mentalmente inapto para servir", e resolve permanecer em Los Angeles, onde começa a se apresentar regularmente. Seus primeiros trabalhos são ao lado do saxofonista Stan Getz, outro futuro expoente do cool jazz. Certo dia, em 1951, fica sabendo que Charlie Parker procurava por um novo trompetista para acompanhá-lo em uma turnê pela Costa Oeste e Canadá, e decide procurá-lo. Ao escutar aquele jovem tocando, Parker fica impressionado e contrata-o imediatamente. Baker havia desenvolvido uma maneira de tocar econômica em notas, à maneira de Miles Davis, diferentemente do estilo virtuoso de Gillespie. Esse novo estilo de tocar, compunha perfeitamente com o frenético fraseado de Parker, também conhecido com “Bird” (pássaro). Chet Baker tinha apenas 22 anos, e acabou tornando-se uma espécie de protegido do "pai do be-bop" que, segundo relatos, procurava manter todos os músicos de sua banda longe da heroína, vício que há anos escravizava Parker. Durante algum tempo, Baker foi também o motorista particular de Parker, uma vez que o sax-altista era afeito ao volante.
O cool da Costa Oeste
No ano seguinte, em 1952, é convidado pelo saxofonista Gerry Mulligan a integrar um quarteto sem piano que ele estava formando. A formação seminal inauguraria o estilo conhecido como 'West Coast Jazz', uma variante californiana do estilo cool desenvolvido por Miles Davis e seu noneto em Nova Iorque.
O "Gerry Mulligan Quartet" foi um sucesso absoluto. A casa onde se apresentavam permaneceu lotada, noite após noite, durante cerca de um ano. Foi nessa época que Baker ganhou notoriedade, principalmente com suas versões para as músicas "My Funny Valentine" e "Moonlight in Vermont". Mas a existência do grupo começou se tornar inviável devido aos diversos problemas causados por Mulligan e seu vício de heroína. O grupo terminou, por fim, quando o saxofonista foi preso por posse da droga.
Assim, em 1954 Baker resolve formar seu próprio quarteto, e convida o pianista Russ Freeman para substituir Mulligan. Excursionam com grande sucesso por todo o Estados Unidos, e nesta época Baker ganha diversos prêmios de revistas especializadas. O quarteto, no entanto, termina por disputas financeiras.
Pouco depois, ele decide começar a cantar também, alternando, da mesma maneira que Louis Armstrong, o trompete e os vocais. Ele encontra uma nova maneira de cantar, suave, sensual, com a voz quase sussurrada, o acompanhamento ideal para a sinuosidade característica do cool jazz. Esse estilo exerceria grande influência entre músicos brasileiros como Carlos Lyra e João Gilberto, que desenvolveriam a bossa nova no Brasil.
Sua nova expressão obtém grande êxito nos Estados Unidos, e com isso ele decide partir em turnê pela Europa, onde encontra também grande receptividade. Tudo ia maravilhosamente bem até que seu novo pianista Dick Twardzik morre por overdose de heroína. Sozinho, ele decide permanecer ainda algum tempo em solo europeu, tocando com diversos músicos que ia conhecendo na noite.
Sua música é um símbolo da ressaca espiritual em que vivia uma parcela expressiva população do pós-guerra, em particular os jovens, tanto europeus quanto norte-americanos, que sem perspectivas progressistas para seguir adiante, e esmagados pelo clima conservador que varreu o país, mergulharam dentro de sua própria angústia.
Apesar de sua carreira ascendente dentro do cenário jazzístico mundial, sua vida pessoal ia de mal a pior. Nunca conseguia manter-se fora de confusão, e devido ao seu vício de heroína, vivia em permanente trânsito entre delegacias policiais e penitenciárias. Chegou mesmo a permanecer mais de um ano preso na Itália, país em que viveu durante a década 1960.
Entre as diversas confusões que arrumava, certa vez foi espancado até perder vários os dentes da boca devido a uma dívida com drogas. Tal fato, fez com que o trompetista tivesse de reaprender a tocar, uma vez que a mudança da arcada dentária modificava a maneira como o ar passava em sua boca.
Nas décadas de 1970 e 1980 chegou a gravar alguns dos seus melhores discos, a maioria na Europa, continente que Baker gostava devido à idolatria que o público tinha por ele, tratamento que nunca chegou a receber em seu próprio país. Este fato inclusive é destacado por diversos especialistas como talvez um dos principais fatores que teriam levado tantos músicos de jazz entre as décadas de 1950 e 60 a se viciarem em heroína. Pessoas da linha de frente do jazz, como Miles Davis, Billie Holiday, Gerry Mulligan, Dexter Gordon, Stan Getz, Art Blakey, Bud Powell, Sonny Rollins, além do próprio Charlie Parker, entre dezenas de outros músicos que afundaram em algum momento da vida, no vício da droga.
Chet Baker chegou ainda a tocar no Brasil por duas vezes, na primeira edição do "Free Jazz Festival", em 1985. Conta-se que após a segunda apresentação, em São Paulo, Baker quase teria morrido de overdose, após tomar doses cavalares de remédios para a abstinência.
Impressionante é a metamorfose que sofreu devido ao vício. De galã com sorriso de Mona Lisa na década de 50, eternizado pelas belíssimas fotos de Willian Claxton, até sua decadente aparência de senhor de 70 anos, quando ainda tinha apenas 50.
O homem símbolo da melancolia do jazz macio da costa oeste morreu misteriosamente há 20 anos, dia 13 de maio de 1988, quando despencou pela janela de um hotel em Amsterdã. As causas que teriam levado ao acidente permanecem desconhecidas até hoje.
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