Iraque
Soldado norte-americano mata iraquiano ferido com tiro na cabeça

18 de novembro de 2004

Neste sábado, um fuzileiro naval norte-americano atirou friamente contra um homem ferido em uma mesquita em Faluja. As imagens que foram divulgadas na TV NBC e foram feitas pelo cinegrafista Kevin Sites. Segundo ele, “o homem que foi morto pelo marine não parecia ser uma ameaça, além de não haver nenhuma arma visível em toda a mesquita. A vítima fazia parte de um grupo de homens que foram feridos um dia antes em combates no local” (Folha de S. Paulo, 17 de novembro de 2004).
No vídeo, ouve-se as vozes de dois fuzileiros conversando dentro da mesquita:
“Esse f.d.p está fingindo de morto”
“É, ele está respirando”, o outro responde.
“Ele está se fingindo de morto”, repete o primeiro.
As imagens seguintes mostram o fuzileiro apontando a arma para o homem no chão da mesquita e dispara na cabeça. O sangue fica espalhado na cabeça atrás dele.
“Bem, está morto agora”.
A tentativa de absolver o soldado vem, em primeiro lugar, dos outros que estavam em Faluja: “entendo por que ele faria aquilo. Ele provavelmente estava circulando há dias sob fogo em Faluja. Deve haver uma investigação, mas eles devem analisar as circunstâncias - disse o cabo Christopher Hanson”, “eu também teria atirado no insurgente. Dois tiros na cabeça - disse o sargento Nicholas Graham, de 24 anos, de Pittsburgh, Pensilvânia. - Não se pode confiar nessa gente. Ele não devia ser investigado. Não fez nada de errado” (Reuters, 17 de novembro de 2004).
Mas também vem da própria Anistia Internacional que ao mesmo tempo em que as denúncias são feitas, ao invés de condenar vigorosamente a ação dos fuzileiros navais norte-americanos, afirma que “ambos os lados descumpriram as leis de guerra sobre a proteção de civis e combatentes feridos na ofensiva a Faluja” (idem).
Da parte dos iraquianos, a condenação é total. Omar Ragib, clérigo sunita da Associação dos Acadêmicos Muçulmanos, disse que as forças americanas sequer prestaram atenção aos feridos desarmados, após o combate, dentro de uma mesquita sagrada. As imagens exibidas pela rede de TV Al Jazira, provocou amplas críticas aos EUA nas ruas do mundo árabe. "É algo proibido no islã. Um americano não pode matar um iraquiano desarmado dentro de uma mesquita", disse Abdul Sattar Naji (Folha de S. Paulo, 17 de novembro de 2004).
Quando foram denunciadas as torturas dos presos em Abu-Ghraib, os EUA procuraram justifica-las dizendo que na realidade não eram torturas.
Em documento oficial publicado pelo jornal Washington Post, define-se como tortura “os atos mais extremos de dor ou sofrimento físico e mental”, ou seja, o ato deveria provocar uma dor difícil de suportar. Essa dor física deveria vir acompanhada de graves danos, como falência de órgãos, prejuízo no funcionamento do corpo ou até a morte. E caso a tortura fosse de caráter psicológico deveria ter significativa duração como meses ou anos.
A explicação norte-americana dá plenos direitos aos EUA de praticar todos os tipos de torturas e humilhações desde que não leve a pessoa à morte, já que os conceitos de “dor insuportável” e a intensidade do dano psicológico são subjetivos.
Além disso, ainda seria permitido violar a explicação acima, quando se tratar de “legítima defesa” ou a “luta contra o terrorismo”, nesse caso então estaria autorizada a ação irrestrita do Estado contra a população sob o pretexto do terrorismo.
Além disso, foi aprovado um pacote de medidas nos EUA logo após o ataque ao World Trade Center, o Patriotc Act, que tem como objetivo legalizar a tortura de presos de guerra.
O próprio George W. Bush, na época das denúncias de Abu-Ghraib, afirmou que as Convenções de Genebra não podem ser aplicadas a membros de grupos terroristas, como a Al Qaeda.
No julgamento dos soldados envolvidos nas torturas da prisão de Abu-Ghraib, se abriu o precedente para que casos como este, como o que foi denunciado agora, tenham os seus participantes absolvidos.