
| Entrevista Repressão ao movimento estudantil Publicamos aqui a entrevista feita pelo Jornal Juventude Revolucionária de A. T. estudante da Universidade Estadual de Londrina. O estudante está participando das mobilizações estudantis e o movimento estudantil, assim como em todo o País está sofrendo uma perseguição implacável da reitoria Juventude Revolucionária – Como foi a ocupação da reitoria, o que levou os estudantes a isso e quais forma as conseqüências? A. T. - Já faz um certo tempo que a assistência estudantil está muito precária, há pouca verba destinada a assistência aos estudantes carente que não tem condições de se manter na universidade. Por conta disso, no dia 14 ou 16 de agosto os estudantes da casa dos estudantes, da moradia estudantil da UEL ocuparam a sala de recepção da reitoria, para forçar um certo diálogo com a reitoria, principalmente com o reitor da UEL Wilmar Marçal para que desse uma resposta rápida para estes problemas, por que os estudantes não têm moradia. Eles invadiram e planejaram uma ocupação longa para força a reitoria a atender essas demandas que já faz tempo que estão ocorrendo, mas dois dias depois o reitor através de procuradores pediu uma liminar na justiça de reintegração de posse com ordem proibitória para tirar os estudantes da sala da recepção. Foi o que aconteceu, o oficial de justiça foi lá e ordenou que desocupasse a reitoria. A juíza afixou uma multa diária de R$10 mil reais por dia, no caso do descumprimento judicial. A juíza ordenou e permitiu a entrada de policiais dentro do campus caso os estudantes resistissem. Mas como existia um mandato proibitório e os estudantes foram ameaçados, eles se retiraram, não podendo nem ficar próximos a reitoria. Tiveram que ir para a biblioteca central da universidade que é bem afastado, para não tomar esta multa diária. JR – A reitoria não fez nenhuma proposta, nem tentou negociação? A. T. Não, não negociou. Simplesmente foi a justiça para expulsar os estudantes dali. Se negaram a negociar. JR – Qual era a reivindicação? A. T. Principalmente a moradia estudantil. JR - A quem era endereçada esta liminar e a multa? A. T. Como não sabiam a quem endereçar, pegaram dois estudantes para responder a liminar. Chamaram os estudantes para conversar e trancaram os estudantes na sala da reitoria e falaram que estavam com a liminar e ameaçaram que se não saíssem teriam que pagar uma multa de R$10 mil por dia. Obrigaram os estudantes a dar o nome, todos os dados. Mas a liminar era endereçada a duas pessoas, que foram escolhidas aleatoriamente. JR - Depois disso, como foi? A. T. Eu senti uma certa união durante a ocupação, fora a UJS que é um pessoal que não se envolve. Os estudantes uniram durante a ocupação, depois surgiram os problemas. Quando houve a desocupação foram chamadas várias assembléias e cada grupo puxava para seu lado, tentando impor seus interesses. E ficou desorganizado, não havia interesses em levar a sério às propostas ou de fazer uma coisa mais construtiva, mas talvez por egoísmo brigando para ver quem é mais socialista que o outro. E os estudantes que estavam de fora, estavam interessados, mas que não se envolveram diretamente, participaram das assembléias, mas como viram que não era uma coisa bem organizada, um movimento coerente, foram se afastando. Ficou mais os envolvidos de sempre, um pessoal da casa do estudante, não todos também. Tentou se formar algumas comissões para tentar discutir alguma coisa, mas não foram bem sucedidas. E houve até uma certa desmobilização e até um retrocesso, eu diria, por que alguns grupos principalmente o PSol e o os mais anarquista e até independentes puxam muito para reuniões para discutir as coisas e pouca coisa prática e propostas realmente. Exigir do Estado que fizesse alguma coisa, sem se organizar e fazer alguma coisa. JR – Quantas pessoas tinha na ocupação? A. T. Mais ou menos umas 35 pessoas . O que aconteceu depois disso foi basicamente assembléias e reuniões e houve um certo racha interno, cada um puxava para o seu lado e cada grupo começou agir por conta tentando fazer panfletagem, tentando chamar os estudantes. Principalmente questão de agitação, manifestação e propaganda faziam cartazes, este tipo de coisa, tentando atuar um pouco mais concretamente, não só teórica, discussão, mas na prática tentando elaborar, tentando se posicionar contra umas ações da reitoria, como foi o plano de segurança que o Pedro Marcondes, o chefe da segurança da UEL que está sendo discutido e pôs para a reitoria como possibilidade, mas foi basicamente um grupo que fez isso não foram todos que se posicionaram frente aos problemas da universidade tentando conscientizar os estudantes da importância desse tipo de briga. JR – Qual foi o resultado dessas panfletagens? A. T. Teve um certo resultado positivo porque o pessoal ficou muito mais interessado em participar das assembléias, logo depois da panfletagem a primeira assembléia geral dos estudantes encheu. Muita gente curiosa querendo saber o que aconteceu e começou a participar um pouco mais. Foi bom quem se envolveu na panfletagem porque teve que desenvolver várias técnicas para abordar os estudantes, que são pequeno burguês, pessoas um pouco mais favorecidas pelo capitalismo, que se consideram elite intelectual, mas não gostam de ler e a panfletagem teve que usar de coisas mais criativas como uma brincadeira, uma piadinha, um desenhinho. Mas eu acho que o resultado foi positivo, meio que simbólica de mostrar que está acontecendo alguma, que tem gente preocupada e o movimento estudantil não está morto, que é provável que haja um ascenso desse movimento porque as condições estão postas. Quem controla a universidade, quem controla o Estado, estes órgãos públicos está querendo passar por cima de tudo, não está interessado no que o povo precisa, que a classe trabalhadora precisa, então está surgindo um movimento que está querendo fazer alguma coisa contra isso. JR – E quanto tempo depois da ocupação surgiu este Plano de segurança e o que ele fala? A. T. O plano de segurança, na verdade, foi apresentado ao reitor no dia sete de julho. E aparece muito oportuno nesta questão. Coloca muitas coisas polêmicas, como colocar a polícia militar no campus universitário, como na ditadura militar e a proposta é ter polícia regularmente no campus, construir um centro policial na universidade, que é um absurdo. A proposta é basicamente combater a criminalidade, combater os criminosos que roubam cadeira, rádio, mas na verdade é muito patente, que é uma dominação social, que não tem nada a ver com assegurar o patrimônio individual porque a pessoa tem que ser muito individualista, muito mal intencionada para querer tirar direito constitucionais e coletivos para combater, impedir roubo de tocar fitas e meia dúzia de carros. Porque mesmo os dados de roubos de carro é muito pequeno perto do resto do País, por exemplo, no ano passado foi roubado cinco carros considerando que cerca de três mil carros por dia circulam na UEL. No próprio Plano fala de 16 toca fitas roubados, quer dizer, não justifica nunca a polícia no campus. Outra coisa que há no Plano é a construção de um muro de três metros ao redor da UEL. A questão do muro é uma questão de dominação, há a proposta de que se o muro não for construído em toda a universidade tem que ser construído, no mínimo, do lado oeste da universidade. E adivinha o que é que tem do lado oeste da universidade? Um bairro carente, um bairro pobre, ou seja é chamar o pessoal pobre de ladrão. É ridículo. Os moradores do bairro usam o campus de final de semana para passeio é um lugar de lazer. É um campus bonito. JR – O Plano fala sobre câmeras? A. T. Atualmente existem 171 câmeras na universidade. 171 câmeras normais de vigias e duas câmeras speed-dome daquelas que fica em cima de torres que pode aproximar, filma tudo. O Plano alega que não é suficiente e precisa trocar por câmeras mais modernas, expandir com mais duas speed-dome . Será gasto muito dinheiro com algo que não vai resolver o problema da universidade. Na resposta ao plano de segurança, uma contra proposta a construção de muros e câmeras, polícia, nós propusemos ampliar o número de vigias. O que ampliaria o emprego e seria diferente da polícia, não estariam armados. JR –Vigia seria uma guarda universitária? A. T. Sim, não teria somente a função de assegurar os bens individuais mas também de auxiliar os transeuntes. JR – Na USP a guarda cumpri basicamente a função das câmeras. Uma professora quis tirar um aluno negro da sala, porque estava ouvindo walkman e chamou a guarda universitária e quando estávamos panfletando eles também tentaram impedir. A. T. Agora não estão cumprindo este papel, mas sabendo quem está no controle da universidade, de fato isso pode acontecer. JR - Em relação às panfletagens, as atividades políticas, como a reitoria reage? A. T. É interessante a história da primeira panfletagem, que considero que é a melhor que teve. Uma brincadeira com aquela a questão do credcard, que a gente colocou assim: referente as coisas que o reitor fez e estava fazendo naquele período, antes dele ser eleito ele ficou fazendo um ano direto churrasco para os servidores e aí a gente colocou assim: churrasco para os servidores R$1000, humilhar o movimento estudantil, negar água e comida, expulsar, não tem preço mas para todas as outras existe Wiltercard, nem parece ditadura. No conselho administrativo daquela semana, algum dedo duro pegou esse panfleto e o Maçal leu na hora e o todos riram o que o deixou puto da vida. Aquilo valeu a panfletagem e o tempo que a gente gastou fazendo isso. Nós tentávamos dar uma resposta rápida para o que acontecia, na segunda ou na terceira foi interessante que no dia 30 de agosto aconteceu um debate na UEL com o Pedro Marcondes, chefe de segurança, e um professor de ciências sociais. Eles ficaram debatendo e o Pedro Marcondes defendendo as posições dele e o professor negava falando que o problema da violência é mais estrutural, das próprias relações sociais que dominam hoje. O Pedro Marcondes é muito cafajeste por que não negava as coisas que o professor dizia, mas dizia que é impossível de se fazer que iria aprovar as posições dele. Então fizemos uma panfletagem no seguinte sentido, desmascarando este discurso fácil dele. Pegamos uma figurinha do professor, um desenhinho do Trotski defendendo que aquilo lá não ia resolver nada, que era uma questão de dominação que a construção do muro era para conseguir um dinheiro agora, licitar para empresas amigas da reitoria e, posteriormente, como essas medida são ineficazes, que o estado está falido, que não tem condições de suprir estas deficiências e contratar segurança privada, ou seja, tentando mostrar que esta questão no fundo é só para faturar, acumular e deixar tornar possível esta acumulação de dinheiro para as empresas privadas e “nossos” administradores da UEL e no outro quadrinho o chefe da segurança respondendo, tentando reproduzir o que ele fez de modo bem caricato, de modo esdrúxulo mostrando o quanto foi esdrúxulo o que ele falava, dizendo “não... realmente é uma questão estrutural, mas tem que fazer porque tem que fazer”. A gente colocava estes cartazes basicamente nos murais e a frase “Wiltercard, nem parece ditadura” se consolidou. JR - Os cartazes colados não são arrancados? A. T. Tentamos colocar em pontos chave na universidade onde tem bastante circulação. Mas quando têm alguma coisa mais de política dura uns dois dias. O pessoal tira mesmo, quando vê que é alguma coisa de protesto, vai lá e tira. Quando é de festa dura anos. Mas o panfleto não reprimem muito, porque também não há muita panfletagem, acho que quando começar a panfletar mais, vem a repressão. Tanto que está acontecendo em vários lugares. Mas o movimento está muito devagar, principalmente porque a UJS está dominando o DCE e o pessoal é muito parado, parece que a intenção deles é destruir as organizações dos estudantes. Eles não conseguem nem fazer eleição, para você ter uma idéia. JR – Quem é Pedro Marcondes, elaborador do Plano? A. T. Ele é chefe de segurança da UEL e recebeu plenos poderes do reitor para cuidar da segurança. Isso foi relatado pelos próprios vigias da universidade e eles disseram que Marcondes está muito intransigente, não quer negociar com ninguém. A imprensa local divulgou, um protesto que os vigias fizeram por causa do plano de segurança que propõe um revezamento entre os vigias de turnos. E assim, a cada dois ou três meses trocariam de turno, a noite ou durante o dia e isso prejudica muito a vida deles. A revolta era muito grande, então fizeram um protesto, não tanto para agredir mas para dialogar com o reitor e o chefe de segurança, que se negaram a dialogar. Quando o reitor soube que os vigias estavam chegando na reitoria para dialogar, protestar ele pegou o carro e foi embora, fugiu de lá. E deixou o Pedro Macondes conversando com eles, mas ele não quis saber, foi muito intransigente, não quis saber as reivindicações deles. Pedro Marcondes já foi da polícia militar, delegado, chefe de penitenciária e para chegar aonde ele chegou deve ter envolvimento com políticos. A política no Paraná é dominado por famílias. JR – Existem processos administrativos contra os estudantes? A. T. A reitoria depois das panfletagens e ações do movimento estudantil, ficaram temerosos, de tentar mostrar trabalho, a imagem de que são democráticos, imagem de que estão tentando fazer alguma coisa boa para a universidade. Teve a ocupação, o problema com os servidores, então eles estão querendo mostrar serviço, principalmente no jornal da UEL, um jornal de notícias e nos últimos números tem muita foto do reitor, falando de projetos, inaugurando alguma coisa, tentam mostrar uma imagem positiva do reitor, ou mesmo textos dele falando de democracia e de dialogar com as partes, veja que hipócrita, porque ele chama para dialogar, mas ele não dialóga com ninguém. Esta questão dos jornais, do uso da imprensa, muito estudantes estão muito revoltados com a situação da universidade. Teve dois casos que foram muito marcantes. O jornal de Londrina o JL tem uma coluna que é muito famosa, muito popular que o pessoal costuma mandar cartas de fatos interessantes, de interesse público. Teve um doutorando que escreveu para esta coluna criticando a construção do muro que a universidade não é de cunho privado e contra a polícia no campus de forma que ele se colocou contra a reitoria e a favor dos estudantes que estavam panfletando contra esta política. A universidade abriu uma queixa crime contra o doutorando que só estava criticando, expressando uma opinião e mostrando para o povo de Londrina o que estava acontecendo com o patrimônio deles. Teve um outro caso foi quando uma estudante de direito escreveu para esta mesma coluna do JL que houve um blecaute na universidade e os estudantes saíram pelados, e ela escreveu para o jornal criticando que não existia nenhum vigia ali fiscalizando este tipo de coisa. Era uma coisa que até legitimava a política deles, mas deu um certo desespero neles e estão ameaçando abrir um processo administrativo contra a estudante caso ela não se retrate porque ela estaria supostamente difamando a universidade. Teve um outro caso também que o estudante criticou a falta de professores e estão querendo abrir um processo administrativo se ele não se explicar. Ou seja, está sendo uma política bem repressiva, os estudantes estão com um certo medo de se manifestar, eu mesmo estou um pouco temeroso com esta entrevista que vai ser divulgada, porque está sendo absurdo o que a reitoria está fazendo, uma coisa inaceitável... um reitor que se diz democrático, defensor de direitos constitucionais. JR -E ele é ligado a algum partido? A.T. Dizem que é do PSDB, ligado a maçonaria, a rotary e que ele é cristão e talvez seja da até Opus dei também... é o que dizem. Até este caso de ele ser cristão, há um tempo atrás ele concedeu um título de Doutor Honoris Causa ao arcebispo de Londrina, ou seja, cadê a universidade laica? cadê o interesse público prevalecente? Mas no caso, o arcebispo de Londrina em 2001, quando teve a greve de seis meses da UEL e o arcebispo prejudicou muito a greve dos professores, que ficaram inconformados com o título. JR- Quem é o governo do estado? A. T. É o Roberto Requião do PMDB. JR - Vocês lançaram uma campanha pelo impeathman do reitor. Como está sendo? A. T. O movimento estudantil tem que ir pra frente. Lançamos a campanha dia 19 de agosto, em resposta a tudo que está acontecendo na universidade muitos grupos estão insatisfeitos com esta organização da universidade, a gente acha que este tipo de organização não corresponde realmente ao interesse dos estudantes, professores e servidores. A campanha do impeathman é não só para tirar um ditador que está reprimindo todo mundo e não quer saber de nenhuma crítica, mas reformular a forma como a universidade é organizada até como ligar como a questão da sociedade, como o Estado é organizado, como é que a questão de uma classe que está dominando defendendo o interesse dela não está nem aí com o dos outros. Quando tem uma manifestação, quando tem crítica somos democratas e tudo mais, mas quando surgi uma oposição, o pessoal reprime mesmo, usa a máquina pública recursos públicos para reprimir o opositor. Propomos não só derrubar este reitor, como propomos uma nova organização para a universidade.
|