A corrente LER-QI e a ocupação da USP 2ª parte
Uma ideologia centrista contra a luta revolucionária

5 de julho de 2007

Publicamos aqui a segunda parte de uma crítica ao balanço e às posições da Liga Estratégia Revolucionária, LER-QI, sobre o movimento de ocupação da reitoria da USP. O texto aqui apresentado não apenas é uma crítica minuciosa das posições daquela corrente política, mas apresenta, em forma de polêmica um balanço político detalhado do que foi a ocupação, do seu desenlace e dos seus resultados e perspectivas para a próxima etapa

IV. “Vanguardismo”
(greve VS. Ocupação)
(Correlação de forças)
DCE

1. “Auto-representação” ou “alter-representação”

A política de quebrar o movimento de ocupação é justificada pela LER-QI com a idéia de que manter o movimento seria um “vanguardismo”, ou seja, para quem gosta da gíria esquerdista, uma política que separa a “vanguarda” das “massas”. Como toda a gíria esotérica de esquerda utilizada por esta corrente até agora, esta também é completamente destituída de conteúdo real. Vejamos a avaliação:
“A greve se expandiu como um rastilho de pólvora em dezenas de cursos e unidades de trabalhadores, com assembléias estudantis históricas que mostraram a grande força do movimento. Mas este processo massivo se dissipou porque a ocupação, que no início foi uma barricada fundamental da greve, se isolou da base dos cursos e não houve nenhum tipo de unificação com os cursos pela base. Isso se deu pela inexistência de um Comando de Greve da USP com delegados eleitos nas assembléias de curso e revogáveis que pudesse unificar e dirigir de forma democrática o movimento, de maneira unificada com os combativos trabalhadores da USP. Foi lastimável ver todos os partidos que se colocam no campo da esquerda (PSOL) e se reivindicam trotskistas (PSTU e PCO), fazer o jogo dos independentes que queriam se “auto-representar”, impedindo que surgisse esse organismo de auto-organização que foi a chave de lutas heróicas do movimento estudantil internacional como a greve da UNAM de 1999 e a luta contra o CPE na França. Esses setores preferiram impor uma dinâmica burocrática no movimento, com assembléias gerais cada vez mais esvaziadas e reuniões da ocupação cada vez menos representativas, compostas por estudantes “auto-representados” e pelo PCO (nas quais se tomavam importantes decisões em nome de milhares de estudantes em greve).”
Esta política é considerada como uma “orientação vanguardista”.
Primeiramente, é preciso denunciar aqui o truque centrista que é comum a todos os pequenos grupos “trotskistas” que padecem da ilusão ou tem a pretensão absurda de estar à esquerda do PCO (LER, LBI, TPOR etc.), de igualar a política do PCO com a do PSTU, uma vez que as duas estão em permanente confronto, sem qualquer ponto de contato, como ocorreu em toda a ocupação, ao contrário deles que vivem como um apêndice do PSTU, participando inclusive de suas aventuras oportunistas como “frente de esquerda”, “Conlutas”, “Conlute” etc., sem falar na participação na operação para trair a ocupação.
A política do PSTU foi, durante toda a ocupação, uma tentativa permanente de confiscar o poder de deliberação dos ocupantes e não uma política de “auto-representação”, para se expressar no estilo particular da LER-QI.
Por outro lado, se formos buscar um significado racional na expressão “auto-representação”, a única política revolucionária é que o movimento se “auto-represente”, ou seja, represente a si mesmo, tome as suas próprias decisões e lute com toda a sua energia para que este poder de decisão não seja confiscado por outra organização. O próprio fato de que a assembléia da USP, que não estava participando da ocupação, decidisse pela desocupação, é, neste sentido, um confisco, que o movimento foi obrigado a aceitar pela confusão reinante. O princípio da política oportunista é justamente o de transferir a “representação”, isto é, a tomada de decisões, para os que não participam da luta. Aliás, esta é a essência da política burguesa liberal que consiste em utilizar todas as desigualdades sociais contra as posições revolucionárias.
Na Unicamp, esta política foi aplicada da seguinte forma: os estudantes que ocupavam o Instituto de Filosofia e Ciência Humanas foram obrigados a desocupar por uma decisão de uma assembléia de outros cursos, com professores e funcionários que não estavam ocupando nada. Esta é uma completa violação da política revolucionária que defende em todos os momentos e em todos os lugares a deliberação dos diretamente interessados, ou seja, para se expressar em “lerês”, a “auto-representação”. Poderíamos citar milhões de exemplos, mas vamos citar apenas um. Se uma fábrica está ocupada ou em greve, o sindicato tem o direito de chamar uma assembléia geral apenas e tão somente para apoiar ou não apoiar a luta, mas ninguém pode decidir em lugar dos ocupantes. Se o sindicato trouxer para uma assembléia os que ficaram em casa para votar a desocupação, esta decisão também não é justa do ponto de vista da democracia revolucionária, é justa apenas do ponto de vista da democracia liberal contra-revolucionária que vê o direito separado da luta revolucionária, que coloca o direito individual acima do direito coletivo. Esta é a opinião da LER-QI que prega, em nome do marxismo, um liberalismo burguês.
Esta, no entanto, não é apenas uma posição teórica, mas é a tentativa de dar uma justificação ideológica do mecanismo concreto utilizado para estrangular a luta da USP. O PSTU, exatamente ao contrário do que diz a LER-QI combateu em todos os momentos a democracia revolucionária dos que estão na luta para tentar transferir o poder à assembléia geral da USP, aos inúmeros comandos de greve fantasma, a um ainda mais fictício comando unificado de greve, a plenárias estaduais, comando estadual de greve e plenária nacional. Nenhuma destas instituições “alter-representativas” adotou nenhuma medida de apoio efetivo, prático à luta dos ocupantes, mas procuraram a todo momento usurpar o seu direito de decidir em nome próprio o destino da sua luta, até que conseguiram.
Quem esteve na ocupação pôde ver como funciona o milagre da “alter-representação”. A pelega diretoria do DCE da USP foi vetada pela assembléia geral como representante dos ocupantes na mesa de negociação com a reitoria, mas foi reintroduzido porque decidiram que os ocupantes seriam representados por pessoas escolhidas por outros que não estavam ocupando escolhidos nas assembléias de curso. Esta verdadeira fraude contra a decisão e contra os ocupantes foi apoiada pelo bloco PSTU-PSol-LER-QI.
A posição adotada por este bloco diante do DCE também revela o abismo que existe entre a democracia revolucionária e a política liberal da esquerda. O DCE se colocou frontalmente contra o movimento e nós, da AJR, com apoio de um amplo setor, o mais combativo, propusemos destituí-lo. Para nós, é uma coisa clara e simples. A função da entidade é organizar a luta, se a direção em questão não o faz, que se escolha alguém que o faça. Aplicamos o princípio revolucionário da revogabilidade de mandatos e do direito do movimento escolher a direção mais adequada.
O bloco em questão se opôs baseado em um princípio liberal e burocrático de respeito à representação formal. Se o DCE tivesse passado ás mãos dos ocupantes teria sido um forte estímulo para o avanço da luta.
Vamos esclarecer, de passagem, que é, por estes fatos concretos que não aceitamos a fraude de que Conlutas e Conlute foram criados para “lutar” contra os partidos governistas. Em todas as oportunidades de luta, não burocrática, não eleitorais, onde não estão envolvidos aparelhos, o PSTU é o primeiro a sair em defesa dos “governistas” contra a luta prática. A luta contra os governistas só funciona quando se trata de verbas, de aparelho, de representação formal do movimento para conseguir prestígio eleitoral. Que os militantes da LER-QI pensem nisso quando falarem em “vanguarda” se referindo ao PSTU e defenderem estas imposturas sem propósito político que são a Conlutas e a Conlute.
Os militantes da LER-QI se dizem marxistas e trotskistas, mas atuam com as mesmas concepções dos mencheviques nos sovietes da Revolução Russa. Ali os bolcheviques defenderam sempre o princípio de uma organização baseada inteiramente nas massas em luta, uma organização de combate contra os mencheviques que buscavam transformar o soviete em um parlamento operário.
A LER-QI herdou os métodos burgueses da velha escola morenista que concebe toda a atividade do movimento operário e de massas como uma atividade parlamentar. Para o morenismo, todo o problema é eleger delegados e fazer discursos, uma posição não apenas de seita que evita fazer qualquer coisa de prático, mas contra-revolucionária de opor as formalidades democráticas à luta das massas.
Na CUT e na UNE, o PSTU atuou sempre como atua hoje o PSDB no Congresso Nacional: faz discursos para o eleitorado ver que são “oposição” e, depois dos discursos, vota nas principais questões a favor da maioria e divide os cargos na mesa e nas comissões. Ora, este tipo de oposição parlamentar liberal é o exato oposto de uma política revolucionária que deve estar voltada para a luta das massas e não para os discursos em torno da luta das massas.
Uma curiosidade histórica é que a polêmica entre a “auto-representação” e a “alter-representação” existiu na USP nos anos turbulentos de 77-79, quando os estudantes da USP foram o primeiro setor das massas a desafiar abertamente a ditadura. Os “stalinistas” como eram conhecidos, PCB, PCdoB e AP (atual Psol) e seus carrapatos como os morenistas, defendiam a representação “ampla” e os trotskistas, naquele momento a tendência Liberdade e Luta, defendia a democracia dos que estavam na luta. Os primeiros chegaram até mesmo a promover eleições diretas na UNE para tentar quebrar o movimento em ascenso. Agora, naturalmente, eles são contra. A LER-QI, pelo seu pedigri morenista, é herdeiro desta política que era da burguesia no movimento estudantil e que teve que ser derrotada para dar lugar ao grande movimento dos anos 77-79.

2. Utilizando a greve contra a ocupação

As teorias da LER-QI sobre a representação e sobre a importância do comando de greve e outras coisas no gênero são a tradução ideológica daquilo que no PSTU já se tornou uma segunda natureza.
Para poder fundamentar esta doutrina liberal-morenista, a LER-QI fez dois malabarismos políticos. Em primeiro lugar, ignorou durante toda a ocupação, o papel central que a ocupação tinha no movimento geral. Para a LER, os fatos se deram assim: “a greve estudantil, assim como a dos trabalhadores e professores, se desenvolveu a partir da ocupação da reitoria da USP, que foi tomada para si por um novo movimento estudantil, espontâneo, que se chocou e passou por cima com o DCE governista (PT, PCdoB e PMDB)”. Esta avaliação é uma completa falsificação dos fatos. A ocupação não foi o estopim de uma greve que se tornou o centro dos acontecimentos. A ocupação foi sempre o centro e a greve foi sempre um apêndice do movimento de ocupação. Basta ler as matérias da imprensa capitalista que acompanhou atenta e preocupadamente a luta. Ali só existe a ocupação, o que está acontecendo dentro da ocupação, quem são os partidos que dirigem, como é organizada, o que a assembléia vai decidir etc. Finalmente, a reitora assinou um acordo para acabar com a ocupação. No acordo nem mesmo se fala do fim da greve, tal a importância que ela tinha no quadro geral.
Talvez os militantes da LER-QI argumentem que a burguesia não sabia o que fazia e se assustou com a ocupação quando deveria ter se esquecido da ocupação e se preocupado com a greve!
A LER-QI criou uma verdadeira ficção política puramente doutrinária, dogmática, que, no entanto, no mundo real servia, esta sim para o trabalho real de isolamento da ocupação realizado por um amplo bloco que ia do governo Serra, passando pelo PSTU até a própria LER!
Daí que esta organização calunie os ocupantes atribuindo a eles mesmos o trabalho de isolamento de que foram vítimas. Segundo a LER-QI os ocupantes se auto-isolaram quando não quiseram criar um comando. Na realidade, este comando não se criou porque a greve sempre foi débil e secundária na luta total e, principalmente, porque grupos como PSTU e PSol, que discutiam todos os dias a desocupação da reitoria, impediam o desenvolvimento da própria ocupação, a sua agitação nos cursos da USP e a organização de um movimento mais amplo e mais consistente que só poderia existir se tivesse como centro a ocupação e a defesa da ocupação que arrebatava todas as atenções e colocava a burguesia contra a parede. A posição dogmática da LER-QI ajudava a confundir e facilitava o trabalho de sapa de PSol e PSTU.
A ocupação serviu como exemplo nacional e foi imitada, e revolucionariamente imitada pelos estudantes, que não perceberam também que a greve é que era o centro dos acontecimentos. Enquanto que todo o país reconhecia na ocupação o centro do movimento, promovendo ocupações e mais ocupações das reitorias pelo país afora, a LER-QI, que estava presente no centro dos acontecimentos, manifestava uma completa cegueira e via em uma greve que não conseguia se desenvolver porque a ocupação estava sendo sufocada de maneira traiçoeira, o centro dos acontecimentos. A substituição da realidade por uma fórmula morta, o doutrinarismo e dogmatismo, como ocorreu neste caso, só servia para bloquear o desenvolvimento da luta.
Nesse sentido, a proposta de tranferir o centro do movimento para a criação de um comando de greve ser uma abstração sem realidade concreta. Um tal comando somente poderia representar um movimento independente como o que foi criado em torno da ocupação na hipótese de ter a mesma evolução política, coisa que não aconteceu e que, mais ainda, não poderia acontecer porque dependia da evolução do movimento da própria ocupação. Na realidade, a ocupação agrupou o setor mais evoluído do movimento estudantil da USP, produto de inúmeras experiências de luta, bem como de inúmeras vitórias. A expectativa da LER-QI seria a de que o setor mais atrasado do movimento, na ausência de desenvolvimento da luta do setor mais avançado, tivesse o mesmo desempenho, o que simplesmente não seria possível.
Tudo isso mostra que a política da LER-QI, que a levou a participar da traição à ocupação é feita de abstrações puramente dogmáticas e não de uma análise da realidade.
Este amor doutrinário pela greve não é casual. O movimento da esquerda estudantil liberal está acostumado a medidas inócuas. Daí terem convocado várias greves inúteis e sem eficácia que não arrastavam mais que uma ínfima minoria. Com estes movimentos inócuos o status quo ficava sempre preservado. A LER-QI não sabe que as greves estudantis são concebidas pelos revolucionários como movimentos políticos, ou seja, têm que se acompanhadas com manifestações mais contundentes, uma vez que não paralisam a produção, mas as aulas. A direita se aproveita destas greves sem propósito e sem eficácia para ganhar os setores atrasados contra as greves estudantis. Quando pela primeira vez em muito tempo aparece um movimento efetivo, a LER-QI e PSTU-PSol querem transformar a greve em eixo do movimento. É um apego aos métodos parlamentares das mobilizações inócuas.
Não é por acaso que a maioria dos movimentos das universidades estaduais terminavam sempre com dois ou três atos diante da Assembléia Legislativa, comandados pelo Fórum das Seis. Esta foi sempre uma política para subordinar o movimento ao pseudo parlamento existente no Brasil, uma política pseudo democrática, parlamentarista e liberal. Uma política para frear o movimento estudantil.
A LER-QI não distingue na política da esquerda a estratégia de subordinar todo o movimento a um parlamentarismo de fachada que caracteriza tanto a frente popular oficial como a frente popular de segunda linha do PSTU e do PSol. Não analisa que a sua reação automática diante de todo movimento político é levá-lo para o Congresso Nacional, Assembléia Legislativa e Câmara de Vereadores. Não entende que esta é uma política para fortalecer estas instituições e controlar o movimento através das engrenagens da democracia de fachada. Daí, também, ser incapaz de fazer uma análise correta do próprio PSTU como parte da frente popular e se deixar enganar pela suas manobras que não são de luta contra a frente popular, mas de concorrência dentro da frente popular como é o caso da Conlute e da Conlutas.
A política correta seria a de, em primeiro lugar, defender e fortalecer a ocupação. Como isso poderia ser feito? De duas maneiras, mobilizando o apoio ativo à ocupação em toda a faculdade contra a política de Serra, da reitoria, contra a repressão e, acima de tudo, em defesa das reivindicações. Em segundo lugar, impulsionando este “novo movimento estudantil” a que se refere de passagem o balanço da LER-QI, o que implicaria não apenas destituir a diretoria do DCE, como combater de maneira intransigente a política do PSTU e do PSol dentro da ocupação que levou o movimento à confusão e à paralisia e acabou por derrotá-lo a serviço da reitoria.
A “novidade” do movimento estudantil da ocupação consiste justamente na rejeição dos velhos métodos e palavras-de-ordem e na rejeição das velhas direções, incluindo PSTU e PSol. Justamente por ser novo, ou seja, revolucionário, este movimento deveria ser colocado no centro e impulsionado para renovar todo o movimento. Deveria ser investido de poder para decidir e avançar.
A política da LER-QI encontrava-se na contra-mão das duas necessidades.