A corrente LER-QI e a ocupação da USP 3ª parte
Uma ideologia centrista contra a luta revolucionária

6 de julho de 2007

Publicamos aqui a treceira parte de uma crítica ao balanço e às posições da Liga Estratégia Revolucionária, LER-QI, sobre o movimento de ocupação da reitoria da USP. O texto aqui apresentado não apenas é uma crítica minuciosa das posições daquela corrente política, mas apresenta, em forma de polêmica um balanço político detalhado do que foi a ocupação, do seu desenlace e dos seus resultados e perspectivas para a próxima etapa

Recuo organizado?

Publicamos aqui a terceira parte da nossa crítica às justificativas apresentadas pela Liga Estratégia Revolucionária para a operação que levou à desocupação da reitoria feita contra a vontade do setor mais combativo do movimento

A LER-QI tenta explicar da seguinte forma os motivos que a levaram a apoiar a operação que levou ao final da greve:
“Assim, o golpe do governo dá certo: com o decreto declaratório, a ADUSP (ligada ao PT) trai o movimento e começa a operação desmonte da greve, que atinge progressivamente os professores da Unicamp, Unesp, vários cursos da USP e alguns na Unesp e Unicamp. Com o crescente enfraquecimento da greve e as ameaças de repressão do estado e da burocracia acadêmica, nós da LER-QI, passamos a defender que a greve não tinha mais forças para revogar os decretos, sendo necessário um recuo organizado, com eixo no combate à repressão a estudantes e trabalhadores da USP, Unesp e Unicamp, em especial aos trabalhadores da USP, que eram os principais ameaçados. Nós, que já vimos a repressão em geral aos trabalhadores e estudantes provocar refluxos de anos, em particular na USP, temos como tarefa alertar desse perigo e preservar os melhores setores para as batalhas que estão por vir. Defendemos também que onde houvesse força para levantar as demandas internas de cada universidade ou faculdade era necessário fazê-lo.”

O final da ocupação pode ser caracterizado de todas as maneiras possíveis e imagináveis. O que menos corresponde à realidade, no entanto, é que tenha sido um “recuo organizado”.

O mais fundamental sobre o final da ocupação – e o que todas as correntes que participaram deste final inglório procuram a esconder – é que o final da ocupação não foi o resultado de um debate democrático entre os ocupantes, mas foi uma operação, guiada pela reitoria, para forçar, de maneira antidemocrática a desocupação. PSTU, PSol e a própria LER-QI há tanto tempo se esqueceram o que é uma relação democrática com um movimento de luta que não se deram conta do grau de coação e de manipulação que foi usado para acabar com a ocupação. Deste final, pode-se dizer tudo, menos que seria o que os ocupantes queriam, em qualquer sentido da palavra. Foi necessário travar uma verdadeira guerra para conseguir a desocupação.

PSTU, PSol e LER não procuraram convencer ninguém da necessidade e da oportunidade da ocupação. Em momento algum colocou-se a necessidade mesma de convencer, mas de forçar a desocupação.

A assembléia final que “aprovou” a desocupação é uma verdadeira obra-prima de coação contra um movimento social:

  1. A assembléia não foi preparada por nenhuma discussão. Foi convocada para dois dias após a negociação com a reitoria, sem que houvesse tempo de informar seja os ocupantes, seja os demais estudantes do que estava em jogo.
  2. Na assembléia foram apresentadas várias surpresas para que os estudantes presentes não tivessem tempo de coordenar uma reação. Surgiu um grupo de professores sem nenhum mandado de ninguém com uma proposta surpresa. Foi apresentado um acordo feito com a reitoria do qual ninguém tinha qualquer conhecimento. Ninguém leu o acordo.
  3. O debate na assembléia foi obstaculizado por uma série de manobras. Assim, os professores que apareceram de surpresa na assembléia (surpresa para os estudantes, porque PSTU, PSol e LER_QI sabiam muito bem o que iria ser feito e se preparam em segredo, às costas dos estudantes), puderam falar cerca de uma hora sem que ninguém pudesse rebater os seus argumentos.
  4. Finalmente, foram trazidas pessoas que eram contra o movimento desde o começo, em uma assembléia esvaziada, para votar, independentemente, de qualquer discussão pelo fim da ocupação. Esta ala direita, que era muito visível na assembléia, e que não tinha qualquer compromisso com o movimento, foi trazida pelos “governistas” do PT e do PCdoB.
  5. Toda esta operação foi acertada com a reitoria, às costas dos estudantes.
  6. Os estudantes, como costuma ocorrer na política burguesa, votaram sob coação, sob a ameaça de punições etc.

Este fechamento com chave de ouro nada mais foi que a conclusão de uma tentativa permanente de desarticular o movimento e forçar a desocupação desde o início por PSTU, PSol, PCdoB e PT, operação à qual a LER-QI se juntou da metade para o final da ocupação.

A idéia de “recuo organizado” é, por um lado, baseada na idéia de uma ação consciente da parte do movimento, ou seja, o exato oposto do que ocorreu.

De outro lado, o “organizado” significa que o movimento se organiza para evitar perdas maiores. No entanto, o acordo é uma derrota total e completa, como vimos acima. É uma completa capitulação, completamente irracional do ponto de vista do movimento e das suas necessidades. Só é racional do ponto de vista do desespero em que estava a reitoria para conseguir a desocupação.

Tal como resultou da ocupação, o recuo foi uma debandada desastrosa e desmoralizante, justamente porque foi feita contra a vontade da maioria dos participantes. Agora, o movimento terá que se reagrupar novamente, fazer o balanço da derrota e compreender o que aconteceu.

A invocação à questão das punições da parte da LER-QI é uma mistura de cinismo com completa alienação da realidade.

Ocorre que o próprio acordo que LER-QI ajudou a aprovar abre caminho para as punições, tal o tamanho da capitulação das correntes que o apoiaram diante da reitoria. Ao invés de ser uma barreira contra as punições, como diz alucinadamente a LER-QI, é um convite e uma aprovação das punições que a reitora e o próprio governador já anunciaram que irão fazer e já começaram a fazer.

A avaliação apresentada pela LER-QI da situação que a teria levado a apoiar a operação para forçar a desocupação em nada é coerente com a idéia das conquistas parciais. Nesta segunda avaliação, o motivo teria sido o medo de represálias da parte da reitoria, o que também não é coerente com o acordo que foi assinado autorizando a reitoria a punir os ocupantes.

Na realidade, esta análise é falsa de uma ponta a outra. Em primeiro lugar, a Adusp não “traiu” o movimento, a não ser o dos professores, que já começaram traídos exigindo menos do que o governo estava disposto a dar. O fim da greve dos professores não significou absolutamente nada por que havia significado pouco quando existia. O enfraquecimento da greve estudantil, como demonstramos, também não era decisivo. A greve na verdade, não se enfraqueceu, mas foi sempre uma greve inconsistente, com altos e baixos por motivos que já explicamos. Todo o problema estava concentrado na ocupação.

Na ocupação, porém, o fator de enfraquecimento era... a própria política da LER-QI que junto com PSTU e PSol lutavam desesperadamente para desocupar!

Para ver o artificialismo desta situação, basta ver as matérias na imprensa capitalista pedindo a desocupação, reivindicando, de maneira impotente o uso da força, que não poderia acontecer e torcendo para que a ala anti-ocupação fosse capaz de derrotar os que defendiam a ocupação. O jornal O Estado de S. Paulo tirou uma página inteira dedicada à análise de quem eram e como poderiam vencer os “grupos” “radicais” que queriam manter a ocupação. A reitora Suely Vilela trabalhou freneticamente para conseguir a desocupação e até mesmo um grupo de professores foi formado para este fim.

Todas estas expressões de desespero para desocupar estão evidenciando que a ocupação estava fraca? Ou será que eles estavam buscando uma saída organizada?

A situação real era a seguinte. A reitoria ameaçou o movimento com a utilização da força policial e fracassou. A repercussão da ocupação, no meio estudantil, foi muito maior do que o governo havia previsto, de forma que este foi obrigado a realizar um compromisso, expresso no decreto declaratório, que nada significa juridicamente, mas que é um claro recuo político. A partir daí criou-se um impasse, uma vez que a reitoria e o governo viram-se desarmados. A sua tentativa de isolar politicamente a ocupação com o ato do professor Sawaya, também fracassou. A partir daí, o desgaste da reitoria era maior a cada dia. A única esperança da reitoria era que ou a desocupação ocorresse pelo cansaço ou que fosse desocupada por um movimento de dentro. Quando ficou claro que o cansaço não iria ocorrer e que o movimento começava lentamente a se rearticular para uma ofensiva, lançaram-se desesperados à desocupação por dentro.

Da nossa parte não temos qualquer dúvida de que a desocupação foi forçada de dentro para fora, que a LER-QI cinicamente chama de “recuo organizado” foi uma operação feita de acordo com a reitoria, pelas costas dos estudantes. Por todos estes motivos é que dissemos e continuaremos a dizer, explicando minuciosamente para os estudantes que esta operação foi uma traição ao movimento para que os estudantes tirem todas as conclusões dos
acontecimentos.