A corrente LER-QI e a ocupação da USP 4ª parte
Uma ideologia centrista contra a luta revolucionária

7 de julho de 2007

Continuamos aqui a nossa polêmica com as posições da LER-QI, analisando agora a política verdadeiramente criminosa, utilizada por todos os grupos que traíram a ocupação, de modo sistemático, de rebaixamento das pautas de reivindicação e apresentamos, em oposição, o método marxista de conceber as reivindicações

A política pelega do “rebaixamento da pauta”

Uma boa parte da esquerda que se diz “operária”, “revolucionária” e “trotskista” foi doutrinada pelo peleguismo burguês e de direita, que dominou os sindicatos na época do regime militar as suas táticas sindicais capitalistas. Os melhores alunos foram, sem dúvida, os diversos ramos da organização morenista original, pulverizada pela crise causada pela sua política que combina uma aparência radical com uma política oportunista.
Dentre estes métodos sindicais, o mais apreciado por todos os grupos de filiação morenista como o PSTU e a LER é a famosa política de rebaixamento da pauta. Funciona da seguinte forma: o sindicato apresenta reivindicações propositalmente baixas, que considera que seja aceitáveis para os patrões. Depois de um dia ou dois de “mobilização” aparente, a direção do sindicato propõe o famoso “rebaixamento da pauta” como uma forma “inteligente” de “negociar” com os patrões que, após umas duas etapas de rebaixamento... aceitam a proposta que eles mesmos haviam formulado.
Na ocupação da USP, LER, PSTU e PSol, tendo o PT e o PCdoB por trás, defendeu a tese de que os estudantes deveriam aceitar o rebaixamento de pauta e se centrar nas reivindicações de não-punição, uma política clara de acabar com a força do movimento para depois convencer o governo a não punir, uma política que favorece como vemos agora a repressão contra os estudantes que participaram do movimento. Em um primeiro momento, mostrando a evolução da consciência dos estudantes sobre a base de experiências desastrosas do passado, os estudantes não apenas não aceitaram a redução das reivindicações como efetivamente aumentaram a pauta para 18 pontos, abarcando as demandas dos mais variados setores, fortalecendo desta forma o movimento.
A manobra de rebaixamento do pauta é apresentada como um estratagema “inteligente” para a negociação, mas nada tem a ver com isso. Como manobra para a negociação é simplesmente absurda e, pior ainda, é desmoralizante para o movimento. Não faz parte dos métodos de luta do marxismo que ensina que se deve pedir tudo o que se considera que se tem direito para depois, sobre a base da luta, realizar um acordo sobre a base do que foi possível conseguir. O método pelego-morenista aplicado na USP em muitos outros lugares consiste em pedir menos para conseguir mais, o oposto do que seria lógico.
No mundo já não digamos dos revolucionários trotskistas, mas de simples pessoas normais, entende-se que uma assembléia estudantil possa analisar uma proposta de uma reitoria ou de um governo e aceitá-la ou recusá-la ou, ainda, fazer uma outra contra-proposta para chegar a um acordo diante de uma determinada avaliação da força do movimento, mas ninguém pode entender qual seja o sentido de eliminar ou reduzir as suas próprias reivindicações, exceto a de desanimar as pessoas em luta.
Foi com base neste raciocínio bizarro que se opuseram à nossa reivindicação de que a reitoria desse, ao menos, uma resposta formal a todas as reivindicações. Coisa que simplesmente não fez.
O PSTU, pai da LER-QI já expressou várias vezes a sua adesão à política pelega de pedir menos para facilitar a aceitação pelos patrões, ou seja, uma política que já começa com uma capitulação diante do inimigo.
Nada disso, no entanto, é uma invenção do PSTU, do PSol ou do PT, mas um recurso tradicional da política burguesa. Qualquer pessoa que já participou ou conhece como são feitas as negociações na FIESP sabe que os patrões, nas negociações salariais, começam as negociações sempre pedindo, cinicamente, a quem apresentou a proposta que apresente uma contra-proposta, o que é um contra-senso, exceto se levarmos em consideração que os sindicalistas patronais sempre fazem isso. Costuma apresentar uma pauta para a categoria, já rebaixada, apenas para rebaixá-la ainda mais na mesa de negociação porque o seu objetivo não é lutar pelas reivindicações, mas iludir e enganar os trabalhadores e chegar a um acordo com os patrões o mais rapidamente possível.
A política da esquerda conciliadora que vai do PT à LER-QI pautou-se, como ocorre em todos os movimentos, pelo mais completo desprezo pela reivindicações dos estudantes. Quem observa estes grupos em ação tem a nítida impressão de que, para eles, os movimentos nada têm a ver com nenhuma reivindicação efetiva, a cuja formulação não dão a menor importância e às quais estão dispostos a sacrificar sem a menor cerimônia a qualquer momento. Daí não ser difícil compreender também que as “grandes vitórias” absolutamente nada tem a ver com as reivindicações em si, deixando entender que a vitória teria a ver com qualquer coisa menos com a satisfação das demandas efetivas do movimento. Tem-se, inclusive, a impressão de que o movimento seria um fim em si mesmo, seria um movimento pelo movimento, por amor à arte, por esporte. De um modo geral, a formulação das reivindicações, da parte desses grupos, nada tem a ver com ganhos efetivos para a classe operária e para os estudantes, mas é utilizada para manobras demagógicas, burocráticas e de prestígio. Não é de se espantar, portanto, que sejam, também, absolutamente ignorantes de tudo o que se relaciona às reivindicações efetivas de todos os setores das massas.
As massas, no entanto, lutam pelas suas reivindicações e tem uma enorme incapacidade de aceitar que as suas reivindicações sejam transformadas em mero jogo a serviço da politicagem. É por este motivo que estes grupos sejam sempre incapazes de desenvolver um movimento efetivo de massas, forte e sólido. Também não causa espanto que, em momento algum, compreendessem que na luta efetiva pelas reivindicações estivesse a força do movimento, que consideraram “fraco” por motivos puramente subjetivos.
As reivindicações também não são, como pensa esta esquerda, um brinquedo de ocasião, mas a luta por eles dá uma contribuição essencial, a maior de todas, para o desenvolvimento da consciência de classe do proletariado e, em geral, para a consciência das massas. As revoluções, de um modo geral, são feitas em torno de uma longa luta pelas reivindicações mais essenciais das massas. As lutas mais importantes do movimento operário foram aquelas que se desenvolveram depois de um longo trabalho de propaganda em torno destas reivindicações. A absoluta leviandade, para ser modesto, desta esquerda para com as reivindicações denota o grupo, senão diretamente patronal e pelego, ao menos a seita sem qualquer vinculação real com a luta efetiva das massas.
O caso mais esclarecedor desta perversidade destes grupos é justamente o tratamento dado à questão da Estatuinte. Não tiveram dúvida em lutar para prostituir a reivindicação, prejudicando o movimento em um sentido amplo, para possibilitar o seu acordo com a reitoria. Durante uma semana, a ocupação discutiu o que seria uma “estatuinte”, uma coisa que todo mundo, por outro lado, sabe o que é. Finalmente, no acordo que assinaram, LER-QI, PSTU e PSol, transformaram a estatuinte em uma farsa degradante de pedir autorização à reitora para fazer um Congresso e pedir dinheiro à reitoria, “dentro das possibilidades”.
Este problema crucial de qualquer movimento verdadeiramente social, quer dizer, de classe é particularmente importante para o movimento operário, porque o operário não pode nunca se dar ao luxo de arriscar o seu emprego em uma aventura que não conduz a nenhum resultado concreto. O tratamento verdadeiramente pelego e porcalhão dado às reivindicações das massas em geral é uma das características mais marcantes destes grupos, acima de qualquer dúvida, como politiqueiros pequeno-burgueses.