Aonde vai o movimento estudantil
A UNE e a ocupação da USP

7 de julho de 2007

As greves e ocupações realizada pelos estudantes demonstraram uma forte tendência de uma reorganização do movimento estudantil por fora das burocracias e de caráter revolucionário

O 50º Congresso da União Nacional dos Estudantes (Conune), que teve início nesta quarta-feira, dia 4, em Brasília, está sendo realizado logo após as imensas mobilizações estudantis que ocorreram por todo o País entre maio e junho deste ano, com ocupações de reitoria e institutos em diversas universidades, ou seja, uma mobilização histórica pela autonomia universitária e contra a destruição do ensino público, uma movimento nunca visto antes em décadas.

Entretanto, apesar da ampla participação dos estudantes nestes movimentos de ocupação, que tiveram a participação de milhares de estudantes nas assembléias e plenárias, não se vê no Congresso da UNE nada parecido, como se o movimento estudantil estivesse ainda num profundo refluxo, marcado principalmente pela dominação da burocracia na maioria das entidades estudantis.

Na realidade, este congresso em nada tema a ver mesmo com essas mobilizações, pois segue o mesmo roteiro de sempre, que é substituição de uma burocracia por outra. No caso, o PCdoB, que há mais de vinte anos domina a direção da UNE para transformar uma entidade que surgiu a partir da luta histórica dos estudantes numa verdadeira filial do governo.

Em primeiro lugar, a mobilização dos estudantes, iniciada com a ocupação da reitoria da USP e que se espalhou por mais de dez estados, foi um movimento que passou totalmente por fora da UNE, pois sua direção não tem o menor interesse em dar qualquer tipo de apoio ao movimento dos estudantes, ainda mais quando este movimento está sendo diretamente contra os governos estaduais e federal.

Esta mobilização, que está longe de ser um fato isolado e muito menos de acabar por aqui, forçou a própria burocracia da UNE a realizar um congresso com uma aparência de oposição, no entanto, uma mera aparência, como mostra o fato de levantar palavras-de-ordem como "Fora Meirelles" e chamando um ato contra a política econômica do governo Lula. Não se trata de uma guinada à esquerda, como poderia parecer, mas de uma política defensiva diante da profunda rejeição que os estudantes expõem nacionalmente com estas mobilizações e outras manifestações contra a política do PCdoB eo governo Lula. Após serem execrados do movimento por terem se posicionado vergonhosamente contra as ocupações, o PCdoB tenta se mostrar agora um pouco mais crítico ao governo Lula, mas sua política continuará sendo exatamente a mesma. Esta manobra não poderá salvá-los. Serve, no entanto, para mostra a realidade do apoio do governo Lula na população por um outro índice que não as fantasias produzidas pelos institutos de pesquisa. Se o governo Lula tivesse 65% de aprovação como afirma de modo ridículo a imprensa capitalista, qual seria o sentido de direções lulista como o PDdoB na UNE e os petistas do MST assumirem uma camuflagem constestadora e oposicionista?

As greves e ocupações demonstraram claramente qual é a tendência dos estudantes, que é a de se reorganizarem por fora da burocracia estudantil, incrustada nas suas entidades (CAs. DAs, DCEs) há anos. Isto significa que a questão não a de simplesmente reconstruir a UNE ou então construir uma nova entidade, mas acompanhar a tendência geral dos estudantes em formar novos tipos de organizações de caráter revolucionário.

A política do PSTU e seus associados em afirmar que a UNE não é mais dos estudantes e que ela já não pode ser mais uma entidade de luta, tem como objetivo apenas esconder o fato de que estão dando de presente a direção da UNE para o PCdoB, pois não querem brigar com a burocracia, mas disseminar uma política distracionista, tirando do foco a profunda crise destas direções. Isso porque o próprio PSTU sempre fez parte da burocracia junto com o PCdoB. Mas diante desta crise, partiu rapidamente para a construção de uma nova entidade que agora não demonstrou nenhuma oposição à política da UNE.

Na ocupação da USP, por exemplo, tanto o PSTU como o PCdoB foram contra a tendência dos estudantes e se posicionaram desde o princípio contra a ocupação. Uma das grandes preocupações do PCdoB, que junto ao PT e PMDB estão na direção do DCE da USP, era a de impedir que estas mobilizações ecoassem para dentro do Congresso. Por isso não fizeram questão nem mesmo de realizar eleições para delegados na USP e até mesmo de não enviar um único ônibus para que os estudantes fossem à Brasília.

O PSTU, por sua vez, não está participando do Congresso. O que é melhor então? Ficar em casa e esperar as férias terminarem ou ir ao Congresso e denunciar os inúmeros golpes do DCE não só em São Paulo, mas também em outros estados. O PSTU não vai ao Congresso porque divide a burocracia junto com o PCdoB, ficando com uma parte que corresponderia a um lambari na relação com um tubarão. Na verdade são duas políticas exatamente iguais com viés diferente. Ambos estiveram contra a ocupação. Duas entidades com a mesma política se digladiando por obter maiores privilégios burocráticos não é luta, é confundir ainda mais a situação.

A Conlute é uma tentativa de resgatar a mesma política da UNE, que está em colapso. Nunca conseguirá substituir a UNE, justamente por essa ser uma entidade histórica e resultado de uma grande mobilização, mas serve como o suporte ideal para salvar a crise da direção da UNE, ou seja, uma tábua de salvação para o PCdoB.

O fato mais importante demonstrado pelos estudantes é a sua tendência em se reorganizar por fora destas burocracias, de forma revolucionária. E as ocupações demonstraram esta perspectiva.