50º Congresso da UNE
Aprofunda-se a crise do PCdoB na UNE

9 de julho de 2007

O congresso que deu continuidade à velha burocracia que domina a entidade há mais de 20 anos acontece no início de um novo período de ascenso do movimento estudantil e sob a perspectiva de um aniquilamento não somente desta direção, mas de todas as burocracias que atuam no movimento estudantil

Foi realizado em Brasília, entre os dias 4 e 8 de julho o 50º Congresso da UNE, no ano em que a entidade comemora seus 70 anos.
Em sete décadas de existência, a UNE nunca esteve tão paralisada e distante dos interesses dos estudantes e da juventude como agora, depois de mais de vinte anos de domínio do PCdoB sobre a entidade.
O congresso ficou marcado principalmente pelo seu atrelamento ao governo Lula do que um fórum de discussão e debate que organize a luta dos estudantes. Na verdade, o que a direção da UNE - encabeçada pela UJS, corrente estudantil do PCdoB, se propõe a fazer, é justamente impedir a mobilização dos estudantes. Na USP, por exemplo, onde os estudantes entre maio e junho ocuparam a reitoria por 51 dias, nem mesmo a eleição para os delegados foi feita. O DCE, dirigido pelo PCdoB, PT e PMDB, além de não ter realizado as eleições para delegados na universidade mais importante da América Latina, não organizou sequer um ônibus para levar os estudantes ao Congresso.
Antes da abertura oficial do Conune, o Senado Federal, atual pivô de vários escândalos de corrupção que envolve até mesmo seu presidente, Renan Calheiros, fez a sua “homenagem” aos 70 anos da UNE. Já na abertura, no dia seguinte, o reitor (!) da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Martin Mulholland, tomou a palavra e deu início aos trabalhos... Vale lembrar que o reitor Mulholland é conhecido por suas declarações racistas e conservadoras. Esta é tática para criar uma frente contra-revolucionária para desmoralizar o movimento, ainda mais levando-se em consideração as dezenas de ocupações que antecederam o Congresso e estavam voltadas justamente contra os reitores e o governo
Estes e outros fatos revelam o comprometimento da direção da UNE com uma política em favor da educação privada em detrimento da destruição do ensino público, pois esta é a política do governo e de todo o Congresso Nacional, um antro de corrupção financiado pelos capitalistas.

Um congresso de fachada

Não só a participação do reitor, mas de outros representantes do governo, fizeram a programação geral dos debates no congresso. Dentre eles, deputados, senadores, ministros e até mesmo de um delegado da polícia do Rio de Janeiro, apoiador do extermínio da população pobre no Complexo do Alemão.
Procurando adotar uma posição um pouco mais “crítica” em relação ao governo Lula, a direção da UNE emplacou uma campanha de fachada pela renúncia do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Chegou ainda a realizar um ato contra a política econômica do governo Lula, mas nunca contra o governo Lula, que dá a linha à política econômica. Do outro lado, o Psol, que defende a mesma política burguesa do PT e do PCdoB, só que pelo lado avesso. Estes realizaram uma campanha pelo “Fora Renan” e se fazem de “oposição de esquerda” na UNE. Trata-se, na realidade, da mesma política de defesa as instituições de fachada “democrática” do regime burguês, citando nomes de corruptos como se fossem casos isolados e não denunciado o fato de que o próprio Congresso Nacional só pode funcionar através da corrupção de seus parlamentares.
Em relação aos Grupos de Discussão, que encaminharam propostas para serem votadas na plenária final, de fato ocorreram, porém sem o essencial: os estudantes. Foram grupos totalmente esvaziados e propositalmente desorganizados.

Legitimação da ditadura da UJS

Já na plenária final, apenas três propostas divergentes foram colocadas sob votação: conjuntura nacional, educação e movimento estudantil. As propostas ao invés de serem votadas uma a uma são votadas em bloco, um funcionamento completamente anti-democrático que permite o predomínio da UJS/PCdoB sobre a entidade, aprovando todas as suas propostas de uma vez, já que para aprovar algo importante, como por exemplo “diretas já para a UNE”, as organizações e estudantes ali presentes tem que abrir mão de todas as suas propostas para se unificar em torno disso. Pelo menos oito chapas se apresentaram na defesa destas questões. Em geral, todas em defesa do governo mensalão, da reforma universitária e do presidente Lula.
A AJR (Aliança da Juventude Revolucionária) aproveitou sua intervenção para denunciar a submissão do governo Lula aos tubarões do ensino privado, ao imperialismo, além da ditadura da UJS na direção da UNE, que há mais de 20 anos mantém a entidade numa paralisação sem precedentes.
No segundo e último dia da plenária final, onde 11 chapas se apresentam para formar a nova direção da UNE, a AJR aproveitou novamente sua participação no congresso para denunciar o jogo de cartas marcadas, ou seja, denunciar um congresso-farsa que apenas legitima uma burocracia parasitária, que sobrevive através da máfia das carteirinhas estudantis, mas que não conta com apoio algum dos estudantes na universidades e nos seus cursos. Em virtude disso, a AJR retirou a inscrição de sua chapa em protesto.
Ao fim de duas gestões consecutivas como presidente da UNE, Gustavo Petta, deixa o cargo e dá lugar a Lúcia Stumpf, também do PCdoB..

Campanha contra as punições

A AJR intensificou também a campanha contra a punição dos estudantes das universidades estaduais paulistas que ocuparam reitorias e institutos da USP, Unesp e Unicamp. Foram mais de duas mil assinaturas recolhidas nos quatro dias de congresso, onde os abaixo-assinados foram passados nas plenárias das correntes participantes, nos painéis de debate e também entre personalidades conhecidas do meio político, artístico e intelectual. Vale ressaltar que a pressão que a AJR está impulsionando contra qualquer tipo de punição e perseguição política aos estudantes força figuras abertamente contra o movimento de ocupações a assinarem o abaixo-assinado, como a ex-senadora Heloísa Helena, cujo partido foi um dos que mais se destacaram na sabotagem e traição do movimento de ocupação da USP.
Entretanto, a direção da UNE não pôde disfarçar sua política burguesa. A UJS recusou o encaminhamento de uma moção contra a punição dos estudantes, proposta pela AJR, mostrando que não passam de frases vazias a defesa das ocupações das quais, depois de ter se colocado frontalmente contra, procuram tirar proveito

Tendência dos estudantes

As ocupações por todo o País demonstraram claramente uma tendência a um novo ascenso de um movimento estudantil verdadeiramente combativo e que lute pelos seus interesses por fora das burocracias que dominam não só a UNE, mas os CAs, DAs e DCEs.
O movimento estudantil, assim como a classe operária brasileira, inicia uma nova etapa de grandes mobilizações, de caráter revolucionário, que resultará em novas organizações e que levará à completa falência todos os partidos e grupos que atuam no sentido de derrotar as mobilizações e desmoralizar o movimento.