
Privatização da universidade pública
Em entrevista para a Veja São Paulo, o reitor-interventor defende PM na USP com o eufemismo de “blitz preventiva”
O preposto do governo do PSDB na Universidade de São Paulo, João Grandino Rodas, defendia a polícia na cidade universitária antes mesmo de ser indicado ao cargo. Agora utiliza a morte de um estudante no campus para afirmar que a entrada da polícia para fazer rondas e revistas é urgente. Em 2009, Rodas propôs a portaria no Conselho Universitário que garantiu a entrada da PM para reprimir a greve de funcionários e estudantes. Foi ele também o primeiro a colocar a Tropa de choque na USP, no Largo São Francisco, após a ditadura, abrindo caminho para o aumento da perseguição e repressão ao movimento estudantil em 2007. O presidente da Comissão OAB Vai à Faculdade, Ricardo Sayeg, junto com Antonio Carlos M. de Arruda Jr, publicaram nota na época afirmando “No Estado Democrático de Direito, não se invade uma Faculdade com a Polícia Militar, muito menos uma Faculdade de Direito, para sufocar uma manifestação”. Cinicamente, Rodas afirmou na entrevista “Muita gente imagina que a polícia vai atrapalhar a manifestação de movimentos sindicais, prejudicar a livre expressão, mas não é isso. A reitoria não vai fazer isso e pode assumir esse compromisso. É uma ronda com a missão específica de combater o crime.” Rodas leva a sério a afirmação de que “o povo brasileiro não tem memória”. A tropa de choque reprimiu uma manifestação dos estudantes no Largo São Francisco, impediu as atividades de greve dos funcionários da USP em 2009, reprimiu violentamente o ato de estudantes em conjunto com os funcionários, sitiando a cidade universitária, no dia 9 de junho de 2009. Em nenhum dos casos era “combate ao crime”. Era justamente a repressão e perseguição às mobilizações políticas de setores da universidade. “Só a polícia tem de fato o poder de polícia, de prender, de dissolver um crime antes que ele aconteça.” afirma na entrevista, no entanto no momento em que o rapaz foi morto estava ocorrendo uma blitz da polícia militar muito perto do local. Os policiais estavam parando motos e pessoas consideradas “suspeitas”. Nada disso adiantou. A polícia já faz rondas na universidade desde 2009 e a morte do estudante ocorreu em maio de 2011. Rodas tenta passar a impressão para algum desavisado que a oposição a entrada da PM na USP é de uma minoria: “os grupos ativistas, que são pequenos e barulhentos, transformam o campus num lugar favorável a ações criminosas ao serem contra a polícia, em nome de uma ideia de território livre.” A própria afirmação dele, demonstra a preocupação em convencer uma grande parcela da universidade tentando amenizar de “PM no campus” para “blitz preventiva”. A polícia militar tem sido alvo de várias denúncias, até mesmo internacionais. Em um relatório de seguimento sobre o progresso do Brasil, o relator especial da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais afirmou que “os cidadãos, principalmente os moradores de favelas, continuam sendo reféns da violência dos grupos criminosos, das milícias e da polícia” e que as “execuções extrajudiciais ainda são amplamente praticadas”. Esta é a polícia que Rodas traz para dentro da Universidade de São Paulo. A indicação de Rodas e a sua política de privatização levada adiante expõe uma ferida que existe em todas as universidades brasileiras, que é a completa ditadura imposta a toda a comunidade universitária, principalmente estudantes e funcionários, sem direito a interferir minimamente nos rumos da universidade. Toda a comunidade universitária estará agora ainda mais ameaça fisicamente por qualquer contestação às decisões da burocracia universitária.
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