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No dia 2 de outubro completaram-se 80 anos da organização católica Opus Dei, uma organização até pouco desconhecida, apresentada geralmente como um tipo de seita católica ou até mesmo uma sociedade secreta. No entanto, a idéia de “seita” só serviu para ocultar o fato de que esta poderosa organização formou dentro da Igreja um lobby político decisivo e se fundiu ao longo dos seus oitenta anos com todos os governos de direita e extrema-direita, apoiando ditaduras militares na América Latina e o i Com seus cerca de 80 mil membros espalhados pelo mundo, a Opus Dei (Obra de Deus, em latim) não é só uma sociedade secreta, uma seita minoritária dentro da Igreja Católica como define Emilio J. Corbière em seu livro Opus Dei: O totalitarismo Católico, trata-se da “mais forte manifestação integralista de poder na Igreja”. Veremos a seguir não apenas o poder e a orientação política da seita, mas procuraremos caracterizar que se trata de um partido político que a burocracia do Vaticano utiliza para levar adiante a sua política que sempre foi de extrema direita e reacionária, de acordo com os dogmas obscurantistas da Igreja, que teimam em manter, em plano século XXI, para servir a política contra-revolucionária mundial do imperialismo.
Origens
Fundada na Espanha em 1928 por Josemaría Escrivá de Balaguer, a Opus Dei ou a “Obra”, como costumam designar seus integrantes, deu um salto de qualidade durante o fascismo espanhol de Franco, que viu em Escrivá uma bela oportunidade para desenvolver um trabalho religioso ideológico contra a ameaça marxista. Este foi também o período que marcou o início de uma estreita relação da Opus Dei com a CIA, que ajudou no restabelecimento da monarquia na Espanha após a morte de Franco.
Esta origem chama a atenção para a natureza da Igreja Católica e das grandes organizações religiosas em geral, a saber, o fato de que são criaturas do Estado burguês, sem o qual não sobreviveriam e que são, na realidade, um partido, um lobby prático e ideológico dentro do Estado. A atual campanha do Vaticano em torno à “defesa da vida” visa, entre outras coisas, a influir e ganhar poder no aparelho de Estado capitalista para transformá-lo em instrumento dos seus objetivos reacionários próprios.
A sua ligação com o fascismo espanhol, que procuram desmentir, nada tem de casual. O fascismo foi e é a política própria da burocracia católica e não apenas da Opus Dei. A sua aliança com a “democracia” imperialista, ou seja, com a CIA e o imperialismo norte-americano, tem origem na chamada “guerra fria”, ou seja, na política de caça às bruxas contra o comunismo que, sob a cobertura da democracia, assumiu um caráter de extrema-direita como se pôde ver nas ditaduras por ele implantadas. A organização foi oficialmente reconhecida pela Igreja em 1947 e em 1982 obteve do papa João Paulo II uma “Prelatura Pessoal”, ou seja, sob o carimbo do Vaticano, poderia atuar da forma como desejasse, prestando esclarecimentos somente à máxima instância da Igreja, o papa.
Este novo status da Opus Dei foi obtido quando verificou-se que os interesses do Vaticano e da organização se harmonizavam plenamente. Nos anos 60, Giovanni Montini propôs à Opus Dei, para obter a prelatura que ambicionavam, que levassem adiante na Espanha a política da Democracia Cristã. Nem uma nem outra coisa aconteceu. Entre as décadas de 80 e 90, sob o comando do papa João Paulo II, a Opus Dei nunca cresceu tanto, ainda mais do que durante o regime fascista espanhol. Conquistou as melhores posições na cúpula do Vaticano, tendo atualmente o papa Bento XVI (ex-nazista alemão, Joseph Ratzinger) como um dos principais artífices.
O poder da Obra cresceu tanto durante o papado de João Paulo II que o próprio Escrivá recebeu em 2002 sua beatificação e canonização em tempo recorde, a mais rápida em toda a história da Igreja, uma manifestação não apenas de apoio do Vaticano à organização, mas uma demonstração verdadeira de indentidade de propósitos. Junto com o papa (polonês, Carol Woytila), a Opus Dei teve papel ativo na destruição do Estado operário da Iugoslávia a serviço do imperialismo e na crise dos Bálcãs nos anos 80 e 90. Estimaram a Croácia e a Sérvia como importantes enclaves católicos de extrema-direita na luta contra a influência muçulmana na Bósnia, assim como na manipulação política da revolução proletária da Polônia, para citar alguns exemplos.
Construíram um império financeiro e suas relações se estendem até o IRA da Irlanda do Norte. Foram também – e ainda são – extremamente ativos no Chile, uma verdadeira segunda pátria da organização depois da Espanha, através do Instituto de Estudos Gerais que a CIA financiou durante a presidência de Richard Nixon. Este instituto planejou o golpe contra Salvador Allende pelo general Augusto Pinochet, em 1973. Pinochet e vários de seus ministros eram da Opus Dei. A Opus Dei e o papa levaram juntos na América Latina a luta contra a Teologia da Libertação e seu fundador, o peruano Gustavo Gutiérrez Merino, e todo e qualquer pensamento dissidente dentro da Igreja.
A Opus Dei é hoje, apesar de relativamente pequena e desconhecida, o mais forte grupo dentro da Igreja Católica Romana, atuando decisivamente nas esferas políticas, econômicas e na infra-estrutura do ensino de inúmeros países. Seu poder financeiro chega a ultrapassar os ativos da gigante General Motors. Controla diretamente oito universidades e oito instituições de ensino superior no mundo, além de grande parte das redes de comunicação de massas, como rádios, jornais, televisão e editoras, principalmente na Europa e EUA. A Opus Dei está também dentro dos órgãos de repressão do Estado. O ex-diretor da FBI entre 1993 e 2001, Louis Freeh, sua esposa, irmão e filhos, são membros da “Obra”. Seus filhos estudam em uma escola da Opus Dei em Washington e sua esposa, Eunice Kennedy, é uma importante cooperadora. Dado o caráter semi-secreto da organização, é praticamente impossível identificar todos os elementos importantes que ou são membros da seita de extrema-direita ou são ligados a ela, uma vez que o objetivo da organização é justamente o de colocar sob a sua influência pessoas em postos de importância e influência sem tirá-los da vida laica. Neste sentido, presta inestimável serviço ao Vaticano através de advogados, juristas, jornalistas, “cientistas” que atuam de forma “independente” e discreta na defesa das posições reacionárias da Igreja em campanhas como a que está em marcha no Brasil hoje, de várias personalidades e políticos contra o direito de aborto, as células-tronco etc. A “Obra” e seu fundador
José Maria Escrivá, fundador da “Obra”, nasceu em 1902 na pequena cidade espanhola de Basbastro, na província de Aragão. Fez seus primeiros estudos no colégio dos Padres Escolápios até completar doze anos de idade, quando o negócio de seu pai faliu e sua família teve de se mudar para Logroño, em La Rioja. José Maria pretendia estudar arquitetura, mas uma “visão” o teria convencido a dedicar-se ao sacerdócio, sendo então ordenado padre em 1925.
Em 24 de março de 1930, quando tinha 28 anos, José Maria redigiu o primeiro programa da Opus Dei, intitulada de “Singuli Dies”, carta que ajudou a recrutar os primeiros membros desta organização. O primeiro dever de um adepto da “Obra” era o de sempre tratar seu fundador como “pai”. Na década de 30, um dos requisitos elementares para fazer parte da Obra era o celibato. Casais só seriam aceitos na organização a partir dos anos 50, com a designação dos “supranumerários”. À medida que a organização foi adquirindo novos membros, outros cargos foram designados para atribuir o tipo de membro. Além dos ”supranumerários”, foram destacados os ”numerários”, que praticam o celibato; os ”agregados”, que trabalham exclusivamente nas sedes e escolas da Opus Dei (muitos dos quais vindos da classe operária); e os ”cooperadores”, simpatizantes que contribuem com consideráveis doações em dinheiro. São geralmente banqueiros e grandes empresários. Não se tem, obviamente, o registro dos políticos que a organização financia para os seus propósitos, poucos dos quais são conhecidos, em geral elementos de centro-esquerda, usados para disfarçar a propaganda de extrema-direita com uma camuflagem “ética”, de “esquerda liberal” etc. Em 1933, a “Obra” conseguiu sua primeira sede, ainda improvisada, em um apartamento alugado no centro de Madri, porém disfarçado de instituto privado que oferecia cursos complementares para estudantes universitários chamado de Direito e Arquitetura (DYA, em espanhol); a fachada servia para atrair os jovens, mas na verdade significava “Deus e Audácia”. O local foi, meses mais tarde, transformado em república universitária, mas ao mesmo tempo era onde funcionava o escritório de Escrivá, conhecido como o “quarto do pai”. As atividades neste apartamento tiveram que ser encerradas com a eclosão da revolução espanhola em 1936, ano em que Escrivá, já um ativivo político da direita fascista espanhola, “disfarçou-se” com a aliança de casamento da mãe. Nessa época, muitos padres espanhóis delatores e ligados ao fascismo foram fuzilados pelos republicanos. Nos confessionários, os padres a serviço da contra-revolução obtinham nomes e endereços dos revolucionários, levando-os até os fascistas. A Igreja prestou um enorme serviço à contra-revolução e à sua vitória com Franco assumindo o poder nas décadas seguintes. Temendo ser fuzilado, Escrivá fugiu para um hospício nos arredores de Madrid e se fez passar por doente mental, mas meses mais tarde conseguiu um cargo diplomático em Honduras, assim como outros membros de sua organização. Depois disso, partiu de volta para a Espanha, onde viveu em Valência, Barcelona e Andorra. Só voltou para a capital em 1939, com o respaldo dos militares franquistas, a essa altura já vitoriosos e realizando um dos maiores massacres contra um povo já vistos. Foi a partir deste ano que a Opus Dei passou do seu estado embrionário para um ativo desenvolvimento. Foi em meio a um cenário de perseguição e massacre, onde as tropas fascistas assassinaram mais de 700 mil pessoas – 500 mil só durante a guerra civil – que o membro fundador da Opus Dei escreveu, sob a música dos fuzilamentos franquistas, seu principal livro, O Caminho, trazendo 999 “ensinamentos religiosos”, como o de número 172: "Se não te mortificas, nunca serás alma de oração" ou o 180: “Onde não há mortificação, não há virtude”. Esta frase foi recentemente repetida por um “cientista” chamado a dar evidências científicas contra o aborto na Audiência Pública do Congresso sobre o tema, quando seu argumento foi impugnado como sendo a defesa dos sofrimentos das mulheres.
Muitos padres e professores de Teologia foram destituídos dos seus cargos quando criticaram o livro, ao afirmarem ser desprovido de conteúdo cristão. É o caso do professor de Teologia da Universidade de Granada, padre José Maria Castillo, que afirmou que “O Caminho conduz inevitavelmente à alienação do indivíduo e a uma cumplicidade concebida de forma doentia com o mundo, a qual Jesus rejeitava e pela qual foi rejeitado para morrer”. A primeira tarefa da Opus Dei para ampliar o seu poder político e ideológico era controlar as instituições de ensino superior. Em novembro de 1939, o ministro da Educação de Franco, Ibañez Martin, fundou o Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC), dando à “Obra” a oportunidade não só de se expandir pelas universidades espanholas, mas também em todo o mundo. O vice-presidente do Conselho foi o padre López Ortiz, um dos principais membros da Opus Dei naquela época. Este órgão era responsável pela distribuição de bolsas de estudo e subsídios financeiros para pós-graduandos e doutorados no estrangeiro. Um ano mais tarde, José Maria Escrivá passou a se chamar José Maria Escrivá de Balaguer, após fazer um pedido ao Ministério da Justiça espanhol, para distinguir-se dos demais Escrivás. No começo da década de 40, a Opus Dei colocou em marcha um amplo plano de criação de residências universitárias, beneficiando-se de uma lei de 1943 que obrigava os estudantes a pertencerem a uma residência universitária para ingressar no ensino superior. A “Obra” procurava atrair principalmente a classe média e a classe média alta universitária. Seu trabalho entre os estudantes é até hoje um dos principais métodos para arregimentar mais pessoas. Apoiada pelo governo fascista, a Opus Dei conseguiu abrir sua primeira residência universitária fora da Espanha. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a cidade portuguesa de Coimbra abrigou a primeira sede internacional da Opus Dei.
<i1>A Opus Dei e o mundo dos capitalistas
A intimidade da Opus Dei junto à Cúria Romana levou ao reconhecimento oficial da “Obra” pela Igreja em fevereiro de 1947, durante o papado de Pio XII, conhecido também como o “papa de Hitler” por ter dado o apoio da Igreja ao regime de Adolf Hitler e à sua perseguição contra os judeus. Após ser denunciado como fiel aliado de Hitler, a Santa Sé se encarregou de fazer uma contrapropaganda para salvar a imagem de Pio XII e da própria Igreja, inventando estórias infundadas de que, na verdade, o papa atuava clandestinamente para salvar milhares de judeus.
O reconhecimento da Opus Dei como uma poderosa organização dentro da Igreja foi orquestrada pelo próprio Escrivá e também por outro eminente membro da Obra, Álvaro Del Portillo, que mais tarde seria o sucessor de Escrivá, após a sua morte. Participou também destes trâmites o cardeal Giovanni Montini, futuro papa Paulo VI 1963 e 1978, e um proeminente político católico italiano, Giulio Andreotti, que já assumiu por diversas vezes o cargo de primeiro-ministro pela Democracia Cristã. Sob o reconhecimento do Vaticano, a sede matriz da Opus Dei deixa Madri e se instala em Roma, na Villa Tevere. Os trabalhos da “Obra” na Espanha continuariam em vigor com a total proteção de Franco, porém sofrendo certa oposição de seu partido, a Falange, único partido legal durante o regime fascista, que divergia sobre o monarca em exercício durante a ditadura.
A Falange seria paulatinamente reduzida, restando-lhe apenas três ministérios em julho de 1957, após uma ampla reforma na composição da burocracia. A Opus Dei estava ainda mais enraizada ao regime, apesar de negarem em nota oficial qualquer envolvimento com a política. No entanto, na reforma ministerial dos anos 60, Franco colocaria uma maioria de ministros ligados à “Obra”. Ainda na Espanha a Opus Dei conseguiu fundar com o apoio do Ministério da Educação a sua própria universidade, o Estudo Geral de Navarra, ligado à Universidade de Saragoça. Mas, se na política, a organização de Escrivá ainda prometia muitos aliados, na vida empresarial já estava em plena harmonia com os centros financeiros e com a corrupção. Em julho de 1956, o empresário Juan Vilá Reyes, fundou a companhia da indústria têxtil Maquinaria Do Norte da Espanha S.A. (Matesa). A empresa se envolveu num dos maiores escândalos financeiros do País, em julho de 1969, quando milhões de dólares desapareceram junto com dois banqueiros que foram assassinados.
Vilá Reyes pertencia desde 1958 ao Instituto de Estudos Superiores da Empresa (IESE), cujo dono é a Opus Dei. O IESE incorporou-se à Universidade de Navarra e logo mais tarde à Harvard Business School, uma das escolas de pós-graduação da Universidade Harvard com importante atividade em administração de empresas. Todas os formandos eram encaminhados por suas universidades a seguirem carreiras em empresas ligadas à Opus Dei. Um destes licenciados foi, por exemplo, Juan António Samaranch, futuro presidente do Comitê Olímpico Internacional. No caso do escândalo da Matesa, estiveram ainda envolvidos os então ministros do comércio, o numerário da Opus Dei, Alberto Ullastres; o ministro das Finanças, Juan José Espinosa San Martin, da Opus Dei; Mariano Navarro Rubio, governador do Banco da Espanha, da Opus Dei; Giscard d’Estaing ministro francês das Finanças; e o príncipe Jean de Broglie, um dos fundadores do Partido Republicano Independente.
A denúncia foi feita pelo ministro da Informação, Fraga Iribarne, um dos poucos ministros da Falange, abertamente contrário à Opus Dei. Este foi o estopim para a inclinação de Franco junto à “Obra”, abrindo as portas para o seu ingresso no governo “nacionalcatólico”, um tipo de golpe dentro do golpe, pois um novo governo foi formado em outubro de 1969, chefiado por Carrero Blanco e sustentado por nada menos que 19 ministros da Opus Dei – 10 eram numerários e nove eram cooperadores. Embora o governo tenha feito de tudo para esconder os fatos, o escândalo causou comoção nacional, resultando na criação de um inquérito para investigar o caso, que descobriu o financiamento pela Matesa à Universidade de Navarra, ao IESE e até mesmo para a campanha eleitoral do ex-presidente norte-americano Richard Nixon.
O banco Credit Andorra, adquirido em 1955 pelo Banco Popular e por uma empresa ligada à Opus Dei, a Esfina, cujo presidente, Pablo Bofill Quadras, era numerário, foi uma das principais instituições a contribuir para o milionário desvio de verbas da Matesa. O banco prestou o maior serviço às transferências ilegais de dólares que iam diretamente para a conta da Opus Dei e do IOR (Banco do Vaticano). O caso ainda teve repercussão em 1975, após a morte de Franco, quando Vilá Reyes foi condenado a três anos de prisão, mas seis meses depois o rei Juan Carlos tirou-o das grades. Já o príncipe de Broglie não teve um final tão feliz. Foi assassinado no final do mesmo ano nas ruas de Paris.
Um outro banco, o Leclerc, faliu em maio de 1977. Dias depois o diretor geral, Charles Bouchard, apareceu afogado no Lago de Genéve, apesar de ser um nadador quase profissional. A Opus Dei ascendeu rapidamente durante o fascismo de Franco e contou com todo apoio político, institucional e financeiro. O fundador Escrivá de Balaguer foi o ditador oculto desta ditadura. Sua organização se desenvolveu rapidamente fora da Espanha, tendo representações hoje em todo o mundo. Na próxima edição, nos aprofundaremos ainda mais nas relações mafiosas da Opus Dei com o governo espanhol e a Igreja, bem como na sua expansão pela América Latina durante as ditaduras militares até hoje, incluindo o Brasil.
A Opus Dei não é uma mera seita religiosa que propaga hábitos de vida medievais, mas uma força política de extrema-direita contra o movimento das massas e entrincheirada com os grandes maiores capitalistas e o imperialismo.
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