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A crise do PT na imprensa
"A imprensa capitalista é um instrumento a serviço das diferentes frações da classe capitalista e não uma voz independente"
Entrevista concedida a estudante de jornalismo da Unip, sobre o papel da imprensa na crise política
17 de novembro
de 2005
Lula chegou ao poder prometendo mudanças econômicas e sociais no país, no que parecia ser uma introdução de valores de esquerda no governo brasileiro. Mas seu governo tem se mostrado uma repetição dos governos anteriores. O PT, apesar da mudança ideológica, tem desmoralizado a esquerda brasileira, já que boa parte do povo identifica o partido com a esquerda?
Rui Costa Pimenta: Mais correto seria dizer que o PT forneceu armas para a propaganda da direita contra a esquerda em geral. No entanto, a desmoralização do PT é um fator nocivo para a esquerda revolucionária, proletária, apenas ali onde as massas estão desorganizadas, onde não há uma atividade organizada dos revolucionários, pelo motivo explicado acima. Ali onde a classe operária está organizada e onde a esquerda revolucionária atua ocorre o oposto, ou seja, a desmoralização do PT ajuda na evolução ideológica, política e organizativa dos trabalhadores para posições revolucionárias, ou seja, para posições à esquerda do PT. É o que ocorre na Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios, onde o PCO tem uma expressiva atuação. Ali a crise política e as denúncias contra o PT são usadas não só contra o PT e o PCdoB, partidos do governo, mas também contra a direita e contribuem para a luta operária contra a burguesia.
De forma geral, como você vê a cobertura da imprensa sobre a crise política?
Rui Costa Pimenta: A imprensa capitalista é um instrumento a serviço das diferentes frações da classe capitalista e não uma voz independente. A crise é distorcida e manipulada pela imprensa capitalista até o paroxismo. O que não é uma atividade informativa, mas uma enérgica intervenção na crise de acordo com os interesses imediatos e estratégicos das diversas frações da classe dominante.
As revistas semanais, em especial a Veja, têm levantado diversas denúncias baseadas apenas em declarações, praticamente toda a semana. Será que os leitores realmente acreditam nessas publicações? E você, acredita na denúncia dos milhões de Cuba?
Rui Costa Pimenta: Na medida que a informação é um monopólio da burguesia, os leitores não têm muita opção senão acreditar total ou parcialmente no que é dito pelos seus principais órgãos de imprensa. Outra coisa é a profundidade desta influência e os desdobramentos dela que não serão exatamente os que pretendem. Por exemplo, ao tentar desestabilizar o PT, esta fração da burguesia não pode evitar expor a podridão do regime burguês em sua totalidade, isto é, todos os seus partidos e instituições. O controle sobre a população é, portanto, relativo e não absoluto, porque a população, em particular a classe operária, é um fenômeno dotado de inteligência, de capacidade de tirar conclusões próprias da experiência. Quanto ao dinheiro de Cuba, não podemos saber com certeza tendo por base a matéria da Veja, mas é uma possibilidade, uma vez que Cuba já financiou movimentos políticos em vários lugares de mundo, que é um dado conhecido.
Na Argentina, a visita de George Bush causou rebuliço e protestos intensos. No Brasil, os protestos foram muito pequenos. O que acontece com a nossa população, que não tem se mobilizado em uma das mais graves crises da história do país?
Rui Costa Pimenta: A classe operária brasileira está saindo agora de um muito longo período de refluxo, ou seja, de desorganização e enfraquecimento das suas lutas devido a derrotas provocadas pela política do próprio PT. A esquerda de classe média, por outro lado, que são os setores mais ativos em geral em tais manifestações, menos ainda tem uma organização independente do PT e da sua influência política. É isto o que explica a situação.
A crise tem intensificado o desinteresse político da população, inclusive dos mais politizados, que cada vez mais preferem se preocupar mais com a própria vida, já que "a corrupção nunca vai acabar" e "nada nunca vai mudar". Qual a sua mensagem para essas pessoas?
Rui Costa Pimenta: Não creio que esta avaliação seja correta. Isso tanto do ponto de vista da assimilação subjetiva imediata da crise pela população, que é o aspecto menos importante da questão, como dos efeitos objetivos que terá sobre a ação política do povo, que é o mais decisivo. Do primeiro ponto de vista, a crise colocou o problema do poder político do país no foco de atenção de toda a população, que é o mais importante resultado. Neste sentido, não interessa esta conclusão de que “são todos corruptos”, mas o fato de que esta experiência vai iluminar e guiar a ação inevitável da população diante do agravamento da crise econômica. A maioria da população, em particular os trabalhadores, não pode escolher não agir politicamente; serão empurrados a isso pelas circunstâncias de maneira compulsória para defender as suas condições de vida, como veremos mais adiante no número de greves, que já começou a crescer este ano. Quando a população agir, o fará com completa desconfiança de todas as instituições da classe dominante, o que é um resultado direto da crise. Isso ajudará a que encontrem com maior facilidade um caminho próprio, uma política independente, de classe.
A TV Globo é sempre acusada por manipular o inconsciente coletivo. E nesta crise, qual tem sido o papel da empresa?
Rui Costa Pimenta: Gostaria de fazer uma retificação. A Globo, assim como outras empresas capitalistas de comunicação, procura manipular e distorcer a consciência que o povo tem da crise. Este é o seu papel. A classe dominante precisa dominar não só pela força e pelo seu controle econômico, mas ideológica e politicamente, caso contrário não poderia dominar. A hora que os trabalhadores se libertarem da dominação ideológica, o domínio da burguesia estará com os dias contados. Para isso, é necessário que os trabalhadores se organizem sindical e politicamente, em primeiro lugar, mas em todos os sentidos (culturalmente em sentido lato) e aprendam da experiência, ou seja, da luta contra a burguesia, a diferença insolúvel entre os seus interesses e os da burguesia.
O PCO é a favor do impeachment do Lula?
Rui Costa Pimenta: Não. O impeachment de Lula nas atuais circunstâncias significaria que Lula seria derrubado pela burguesia que o apoiou e, neste caso, estaríamos apoiando que ela dê as cartas na crise. A derrubada de Lula somente nos interessa por meio da luta dos trabalhadores e do povo.
Setores da direita costumam dizer que a esquerda não combina com democracia, citando os exemplos da Venezuela, Cuba e China, que exercem um demasiado controle da imprensa. Qual a sua opinião sobre essa afirmação?
Rui Costa Pimenta: A idéia de “Esquerda” é uma generalidade muito ampla. Chávez é um representante da burguesia nacional venezuelana, Cuba e China são dirigidos por uma burocracia antioperária com tendências sólidas no sentido da restauração capitalista. Neste sentido, não nos identificamos com eles, com seus métodos e com seu programa político. Somos uma “esquerda” também, mas, acima disso, somos um partido operário e socialista num sentido estritamente marxista. Quanto ao problema da democracia, creio que há dois ângulos na pergunta. De um lado, é puro ilusionismo dizer que qualquer esquerda é antidemocrática em comparação com a direita, ou seja, basicamente, com o imperialismo mundial. Apenas para ficar em uns poucos exemplos, Hitler e Mussolini, bem como o fascismo em geral são produtos do imperialismo; nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX, o imperialismo instalou ditaduras militares de assassinos e torturadores em praticamente todos os países do impropriamente chamado “3º mundo”, ou seja, das suas colônias diretas ou indiretas, com milhões de mortos. Fidel Castro ou Chávez e, até mesmo Stálin, são aprendizes perto destes senhores.De um ponto de vista mais profundo, a democracia burguesa (que é a única democracia que existe de fato) é apenas uma forma de funcionamento da ditadura de classe da burguesia, mesmo nos países mais civilizados e democráticos do imperialismo. Quando são atacados ou encontram uma resistência aos seus propósitos tratam de suprimir as formalidades da democracia para preservar os seus interesses fundamentais, como ocorreu nos EUA após o 11 de setembro, com as chamadas “leis patrióticas” (patriotic acts). Mesmo quando a democracia vigora, a classe operária, ou seja, a maioria da sociedade está submetida a uma implacável ditadura e não tem qualquer poder de decisão sobre as instituições do Estado.
A produção industrial tem desacelerado e o comércio fala em um Natal decepcionante. Ao mesmo tempo, o Bradesco acaba de obter o maior lucro da história dos bancos brasileiros. Afinal, a crise afeta a economia?
Rui Costa Pimenta: A crise é um produto da economia, uma vez que reflete as lutas internas entre setores distintos da burguesia sobre a orientação do governo e do Estado burguês para a economia, em particular o problema do superávit primário e da dívida externa e suas conseqüências (juros, retração monetária etc.) e entre o conjunto da burguesia e a classe operária e as massas. A crise, surgida da economia, debilita a capacidade de arbitragem da burguesia e cria as condições para um agravamento da crise econômica que está fracamente contida pela política do governo. A sua manifestação deverá se dar por mudanças forçadas na política econômica e, finalmente, pelas greves que colocarão abaixo a disciplina monetária e orçamentária instituída nos últimos 15 anos.
A grande imprensa pouco fala da ligação de Marcos Valério com o PSDB mineiro e muito menos lembra os seus leitores dos notórios e escandalosos casos de corrupção durante o governo de FHC. O que acontece?
Rui Costa Pimenta: A burguesia precisa sempre ter alternativas para o funcionamento do regime político. Antes da crise propunham um bi-partidarismo PT-PSDB, que já na época dizíamos que era uma ilusão. Agora, estão tentando salvar pelo menos um partido e buscando criar um outro de esquerda, que é o P-Sol, para poder controlar a situação. Há um acordo entre todos os atores da crise para não colocar abaixo todas as opções do regime, porque assim perderiam todos. No entanto, uma coisa é a intenção de cumprir um acordo, outra são opções reais que vão se colocar não apenas para os indivíduos (José Dirceu), seus grupos e os partidos, mas para a própria classe capitalista. A tendência geral é a de que, apesar da tentativa de salvar Lula, por um lado, e o PSDB, por outro (todos estão profundamente envolvidos na crise) a margem de manobra é limitada.
Gostaria de saber como você se informa sobre a crise, tendo em vista a padronização e a falta de qualidade do noticiário geral.
Rui Costa Pimenta: A informação deve ser variada e analisada de forma extremamente crítica porque o principal trabalho da imprensa é o de confundir e apresentar interpretações puramente interessadas para a crise. No entanto, o problema central não é apenas ou principalmente a informação, mas a análise das características centrais da situação econômica e política. Os atores e os acontecimentos estão limitados e condicionados por dados decisivos da situação geral, não agem a seu bel-prazer. O conhecimento das relações políticas, dos programas, das relações entre partidos e classes é o elemento fundamental na interpretação da crise que não pode ser feita de modo nenhum sem uma teoria geral da situação do país (do capitalismo, do país, da sua história geral e recente) e da experiência internacional da luta de classes. |