Discriminação racial
O negro na imprensa burguesa

Diretamente ligado à imagem de escravos, empregados de baixa remuneração e associados ao crime nos jornais, a burguesia visa conscientemente inferiorizar o negro através de sua imprensa e ao mesmo tempo tenta apagar a importância da cultura negra com sua falsa democracia para inviabilizar a autodeterminação e a emancipação da população negra

17 de junho de 2004

A imagem do negro transmitida pela imprensa burguesa é nitidamente caracterizada pela negação e segregação a que o negro é submetido. A imprensa burguesa só visa ocultar o fato de que o negro é fundamental para o desenvolvimento econômico do País e alimenta o preconceito e a discriminação racial que atinge a vida diária do negro. A escassa parcela de profissionais negros na imprensa burguesa demonstra como o negro é ignorado ao máximo com o intuito da imprensa defender os interesses da burguesia, como o de manter os salários de fome que não correspondem ao mínimo necessário que a população precisa para a sua subsistência.
Em novembro de 2002, o Jornal Nacional, transmitido pela Rede Globo de Televisão e assistido diariamente por 40 milhões de telespectadores, teve pela primeira vez um apresentador negro. Na época, o repórter negro era apresentado aos poucos para o público, fato que rendeu várias notícias sobre o assunto.
A Rede Globo é o canal onde se concentra o maior número de repórteres negros, no entanto esse número não chega nem a dez. A imagem do negro como inferior na sociedade pode ser vista diariamente nas novelas onde, por exemplo, o negro normalmente tem um papel representando escravos, malandros ou bandidos, profissionais de baixa remuneração como empregadas domésticas e motoristas sempre estão submetidos aos seus patrões brancos.
O número de profissionais negros que trabalham na televisão brasileira não passa de 10%, o que revela uma porcentagem inferior até mesmo a da televisão dinamarquesa cuja etnia é formada, predominantemente, por arianos e nórdicos, ou seja, o Brasil sendo o segundo País (perdendo apenas para a Nigéria) com a maior concentração negra no mundo possui menos profissionais negros na televisão do que um país onde a esmagadora maioria da população é formada por pessoas loiras e de olhos azuis. Esta informação só vem a revelar a falsa democracia da classe dominante ao dizer que o negro tem seu espaço e ao mesmo tempo ter um número tão inferior em relação aos profissionais brancos.
Não é só no meio televisivo que há uma parcela baixa de profissionais negros na mídia. A Comissão de Jornalistas pela Igualdade (Cojira) do sindicato dos Jornalistas, aponta que a taxa de desemprego entre os negros é de 40% maior do que os brancos e que reflete na taxa de desemprego entre jornalistas negros.
A baixa participação dos negros na imprensa, tanto profissionalmente como em matéria de divulgação do negro e da sua cultura é propositalmente impulsionado pela burguesia, proprietária exclusiva dos meios de comunicação. O capitalismo, por ser um sistema de exploração não pôde cumprir a tarefa da emancipação da mulher e do negro, pelo contrário, sempre procurou impedir que estes ultrapassassem a condição de cidadãos de segunda classe na qual estão colocados, pois justamente se utiliza dessa condição para uma maior exploração de sua força de trabalho, veja-se a diferença entre o salário do negro com o do branco, além do desemprego ser maior entre os negros, nível de escolaridade ser mais baixo, de apenas 1% dos estudantes universitários ser constituído por negros etc.
Um destaque do negro e valorização de sua cultura por meio da imprensa burguesa que é um poderoso meio de divulgação de idéias poderia constituir uma possível alavanca para a emancipação do negro na sociedade.

Imprensa negra

Com a falta de espaço por parte da “imprensa branca”, o negro foi obrigado a criar sua imprensa alternativa. O primeiro jornal feito por negros e direcionado para negros foi fundado por um grupo de paulistas em 1915, chamado de O Menelick conseguindo grande prestígio da comunidade negra. Em 1924, uma série de publicações periódicas mais reivindicativas foram surgindo, como o Clarim da Alvorada. Neste período surge a Frente Negra Brasileira, que publica A Voz da Raça entre os anos de 1933 a 1937 até a ser fechada pela ditadura de Getúlio Vargas. Nesta época, a reivindicação da questão racial era vista como antipatriotismo e que por conseqüência refletiu na imprensa. Somente em 1945, com a queda de Getúlio, o jornal Alvorada retoma a questão da autodeterminação negra. Este jornal seguiu com suas atividades até 1963, quando é definitivamente fechado por causa da ditadura militar.
Do lado da “imprensa branca”, na década de 30, o negro era ainda visto de modo a legitimar a escravidão dando foco a negros foragidos, quando ainda eram vendidos ou então quando cometiam algum tipo de crime.
Com a ditadura militar e a censura da imprensa nas décadas de 60 e 70, as questões raciais eram praticamente raras de serem publicadas, pois mostrar na grande imprensa o problema do negro era afirmar que esses problemas existiam.
No final da década de 70, várias publicações foram lançadas por toda parte e impulsionaram o Movimento Unificado contra a Discriminação Racial (MUCDR), que foi a união de vários grupos de militância negra fundada em 1978, hoje como Movimento Negro Unificado (MNU).
A cultura negra é parte integrante fundamental na história do Brasil e do mundo. Os inúmeros movimentos e as entidades voltadas para a questão negra são frutos da consciência de que a população negra é classificada como segunda classe pela burguesia e que a organização do negro independentemente da classe dominante é vital para a sua emancipação.
O espaço que o negro tem hoje na imprensa burguesa é um reflexo da situação que vem desde a sua escravidão. Com a abolição, os negros foram jogados fora do mercado de trabalho e passaram de escravos para desempregados, tornando-se depois majoritariamente integrantes da classe operária. A população negra, como setor oprimido da sociedade, deve combater e lutar permanentemente pela sua emancipação, pela conquista de direitos básicos que deveria ter vindo com a revolução burguesa, com base em um programa específico que atenda às suas necessidades e em união com a classe operária, única classe nesse estágio do capitalismo capaz de levar a frente as reivindicações democráticas dos setores oprimidos da sociedade.