Clóvis Moura
Morreu no dia 23 de dezembro Clóvis Moura

Nas vésperas das festas de fim de ano, morreu o jornalista, historiador e sociólogo Clóvis Moura que dedicou sua obra na defesa do conhecimento da história e da luta dos negros no Brasil

24 de fevereiro de 2004

Clóvis Moura foi um dos mais importantes intelectuais negros deste país e um dos pioneiros dos estudos sobre as lutas do negro brasileiro. Historiador, sociólogo e jornalista, Clovis Moura morreu no dia 23 de dezembro, deixando um conjunto de obras sobre a questão do negro, principalmente de sua história da escravidão, opressão e luta contra ela. Como a maioria dos negros que conseguem romper a barreira racial, assim como o poeta negro Paulo Colina, morto em 1999, a morte de um dos maiores intelectuais negros do Brasil passou no maior silêncio possível e só não foi silêncio total porque não é possível para ignorar sua obra, composta por títulos como Rebeliões da Senzala, O negro: do bom escravo a mau cidadão?, Dialética radical do Brasil negro, Os quilombos na dinâmica social do Brasil, Sociologia do negro brasileiro, História do negro brasileiro, Quilombos - resistência ao escravismo, Os quilombos e a rebelião negra, entre outros.
Aos 77 anos o historiador sofria de câncer na traquéia e passou por várias internações desde uma operação feita no início do ano passado. Morreu na mais completa miséria como a maioria dos negros e principalmente aqueles que lutam contra a opressão racial. Morreu devendo para poder pagar os gastos com sua saúde, o que é mais uma retribuição da sociedade capitalista racista àquele dedicou sua vida para dar uma contribuição à história e a própria identidade social do País.
Sua obra expressa sua luta para compreender o problema da escravidão e quais suas conseqüências para os negros hoje. Aborda também a luta dos negros nos quilombos e nas senzalas.
Em 1959, publicou Rebeliões da Senzala, sua principal obra, livro que procurou, pela primeira vez, estabelecer a relação entre o desenvolvimento econômico, a luta de classes e o problema da escravidão, ou seja, foi a primeira tentativa de postular o problema do negro no Brasil de um ponto de vista materialista. O livro pretende mostrar que a escravidão no Brasil não foi encarada pelos negros de forma pacífica, ou seja, resignados pela sua condição de povo escravizado, mas correspondeu à uma luta por parte dos escravos pela sua libertação.
A obra de Clóvis Moura é uma contribuição à análise crítica da própria ideologia modernista como a vemos em um Gilberto Freire ou um Sérgio Buarque. Os intelectuais burgueses nacionalistas que seguem a tradição de 1922 buscaram integrar o negro na perspectiva da nova etapa nacional, que teria sua expressão máxima na Revolução de 30. Para a burguesia que buscava substituir a República Velha por um novo regime apoiado na burguesia industrial, a unidade do povo brasileiro aparecia como a condição para alcançar este objetivo. Nesta tentativa, procuraram apresentar a história do negro de maneira, em grande medida, idílica, aparando as arestas das grandes lutas sociais e da contradições entre o branco e o negro, o que resultou em umadeformação da verdadeira história do negro. Aos intelectuais de 22 coube como realização apresentar o negro de forma positiva, não apenas como explorado e oprimido, mas também como parte da cultura nacional. A obra de Clóvis Moura e de seus contemporâneos como Édson Carneiro e Arthur Ramos viria abrir caminho para uma nova concepção da história do negro brasileiro.
Em outro livro seu As injustiças de Clio, procura analisar como a historiografia brasileira viu a questão do negro. Trata-se de um livro que continua seu objetivo de trazer à tona as diversas maneiras em que a questão do negro é retratada na historiografia brasileira. Nesta obra não só estuda a questão do negro, mas que por ser negro conhece melhor do que ninguém os problemas que estão em volta do problema negro; mais que isso de que maneira a história do negro é contada ou oculta.
Como teórico de esquerda e como negro, Clovis Moura tem uma grande importância para a cultura nacional, uma vez que desenvolveu a análise de uma questão que é, ao mesmo tempo, fundamental para a compreensão da formação social brasileira e da sua atual etapa de evolução e faz parte de uma biblografia escassíssima.
Se houvesse vida inteligente na universidade brasileira, sua obra deveria ser obrigatória em todos os cursos de história e literatura do Brasil, inclusive nos cursos médios.
O valor da obra de Clóvis Moura está relacionado também com o fato de que este intelectual foi antes de tudo um militante da causa dos negros e dos trabalhadores. Como grande parte dos militantes negros mais esclarecidos da sua geração militou no PCB cujo stalinismo ficava secundarizado pelo fato de ser uma das poucas organizações a dar alguma atenção ao problema do negro.
Na década de 70, no marco da luta contra a ditadura, já rompido com o PCB dá uma contribuição decisiva para a construção do Movimento Negro Unificado (MNU) cujo programa escreve.
A obra de Clóvis Moura deve ser estudada e criticada pelas novas gerações de teóricos revolucionários como parte fundamental da elaboração do programa do negro no Brasil.