|
A
questão do negro
Os dilemas da negritude
Publicamos
aqui texto do historiador e militante negro, com uma interessante registro
e análise da questão da chamada "negritude"
por
Clóvis Moura
28
de fevereiro de 2004
A reunião
realizada em Dakar no mês de janeiro - entre os dias 7 a 14 de 1974
- "Negritude e América Latina" de qual participamos,
veio mostrar a existência de uma série de incompreensões
que devem ser analisadas para que possam ser devidamente esclarecidas.
Trata-se do próprio conceito de Negritude, da sua validade como
categoria científica no quadro das Ciências Sociais.
Pelas posições assumidas por alguns participantes daquele
colóquio - especialmente os professores German de Granda, da Espanha
e Renê Ribeiro, do Brasil - nota-se que alguns dos seus participantes
não têm, ainda, uma posição existencial dinâmica
baseada na negritude; mas, pelo contrário, confundem o termo com
um possível estereótipo que caberia ser elucidado e desmascarado
cientificamente por eles, usando categorias científicas capazes
de desmistificá-lo. Em outras palavras: estavam à direita
da negritude.
Procurando ver a negritude apenas como uma atitude dos negros face ao
mundo dos brancos, tentaram, por isto mesmo, fazer uma análise
que nos levaria a uma posição metodologicamente equivocada;
pois a veríamos apenas como um conceito para ser estudado, nunca
uma ideologia para ser vivida e aplicada. Ou seja, procuraram analisar
a negritude de fora para dentro, etnocentricamente, sem verem até
que ponto isto vem demonstrar a sua incompreensão sobre o que lhe
é mais relevante, isto é a sua práxis - certa ou
equivocada, não importa, a possibilidade de ser usada como instrumento
de conhecimento e ação no processo de transformação
de uma realidade problemática. Porque, se a negritude é
apenas uma atitude psicológica de revolta inconsciente e vaga de
negros intelectuais frustrados no mundo dos brancos, então não
tem nenhuma validade científica perdendo-se entre as milhares de
vozes sem eco no imenso deserto do protesto social não conscientizado.
Mas, se a negritude (ou qualquer outro nome que a designe) é a
generalização das contradições criadas em
uma sociedade opressiva e se ela exterioriza - em termos de conscientização
- exatamente o lado mais irracional dessas contradições,
então é um instrumento de conhecimento válido e partir
daquele conceito de Hans Freyer, segundo o qual só sabe algo sociologicamente
quem quer algo socialmente. Isto é: a negritude como método
de observação participante, repre-senta a unidade entre
a teoria e a prática no sentido de desalienar não apenas
as populações negras, mas todos aqueles estratos populacionais
que, de uma maneira ou de outra, se sentem oprimidos e/ou marginalizados
pelo sistema dominante em qualquer parte.
Por isto mesmo (em que pese a opinião de certos cientistas sociais
acadêmicos presentes) o colóquio de Dakar não foi
uma reunião sobre o negro, como pretendem alguns. mas sobre o conceito
polêmico de negritude relacionado com determinada área geográfica:
a América Latina. Isto porém não foi compreendido
por alguns (felizmente minoria), que desejavam um encontro "higienizado",
segundo a expressão de Nicomedes Santa Cruz, do Peru, que teve
oportunidade, no plenário, de travar; várias vezes, debates
sobre o assunto. Queriam o negro como objeto de estudo sociológico
ou antropológico para enriquecimento dos seus conhecimentos acadêmicos.
Ora, quem tem informação - pelo menos superficial - da bibliografia
antropológica e sociológica das áreas acadêmicas,
sabe muito bem como esses sábios se aproveitam do problema do negro
para teses de doutoramento, como se estivessem fazendo pesquisas com a
Drósofila Melanogaster.
Por outro lado, as origens da aristocratização da própria
negritude não são de hoje. Prendem-se, historicamente, aos
próprios motivos que a fizeram nascer, num determinado momento
em um determinado lugar. Como todos nós sabemos, a negritude nasceu
, de um protesto intelectual de negros de formação cultural
européia. Tomando conhecimento da diferença de tratamento
e da inferiorização que os europeus impunham à sua
"raça", escritores como Aimé Césaire, L.
Sédar Senghor, Leon Gontran Damas e outros, aproveitando-se, inclusive,
de ritmos poéticos brancos (Césaire aderiu ao surrealismo)
iniciaram o movimento chamado Negritude o qual, em última instância,
era um movimento europeu. Foi, aliás Aimé Césaire
quem no seu Cahier d'un retour au pays natal, em 1939 empregou pela primeira
vez a palavra negritude. Para ele significava "o simples reconhecimento
do fato de ser negro e a aceitação deste fato de nosso destino",
enquanto para Senghor significava "a soma total dos valores africanos".
O marco inicial mais significativo da negritude como movimento literário
foi a publicação da revista Légitime Défense
em Paris, em 1932. A iniciativa foi. de um grupo de estudantes antillhanos
liderado por Etienne Lero, René Ménil, Jules Monnerot e
outras. A vida da publicação foi efêmera: circulou
apenas o seu primeiro número. A razão do fracasso foi a
série de pressões que o grupo sofreu, inclusive dos seus
conterrâneos conservadores. Mas, a iniciativa deixou a sua influência
e em 1934 outro grupo fundou o jornal L'Edudient Noir. Esse grupo contava
com os nomes que depois seriam famosos como Aimé Césaire,
o guianense Léon Gontram Damas e Senghor. Outros que pertenceram
ao grupo e que hoje são famosos: Ousmane Socé, Birago Diop,
Leonard Sainville e Aristide Maugé. O jornal era definido como
"um jornal corporativo e de combate, tendo por objetivo o fim da
tribalização, do sistema de clãs em vigor no bairro
latino. Cessamos de ser um estudante martinicano, guadalupeano, guianense,
africano, malgache para sermos um único e mesmo estudante negro".
Senghor, analisando o conteúdo desse jornal, escrevia que várias
tendências ali se expressavam: "Césaire conduzia a luta,
antes de tudo contra a assimilação dos antilhanos. De minha
parte eu visava, sobretudo, analisar e exaltar os valores tradicionais
da África Negra".
Se, inicialmente, a negritude foi combatida pela ala mais conservadora
dos negros, passou, depois, a ser combatida pela sua ala mais radical.
O nigeriano Wole Soyinka dizia sobre o movimento que "o tigre não
precisa proclamar a sua tigritude".
Historicamente isto correspondia ao grau de conscientização
que essas elites intelectuais negras tinham da sua problemática,
ainda que embrionariamente, sem um horizonte projetivo definido. Esses
intelectuais transformaram-se, assim, de um lado em camada consciente
da opressão que sofriam como negros letrados, mas, ao mesmo tempo,
não incorporavam o seu protesto estético ao protesto social
e político passivo e muitas vezes ativo de milhões de negros
africanos os quais, sob as condições do colonialismo, sobreviviam
explorados na África Negra.
Alguns souberam posteriormente sincronizar o seu protesto estético
(a negritude nos seus primórdios foi um movimento de reivindicação
estética) a uma práxis política, como é o
caso de Senghor, ex-presidente da República do Senegal, embora
o seu exemplo possa ser muito bem apresentado como o exemplo de uma frustração
e de um equivoco.
Da negritude de Senghor à estratégia do neocolonialismo
na África a diferença é mínima.
Mas, de um modo geral, essa fase da negritude foi se dissolvendo em facções
que se digladiavam ou se friccionavam, sem encontrarem uma norma de ação
africana plebéia para dar-lhe continuidade em termos globais.
Isto levou a que muitos intelectuais negros que surgiram posteriormente
assumissem uma posição radicalmente negativa frente à
negritude tradicional, como, por exemplo, o caso do notável sociólogo
do Daomé Stanislas Adotevi que afirma ser a negritude a "forma
branca de se ser negro"(1).
Mas, com os movimentos de libertação das nações
africanas, a participação dessas nações no
conjunto das forças do Terceiro Mundo, o conceito de negritude
adquiriu um novo combustível dialético.
Vindo do movimento chamado da Sorbonne, a primeira manifestação
da negritude no Brasil, colocou em discussão os mesmos princípios
a que nos referi-mos, fazendo com que, sem maior processo de filtragem,
os negros que desejavam uma ideologia desalienadora assimilassem a negritude
como nos foi injetada inicialmente da Europa. Mas, enquanto para os africanos,
em conseqüência do processo da luta dos seus povos contra o
colonialismo, o conceito de negritude teve de se descongelar e adquirir
novos contornos ou ser mesmo negado, no Brasil não havendo tal
motivo polarizador (a práxis política) a negritude ficou
praticamente estagnada naquelas categorias aristocratizantes que a originaram
na Europa e era praticada por uma elite negra.
É verdade que vários movimentos negros se organizaram, levantando
reivindicações de forma independente. Embora sem terem conscientemente
ligações com os grupos europeus da negritude, com eles coincidiam
no nível de desejarem romper com uma série de barreiras
que marginalizavam o negro brasileiro.
Com o advento do Estado Novo, em 1937, muitos desses grupos tiveram de
se dissolver. Uns voluntariamente. Outros compulsoria-mente, como é
o caso da Frente Negra Brasileira. Ficaram apenas algumas organizações
recreativas, exatamente aquelas que tinham uma parcela bem menor de consciência
dos problemas dos negros (consciência étnica), especialmente
em São Paulo. Somente com o chamado movimento de redemocratização
do Brasil, advindo em 1946, foi que os negros voltaram a se reagrupar
em nível não mais de simples comunidades recreativas ou
religiosas.
Mas, muitos desses movimentos surgiram aproveitando-se não da experiência
dos duros e ásperos tempos do Estado Novo, mas dos modelos europeus
que, a esta altura, já estavam superados, e, inclusive, abandonados
por muitos dos seus iniciadores no Velho Mundo.
É nesta conjuntura que surge, em 1944, o Teatro Experimental do
Negro, liderado por Abdias do Nascimento. Era, de fato, um conjunto que
apresentava a negritude de forma consciente, desejando, através
dessa ideologia, organizar os negros no Brasil. O movimento editou ainda
o jornal Quilombo no qual o pensamento e a proposta do TEN se expressavam.
Mas, o que esse grupo apresentava à grande comunidade negra marginalizada
nas favelas, nas fazendas de cacau e de algodão, nas usinas de
açúcar, nos alagados e nos pardieiros das grandes cidades?
Nada.
Isto levou a que a negritude dessa fase, apesar dos protestos de grupos
negros isolados, como o de Solano Trindade, que lutou até a morte
para dar uma conotação popular e revolucionária à
negritude, o certo é que a sua aristocratização e
intelectualização se desenvolveram de modo inequívoco.
O grupo do Teatro Experimental do Negro que organizou o Instituto Nacional
do Negro, procurou imprimir às suas atividades um cunho de elite
intelectual negra. Segundo um dos seus teóricos, o sociólogo
Guerreiro Ramos, o movimento objetivava a "de pelo teatro adestrar
homens de cor nos estilos de comportamento de classe média superior"(2).
Acreditava, assim, o senhor Guerreiro Ramos que, através de simples
catarse poderia resolver o problema do negro no Brasil. "A tese social
do TEN - escreve ele - pode ser chamada de grupoterapia". Ainda analisando
as reuniões da Conferência Nacional do Negro, realizada em
1949, dizia Guerreiro Ramos, considerando o comportamento de um dos seus
participantes: "Outro orador afirma que a finalidade da Conferência
deveria ser protestar contra o preconceito de cor e pergunta à
mesa se esta não entende assim. Responde um membro da mesa que
não: que a conferência tinha um sentido positivo e considerava
secundária a questão do preconceito de cor"(3).
Prova desta posição elitista em relação ao
conjunto da população negra, é uma afirmação
de Abdias do Nascimento na Conferência. Dizia ele: "A mentalidade
de nossa população de cor é ainda pré-letrada
e pré-lógica. As técnicas sociais letradas ou lógicas,
os conceitos, as idéias não a atingem"(4).
Neste plano de enfoque do problema do negro, isto é, dentro da
ótica de uma intelectualidade negra pequeno-burguesa que usava
a negritude como fronteira ideológica para separá-la da
grande massa marginalizada das favelas, dos mocambos do Nordeste, dos
cortiços e de outros locais e áreas onde se concentra a
população e a problemática do negro no Brasil (considerado
pré-letrado e pré-lógico), este comportamento intelectualizado
e elitista da negritude levou a que ela fosse se desgastando. Desgastando-se
paulatinamente, à medida que esses grandes contingentes populacionais
marginalizados procuravam um conjunto de idéias no qual se pudessem
apoiar para explicar a situação em que se encontram e visualizar
a possi- bilidade de transformá-la. Nisto a negritude aristocrática
falhou. Falhou lamentavelmente. Os seus antigos líderes no Brasil,
atualmente procuram apenas atenuar as tensões que derivam da polarização
da riqueza e poder na área branca, e de pobreza e subordinação
na área de negros e pardos.
Tanto isto é verdade que, de uns tempos para cá, toda a
simbologia que era afirmação da etnia negra, e, portanto,
de uma negritude subjacente mas sensível, está sendo substituída
por outra. Luís Gama deixou de ser o grande símbolo admirado
nas festas de 13 de maio em São Paulo. Foi substituído pelo
símbolo passivo e masoquista da Mãe Preta. Desta forma,
tudo aquilo que representava uma posição afirmativa, um
símbolo de virilidade e dinamismo social foi, ou está sendo
substituído por símbolos que espelham os negros e os seus
descendentes como meros objetos de trabalho e que somente devem ser glorificados
como e enquanto objetos.
Felizmente, nota-se na juventude negra atual uma vontade de reencontrar
a dignidade negra que se conjugará à dignidade de todos
aqueles que criaram a riqueza nacional, porém que, por uma série
de razões, atualmente estão marginalizados.
Por tudo isto, o colóquio de Dakar serviu para que, dentro de um
contexto novo, a negritude fosse colocada como uma ideologia dinâmica,
filha das contradições de uma sociedade que possui, ainda,
enormes faixas populacionais marginalizadas, no plano do desemprego e
do subemprego. Desta forma, delimitou- se a sua função numa
área do Terceiro Mundo - a América Latina - como um conjunto
de idéias polarizadoras e dinamizadoras, capazes de fazer com que
aquelas populações que estão e se sentem frustradas
na sua poten- cialidade de produção e aquelas áreas
ou nações que também se sentem oprimidas por injunções
que inde- pendem das suas forças internas, possam compreender os
mecanismos que as frustram e oprimem.
Neste particular foi muito claro o discurso de encerramento proferido
pelo Sr. Alione Sene, ministro da Educação do Senegal, no
conclave de Dakar. Com veemência e muita objetividade traçou
as coordenadas do que ele chama de negritude no atual estágio de
desenvolvimento do mundo e a sua função cultural e política.
É uma peça que reformula, a partir de uma visão realista
e operacional da negritude a sua função, especialmente na
América Latina e em toda a área do chamado Terceiro Mundo.
Para ele, cabe, através da negritude a criação de
um Mundo Novo, de um americano do Sul novo e de um negro novo. Isto irá
formar a civilização do Universal. Neste processo de transformação
a negritude desempenhará, como etapa de pensamento, o mesmo papel
que os filósofos do século das Luzes, precursores da revolução
de 1789 desempenharam, porque expressa uma vontade de libertação
política e de desenvolvimento econômico e cultural.
Depois de mostrar as afinidades culturais entre os dois continentes, África
e América, bem como a participação dos negros nos
movimentos de emancipação do nosso continente, preconiza
a necessidade de um diálogo verdadeiro entre a América Latina
e a África, a fim de desenvolver, no seio do Terceiro Mundo, condições
de solidariedade política, econômica e cultural concretas.
Isto porque - segundo ele - o imperialismo é um todo indivisível
e os negros, como os latino-americanos, têm sentido as suas marcas
profundas.
O ministro Alione Sene terminou a sua alocução afirmando
que uma nova economia está em vias de se instaurar, fato que trará
à humanidade a esperança de um novo equilíbrio entre
todos os povos nos planos políticos, econômico e cultural(5).
Conforme podemos ver, pelo pequeno resumo que fizemos do seu discurso,
a negritude reformulada indica uma nova etapa no seu significado, deixando
de ser apenas um protesto adstrito a grupos intelectualizados para abarcar,
no seu contexto, a significação de toda uma problemática
de contestação. O que significaria, em última instância,
a negação da negação hegeliana, ou seja a
negritude será transformada no seu oposto: na sua negação
dialética.
Notas
1
Adotevi, Stanislas: - Negritude et Negrologues, Ed. Union Générale
d'éditions, Paris, 1972, p. 207.
2 Ramos, Guerreiro: - Uma Experiência
de Grupoterapia, in Relações de Raças no Brasil,
Ed. Quilombo, Rio de Janeiro, 1950, p. 23.
3 Ramos, Guerreiro, Op. cit. p. 25.
4 Nascimento, Abdias do; Espirito e Fisionomia
do Teatro Experimental do Negro, Loc. cit. p. 10. No mesmo local diz ainda
Abdias do Nascimento: "Não é com elucubrações
de gabinete que atingiremos e organizaremos esta massa, mas captando e
sublimando a sua profunda vivência ingênua, o que exige a
aliança de uma certa intuição morfológica
com o senso sociológico. Com estas palavras desejo assinalar que
o Teatro Experimental do Negro não é, nem uma sociedade
política, nem simplesmente ume associação artística,
mas um experimento psicossociológico tendo em vista adestrar gradativamente
a gente negra nos estilos de comportamento da classe média superior
da sociedade brasileira. (...) Temos conseguido tudo sem agressividade.
Por exemplo: levar domésticas e operários humildes para
o palco do teatro de maior responsabilidade do Brasil: o Municipal; reunir
em nossas festas e atos sociais diplomatas de várias embaixadas,
a melhor sociedade do Rio. Todas esses têm sido ocasiões
estimuladoras do desenvolvimento da personalidade, ensejadas pelo T.E.N.
a negros e mulatos. E, ainda com absoluto sucesso, promovemos a valorização
social da mulata e da negra através de concursos anuais da 'Rainha
das Mulatas' e da 'Boneca de Pixe', realizando, assim, um programa de
formação do gosto estético popular e de exaltação
dos valores genuínos da civilização brasileira".
5 Sene, Alione: "Allocution Prononcee
par monsieur Allione Sene, ministre de la Cultura a L'occasion de la Cloture
du Colloque "Negritude et Amerique Latine", (mimeografado).
|