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Indenização
Descendentes de escravos processam seguradoras que lucraram com o tráfico negreiro
No dia 31 de janeiro de 1865 foi decretada a abolição da escravatura nos EUA. Após esta data, os negros ficaram sob uma condição de total segregação racial permanecendo nestas condições até os dias de hoje
25 de junho de 2004
Um grupo de dez norte-americanos de Nova York descendentes de escravos estão processando a mais antiga e histórica seguradora britânica Lloyd`s por terem financiado navios negreiros um pouco antes da abolição dos escravos no ano de 1865.
A indenização pedida pelo grupo é de, no mínimo, US$ 2 bilhões de dólares e a seguradora mais antiga da Inglaterra não é a única que está sendo processada.
Outras duas grandes empresas também estão sendo acusadas por financiamento de transações e compra de escravos, o Grupo FleetBoston e a Companhia de Tabaco RJ Reynolds, respectivamente.
Outra acusação feita contra as três empresas pelo grupo é a de terem sido cúmplices de genocídio, acusando a todas de participarem de alguma forma para a destruição de comunidades, línguas e cultura negras na África há dois séculos. Para esta indenização estar com causa ganha, o grupo contratou o famoso advogado Ed Fagan. Ele foi o mesmo advogado que conseguiu uma indenização de US$ 1,25 bilhão de dólares de bancos suíços que na época do holocausto receberam bens confiscados dos judeus que foram mortos. Uma outra causa que Fagan defende são processos contra empresas sul-africanas que apoiaram o apartheid.
Na época da escravidão, os navios negreiros transportavam negros de diversos países como Serra Leoa, Niger e Gana, do qual os dez norte-americanos são descendentes.
Como provas do processo, foram catalogadas e organizadas uma enorme quantia de documentos que comprovam o registro de um seguro realizado para um dos navios. Além destes documentos, testes de DNA estão para definir de qual região africana cada um dos dez membros do grupo teve origem.
A Lloyd`s é a mais antiga seguradora em atividade no mundo e foi ela quem financiou navios negreiros na época da escravidão nos EUA que imigraram negros de várias regiões da África. A empresa não quis fazer nenhum tipo de declaração sobre o processo, mas confirmou que já houve no passado processos semelhantes, porém não foram aceitos pelos tribunais.
A Lloyd`s não é a primeira empresa de seguros a ser acusada por compactuar com a escravidão dos negros. Uma outra seguradora também processada por financiar navios negreiros é a norte-americana Aetna. Existe um documento datado de 1853, em nome de uma mulher chamada Mary Raby, de Nova Orleans, onde constava um pagamento de US$ 17,25 dólares por um seguro anual, afirmando que ela receberia um pagamento de US$ 600 dólares caso um escravo negro morresse. Esta mesma empresa chegou a se desculpar por terem participado do financiamento da escravidão nos EUA e não foi condenada. O juiz acabou indeferindo a causa por entender que a escravidão do passado não tem conseqüências no presente.
No ano de 1850, no mínimo 12 milhões de escravos africanos foram levados para trabalhos forçados para a América do Norte, Caribe e América Latina e 20% deste número teria morrido durante a viagem pelo oceano Atlântico.
Em 1871, o navio Zong, por exemplo, que levava os negros da África para a Jamaica, jogou ao mar mais de 130 escravos por falta de água e comida no navio sob autorização do comandante da embarcação. Isso era feito baseado em uma das cláusulas do contrato da seguradora do navio que dizia ressarcir a morte de um escravo somente por afogamento e não por mortes de causas naturais.
Logo após a abolição da escravidão, os senhores brancos proprietários das terras expulsaram os negros de suas propriedades substituindo-os por imigrantes europeus.
Sem recursos, sem lugar para morar, sem educação alguma, sem trabalho e com o Império nada mais fazendo do que apenas dizer que os escravos estão livres, não fica difícil imaginar em que situação ficaram os negros, que até hoje encontram, além do preconceito racial, a herança da escravidão que reflete da falta de espaço para a população negra.
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