| Cultura
A opressão do negro passa pela destruição da sua cultura
Situação de museu sobre negros ilustra segregação social
27 de agosto de 2004
O museu do negro, localizado no interior da Igreja Nossa Senhora do Rosário em São Benedito dos Homens Pretos, está se extinguindo aos poucos. O museu passa por diversos problemas estruturais, como problemas de infiltração, revelando o péssimo estado de conservação das instalações.
A construção foi realizada em 1937 e fundada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e devido a grande quantidade de vazamentos no teto, as pinturas nas paredes se danificaram comprometendo todo o acervo.
A museóloga Juracy Arruda Caetano da Silva, afirmou que há mais de cinco anos as paredes estão infiltradas. Quando chove, aparecem diversas goteiras pelo museu, sendo necessário afastar as peças mais importantes dos locais atingidos.
Há um rico acervo no museu do negro, com cerca de cinco mil peças, dentre elas documentos originais sobre a venda de escravos e instrumentos de tortura usados nas senzalas.
O museu do negro é constituído por várias galerias que expõem suas peças permanentemente além de salas para pesquisa, com informações bibliográficas sobre a cultura afro-brasileira.
Documentos originais, datados de 1848, tratando da compra de uma escrava, é uma das coisas mais raras e mais procuradas no museu.
“Os escravos alforriados traziam os grilhões e outros objetos de tortura para igreja. Assim nasceu o Museu do Negro”, explica Juracy.
Segundo o Iphan, há um acompanhamento minucioso dos problemas que o templo histórico passa e que foi encaminhado um projeto de recuperação da fachada e da cobertura da igreja. No entanto, para a museóloga, se o projeto demorar a entrar em prática, poderá ser tarde demais.
Há anos os problemas nas instalações já são denunciados, mas nunca houve uma resolução que resolvesse de fato o problema com as infiltrações. Três obras já foram realizadas na construção.
O primeiro sinal de problemas com a estrutura das instalações foi em 1967, onde um incêndio destruiu grande parte da construção, queimando diversas preciosidades históricas e peças raríssimas, como adornos de madeira.
“O fogo começou num bar próximo e tomou conta do monumento. Perdemos documentos raros. O que restou foram as peças em ferro”, conclui a museóloga que até hoje recebe doações de novas peças para o acervo do museu.
A arquitetura da igreja, originalmente neoclássica, foi construída por negros em 1737, com o intuito ao culto aos seus padroeiros. Após o término da construção, os escravos que morriam eram enterrados dentro da própria igreja, pois antes eram simplesmente jogados em valões.
A cultura afro-brasileira, de extrema importância histórica e tradicional no Brasil, vai se extinguindo a medida que não há o mínimo apoio e incentivo para o resgate das raízes do povo negro.
É importante ressaltar que, além de sua formação cultural, a composição negra no Brasil foi fundamental para o seu desenvolvimento econômico, pois eram os escravos os únicos que produziam para enriquecer a burguesia na época.Um outro fator que contribui para a total degradação da cultura brasileira, tanto de origens africanas como de origens indígenas, é a incapacidade do capitalismo de dar condições para a emancipação dos setores oprimidos da população, como os negros. Pelo contrário, a tendência é aprofundar a exploração desses setores, sendo a destruição de sua cultura parte inevitável do processo.
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