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Cotas
Não à demagogia
3
de maio de 2004
O Brasil
tem a segunda maior população negra do mundo e essa mesma
é a camada da sociedade mais explorada e reprimida, tanto no âmbito
social e econômico quanto no racial.
Devido aos inúmeros fracassos da burguesia em englobar a população
negra ao resto da sociedade, esta acabou posta à margem, permanecendo
nas piores condições em sua maioria.
As raras medidas tomadas pelos governos burgueses para solucionar esses
problemas, quando pressionados pelos movimentos negros independentes e
de esquerda, foram insuficientes, esbarrando sempre na inflexibilidade
da política burguesa.
Neste último período a política frente-populista
do PT, nos estados e nos municípios vêm tentando anular esta
grande contradição social através de medidas puramente
aparentes e da cooptação em massa das direções
dos movimentos e organizações negras. Como resultado desta
política, organizações com uma longa trajetória
como o Movimento Negro Unificado, foram praticamente dissolvidas pela
política estatal de cooptação. As discussões
com os vários grupos e entidades negras sobre políticas
afirmativas e a implantação de cotas para negros em algumas
universidades do país que não resolvem nenhum problema,
não sendo sequer um paliativo, mas uma medida puramente de aparência,
colocando uma ínfima parcela da população negra no
curso superior.
Essas cotas que já funcionam na UERJ e na Uneb, vão ser
também implementadas na UnB nesse ano. Atualmente, há apenas
2% de alunos negros na UnB. Como nas primeiras, abrirá 20% das
vagas do total. Porém o esquema será diferente na seleção
dos negros. O candidato será fotografado "para evitar fraudes",
pois é necessário que o mesmo tenha o maior número
de traços da raça, o que já serve como uma espécie
de peneira inicial. Essa fotografia terá que ser tirada no ato
da inscrição, sendo o pedido analisado por uma comissão
formada por membros de movimentos ligados à questão da igualdade
racial e especialistas no tema. Será publicado a relação
dos aceitos no Diário Oficial da União, antes da prova.
Além do primeiro funil, há ainda o problema da prova; os
candidatos devem chegar, pelo menos, às notas mínimas, ou
seja, as notas de corte do curso de sua escolha para poder ingressar na
universidade. Caso não consiga, automaticamente concorrerá
nas 80% restantes, o que significa a perda do "privilégio".
A juventude negra, fadada, em sua grande maioria, às piores condições
de vida devido à discriminação social e racial, é
ainda, a parcela mais oprimida da sociedade. Há a carência
de emprego, a falta de perspectivas tanto no trabalho quanto nos estudos.
Sofrem com o sucateamento constante das escolas de primeiro e segundo
grau. Estão no topo dos índices de analfabetismo, mal aproveitamento
nos estudos, desistências e repetências devido a sua vida
miserável.
A única virtude das cotas é que permite abria uma ampla
discussão sobre a questão, embora seja, obviamente, uma
tentativa de calar a boca das organizações que reivindicam
esta questão e de dar uma satisfação aparente a críticas
internacionais contra o regime burguês brasileiro como sendo racista.
A implementação de cotas deve ser apontada como não
sendo um passo para a reintegração do negro no ambiente
social. É simplesmente uma medida aparente que pretende de forma
presunçosa solucionar o problema da educação e formação
da população negra. O que acaba por fazer com que uma ínfima
parte consiga ingressar na universidade, e ainda, com muitos empecilhos,
tanto na entrada, quanto na permanência, pois permanecem inúmeras
necessidades a serem supridas por essa juventude, como a alimentação,
o transporte, os materiais de estudo etc. Finalmente, as cotas não
são garantia de permanência na universidade para a juventude
negra, é apenas a ponta do iceberg.
É necessária uma reforma total no aparelho educacional,
da educação infantil até a universidade, eliminando
totalmente o funil universitário, dando condições
desiguais à população negra, tais como bolsas para
que o estudante possa se dedicar com exclusividade, aulas especiais para
superar as lacunas de formação anterior, currículos
próprios à história e cultura negra, uma cota de
professores negros correspondente aos alunos negros etc.
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