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África
Quem é Laurent Nkunda e o que acontece na República Democrática do Congo
Todos conhecem ou já ouviram falar do genocídio de Ruanda em 1994, muito popularizado inclusive por Hollywood. A guerra na vizinha República Democrática no Congo, no entanto, já dura dez anos e matou mais de cinco milhões de pessoas – o maior genocídio de
Após participar de uma reunião com diplomatas europeus em Bruxelas, o governo da Angola anunciou o envio de mais tropas para a República Democrática do Congo (RDC). O anúncio foi feito pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Jorge Chicoty, que definiu com os chefes da diplomacia da União Européia o compromisso da Angola com a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), um eufemismo para ocultar os interesses do bloco europeu sobre as matérias primas do ex-Zaire. Nesse sentido, tropas angolanas estão sendo enviadas para reforçar o Exército congolês contra o avanço dos rebeldes liderados pelo general tutsi Laurent Nkunda, que acusa o governo de receber apoio dos hutus de Ruanda.
 
A decisão de Angola é uma resposta a um pedido feito em outubro passado pelo representante da ONU (Organização das Nações Unidas) em Kinshasa, Alan Dosse, que reivindicava o envio de três mil homens. A proposta foi contemplada pelo governo angolano e reforçada pela ausência de resposta dos EUA, que, oficialmente, se mostra a parte da guerra, mas, clandestinamente, apóia uma das partes em conflito para se apoderar das minas de ouro e diamante do país.
 
Esta não é a primeira vez que a Angola envia tropas para a República Democrática do Congo. Desde 1997, quando eclodiu a guerra, vários batalhões estão instalados em várias regiões do país. Foram estas tropas que derrubaram o ditador Mobutu Joseph Désire, no poder entre 1964 e 1997, e colocaram no lugar o atual presidente, Joseph Kabila. Atualmente, Angola possui em Kinshasa 300 policiais antimotim e batalhões de dois órgãos de segurança e uma unidade especial para proteger Kabila. Possui também 200 soldados da Forças Armadas da Angola, mais 240 militares na cidade de Matadi e 1.200 na base de Kitona, localizados no Baixo-Congo, próximo à fronteira, regiões riquíssimas em minérios preciosos. Os soldados angolanos estão neste momento em conflito com os rebeldes e já lançaram vários bombardeios com caças SU-27 em áreas onde massacraram dezenas de civis.
Os países imperialistas não podem mais intervir diretamente na guerra. Por parte da Europa, os cerca de 17 mil capacetes azuis da ONU, o maior contingente das Nações Unidas em todo o mundo, demonstraram um fracasso absoluto e deixaram as claras o motivo pelo qual foram enviados até o coração da África. Há inúmeras denúncias envolvendo as tropas da ONU em tráfico de armas, ouro e marfim com as milícias que combatem o governo.
 
Já para os EUA, a situação é pior ainda. Atolados no Iraque e no Afeganistão, a única opção que lhes restam é o financiamento de milícias que defendam os seus interesses. Esta é um método muito comum usada pelo imperialismo em todo o mundo. Essas milícias montadas da noite para o dia, também atuam no Iraque e são responsáveis por vários atentados gratuitos contra civis, uma tática para justificar a permanência das tropas estrangeiras.
 
Não só no conflito da República Democrática do Congo, que em dez anos já matou mais de cinco milhões de pessoas, mas em toda a África, as dezenas de guerras esquecidas e desconhecidas recebem o carimbo do imperialismo, o único regime capaz de manter a fome e a miséria sobre milhões de pessoas em todo o mundo para satisfazer o lucro de um punhado de parasitas.
 
A trilha de Laurent Nkunda
 
O Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), liderado por Nkunda, continua avançando no Leste congolense e está disposto a derrubar Kabila caso este não se comprometa a revisar uma série de acordos sobre a exploração das minas. Todo o mundo ficou conhecendo recentemente o general tutsi Laurent Nkunda após a imprensa capitalista acompanhar os passos de suas tropas em direção à província de Kivu Norte, onde a população aterrorizada está deixando o lugar em busca de locais mais seguros. Estima-se que mais de 250 mil pessoas abandonaram suas casas.
 
Laurent Nkunda é um ex-general das Forças Armadas da RD do Congo e é o atual líder da maior facção que opera no Oriente do país. Tem o apoio dos tutsis congolenses e ruandenses. Fala inglês, francês, swahili e kinyarwanda, dois dialetos locais. Quem mais apóia este homem?
 
Durante o genocídio de Ruanda em 1994, o ex-estudante de psicologia viaja para o país e se junta aos tutsis na Frente Patriótica Ruandês (FPR) para lutar contra as Forças Armadas de Ruanda (FAR), os militares genocidas do então governo hutu.
 
Depois que a FPR derrotou as FAR, convertendo a Ruanda num governo tutsi, Nkunda voltou ao Congo e participou da derrubada de Mobutu liderada por Laurent-Désiré Kabila, pai do atual presidente congolês Joseph Kabila.
 
Com a eclosão da segunda guerra do Congo, entre 2000 e 2003, Nkunda se uniu à Coalizão Congolense para a Democracia, baseada do outro lado da fronteira, em Ruanda.
 
Em 2003, com a guerra oficialmente dada por finalizada, Nkunda se une ao novo Exércino nacional que integra o governo de transição liderado por Kabila filho. Assume o posto de coronel e no ano seguinte ganha a patente de general. No entanto, discorda do governo e se retira das tropas juntamente com outros membros do exército. Embrenhando-se nos bosques de Kivu Norte para avançar a partir de então uma guerrilha contra o governo. Diz ser um defensor da minoria tutsi no Congo oriental, cuja população fora submetida aos ataques dos hutus que haviam fugido depois de sua participação no genocídio de Ruanda. Os massacres em Kivu Norte também foram um genocídio, embora ninguém saiba.
 
Em agosto de 2007, as tropas de Nkunda passaram a controlar toda a região ao Norte do lago Kivu, em Kivu Norte,além dos territórios de Masisi e Rutshuru. Nesta área Nkunda estabeleceu um quartel general e criou uma ordem sob a sua direção, conhecida como Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), que combate tanto as tropas do governo como os 17 mil soldados da ONU. Os conflitos estão provocando diversos distúrbios civis e grande escassez de comida, uma situação de dimensões catastróficas.
 
Em uma entrevista para a rede britânica BBC no dia 10 de novembro, Nkunda ameaçou derrubar o governo se Kabila continuar recusando o diálogo.
 
Nkunda é um cristão pentecostal e diz que a maioria de suas tropas também são convertidos. Afirma ser um "rebelde de Cristo", um "adventista do Sétimo Dia". Recebe ajuda financeira da seita religiosa norte-americana "Rebeldes por Cristo", que envia missionários ao Congo para difundir as suas idéias.
 
Nkunda é também acusado de cometer crimes contra a humanidade em uma série de massacres contra civis. A ONU acusa tanto Nkunda como as tropas do governo de ter feito várias covas coletivas na região do Leste. ele está sendo investigado pela Corte Penal Internacional por crimes de guerra em 2005, como assassinatos em massa, violação e saqueio de aldeias, bem como aliciamento forçado de crianças para servirem de soldados. Ele nega todas as acusações e atribui tais práticas às tropas do governo que querem incriminá-lo.
 
Um senhor da guerra
 
Em meio ao que pode e não pode ser, o que deve ser contestado, no entanto, é o porquê de suas tropas terem tanta força a ponto de dissuadir as Forças Armadas da RD do Congo e os 17 mil soldados da ONU. São tão fortes que estão levando mais tropas da Angola, estão mobilizando os interesses de muitos países, incluindo, obviamente, os imperialistas.
 
Laurent-Désiré Kabila foi colocado no poder pelo imperialismo norte-americano para derrubar o ditador nacionalista Mobutu e barrar um processo iniciado desde 1970 conhecido como a "zairinização".
 
Kabila seguiu fielmente as instruções da CIA e de Washington, mas quando assumiu o governo disse que não traria seu povo e assumiu relações comerciais e políticas com Cuba, China, Líbia e Coreia do Norte, todos países não alinhados ao imperialismo.
 
Agora que seu filho Joseph Kabila está no poder, os EUA apóiam Laurent Nkunda para desestabilizar o país e colocar o Congo, ou melhor, as minas do Congo, sob o domínio do imperialismo norte-americano. Nkunda é um militar à serviço do Pentágono. Apesar disso, os EUA afirmam não apoiar Nkunda, apondo-se "a qualquer iniciativa que vise criar a instabilidade na República Democrática do Congo". Até aí os EUA afirmavam também que não tinham nenhuma relação com as ditaduras militaras na América Latina ou, mais recentemente, que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Mentiras não faltam.