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O levante Hutu de 1959 e o massacre em Ruanda
A história de um país dividido pelo imperialismo
Ruanda tem como mais recente e conhecido acontecimento o massacre de 1994, em uma guerra civil financiada pelo imperialismo que terminou com o assassinato de pelo menos 800 mil pessoas. O massacre foi resultado de séculos de exploração e divisão de um pov
Há 50 anos, em novembro de 1959 ocorria um levante dos chamados hutus, que representava 85% de toda a população de Ruanda, e a parcela mais pobre subjugada historicamente. No entanto, o levante, assim como muitas das guerras civis da África serviram ao imperialismo como meio para dominar os países africanos através de governos títeres. A divisão entre as duas partes da população, ambas oprimidas pelo imperialismo, resultou na utilização por este de uma das parcelas da classe dominante para subjugar a outra, é um exemplo do que ocorre em toda a África e nos países capitalistas atrasados.
 
A histórica divisão mantida pelo imperialismo
 
Duas etnias sempre foram as majoritárias em Ruanda. Sua presença no País se deu a partir do século XIV quando os tutsis, em sua origem criadores de animais, imigraram para a área e subjugaram os hutus que baseavam sua economia no plantio. A partir de então se estabeleceram alguns estados. Até fins do século XIX a região seria dominada por uma monarquia liderada por diversos vassalos, todos da etnia tutsi. 
A história do armamento de uma parcela dominante pelo imperialismo em Ruanda remonta ao início do século XIX, com os reinos de Mutara II e Kigeri IV. O segundo reinou o país de 1853 a 1895, e seu governo foi considerado o auge do poder monárquico naquela região, no qual foi estabelecida uma autocracia militar. O reino mantinha acordos comerciais para conseguir armamentos com os mercadores na costa Leste da África.
A história da colonização de Ruanda se inicia em 1890 quando esta foi entregue à Alemanha em 1890, numa conferência em Bruxelas, sendo suas fronteiras sido estabelecidas oficialmente em 1900.
Em 1890, o reinado acordou com a Alemanha a entrega de seu território ao país sem nenhuma resistência, tornando-se parte da África do Leste Germânica.
Em 1911, a Alemanha já ajudaria os tutsi a reprimir uma revolta hutu no Norte de Ruanda.
Durante a Primeira Guerra, em 1916, depois da derrota da Alemanha, forças belgas ocuparam Ruanda e em 1919 esta se tornou parte da Liga Belga das Nações.
Durante este período os tutsis e hutus tornaram-se indistinguíveis. O imperialismo belga, necessitando um esquema “racial”definido para a sua dominação estabeleceram artificialmente uma “etni” tutsi para servir como base de apoio à sua dominação contra a maioria do país, catalogado como “hutu”. Toda pessoa que tivesse mais de 10 vacas e um nariz “europeu” era considerado como “tutsi” e assim registrado.
A Bélgica estabeleceu uma ditadura ainda pior que a dos alemães e apoiando-se na Igreja Católica os belgas criaram com os “tutsis”, uma elite do país, um governo de dura repressão aos “hutus”. Os acordos incluíam impostos altíssimos e o trabalho forçado, o que fez abrir um abismo econômico ainda maior entre ambas as partes da população no país africano.
Outros expedientes dos belgas mostravam a política consciente de divisão do povo de Ruanda. A partir de 1933 as carteiras de identidade começaram a vir com carimbos que diferenciavam a população entre hutus e tutsis. Os hutus que acendiam socialmente e conseguiam um determinado número de riquezas eram considerados em seus cartões de identidade como tutsis. A Igreja católica impunha instituições de ensino para os tutsis em separado dos hutus. Entre 1940 e 1950, a imensa maioria dos estudantes eram tutsi devido à situação de ensino péssima para os hutus. Foi a Igreja Católica européia a que mais difundiu, pela educação, a idéia de separação entre as duas etnias por suas atribuições físicas.
Para se ter uma idéia do domínio da Igreja Católica no País, em 1943, Mutari III se tornou o primeiro monarca tutsi a se converter ao catolicismo.
Em 1946, Ruanda se tornou novamente território da ONU. No entanto, a ONU dava protetorado à mesma dominação monárquica tomava conta do país bem como os interesses estrangeiros.
 
O levante hutu de 1959
 
Em 1959, o primeiro levante da parcela mais subjugada da população foi o estopim de todo um processo que seria utilizado posteriormente pelos imperialismos francês e belga para lançar uma parte da população contra a outra em uma guerra civil genocida.
Ruanda foi dominada por um século e meio pelas mesmas aristocracias tutsis apoiadas pelo imperialismo belga, que só foram derrubadas pela onda de independência de todo o povo africano e pela onda revolucionária em todo o mundo.
Em 1957 abre-se uma crise no país grando uma mobilização popular contra a aristocracia tutsi, influenciada pela crise geral da colonização da África nos anos de 1950.
Dezenas de países pelo mundo estiveram convulsionados, em particular as colônias. Apenas para citar alguns casos mais importantes, desde 1954, houve o movimento de independência da Argélia contra a colonização francesa, que depois de uma dura guerra civil, veio abaixo. Marrocos e a Tunísia tornaram-se independentes da França em 1956. Houve também a revolução socialista Cubana na América Central que foi vitoriosa em 1959 contra o colonialismo do imperialismo norte-americano.
Finalmente em 1960, a França seria obrigada a reconhecer a independência da maioria das suas colônias africanas.
Surgiram líderes pela independência como Julius Nyerere na Tanzânia e Patrice Lumumba no Congo, que expressavam a onda revolucionária em toda a África, como resultado da crise imperialista.
Em Ruanda, a colonização havia se enfraquecido assim como a francesa e em 1954 o rei de Ruanda requisitava a independência da Bélgica e havia concordado em abolir o sistema de trabalho forçado contra os hutus, sofrendo pressão da onda pela independência e sendo obrigado a tomar uma medida defensiva.
No ano de 1959 é assassinado o rei Mutara III e este é sucedido por Kigeri V.
Os hutus protestaram contra a indicação de Kigeri. Diversos partidos hutus haviam sido formados.
Entre eles estava o Partido pelo Movimento da Emancipação Hutu (Parmehutu), um partido burguês nacionalista, que escreveu o “Manifesto Hutu” in 1957, reivindicando maior representação no governo e melhorias para a população hutu. O grupo rapidamente transformou-se em um exército armado e em 1959 em resposta foi formado o Unar pelos Tutsis, que reivindicavam independência por meio de um acordo para manter a monarquia.
Em novembro de 1959, surgiram rumores de que forças tutsis teriam assassinado Dominique Mbonyumutwa, um político hutu, o que fez com que explodisse no país uma revolta hutu, conhecida como “ventos da destruição”, onde milhares de Tutsis eram mortos e mais milhares se refugiaram.
Em 1960, o governo belga aceitou organizar eleições municipais em Ruanda-Burundi nas quais Hutus foram eleitos.
Houve então um levante hutu contra os tutsis, diversos violentos conflitos pelo país, o que expulsou 100 mil tutsis do território de Ruanda, incluindo Kigeri V, que fugiram para países vizinhos como o Congo belga e Uganda. Naquele país, levantes antieuropeus na cidade de Leopoldville mataram 71 em janeiro de 1960.
Um esforço para criar uma Ruanda independente com hutus e tutsis no poder falhou e alimentou uma onda de violência, a qual Bélgica aproveitou para dividir Ruanda e Burundi e para a realização nos dois territórios em 1961 em uma transição para a independência formal e por um referendo apoiado pela Bélgica, foi abolida a monarquia.
Dominique Mbonyumutwa, que havia sobrevivido foi nomeado o primeiro presidente do governo de transição e em Burundi, ao contrário, foi estabelecida uma monarquia constitucional com o governo de Louis Rwagasore, filho de monarcas tutsis e um político popular e agitador anticolonialista como primeiro ministro que, no entanto, foi assassinado. No entanto, naquele País pela pressão popular também houve eleições a partir de 1965.
Ainda em 1960,  Grégoire Kayibanda se tornou o primeiro ministro interino, tendo em 1961 proclamado a republica no País.
A revolta hutu havia sido vitoriosa e expressava a situação de revolta da parcela mais explorada da população. No entanto, a burguesia africana, assim como as burguesias de todos os países capitalistas atrasados, por sua própria condição se alia ao imperialismo para conter a revolução popular.
 
O acordo da burguesia com o imperialismo
 
O governo colocado no poder pela revolta hutu, formado por uma burguesia nacional, não poderia porém colocar em prática aquilo que expressou a população mais explorada de um dos países mais pobres do mundo, em primeiro lugar pela ação do imperialismo e em segundo porque para manter sua governabilidade se aliaria à mesma corja imperialista que alimentava a aristocracia tutsi.
O acordo, com o imperialismo se baseava em arrefecer a luta de classes no país, levando a uma guerra de massacre contra uma parcela da população típica dos governos fascistas.
A burguesia que se apoderava do governo em nome dos hutus fechou acordo para realizar um referendo organizado pelos países imperialistas por meio da ONU. Em julho de 1962 a Bélgica com o apoio da ONU garantiu independência a Burundi e Ruanda.
Em 1963, uma guerrilha Tutsi invadiu Ruanda pelo Burundi, na qual em resposta foram mortos cerca de 14 mil tutsis e um acordo econômico entre os dois países foi então dissolvido. Ameaçou-se então pelo imperialismo o envio de forças navais britânicas para conter as tensões.
 
Uma história de massacre pelo imperialismo
 
Após o acordo imperialista a história de Ruanda foi permeada de uma constante guerra étnica sustentada pelo imperialismo que financiava a mesma com armamentos, aos olhos de toda a força de paz da ONU, que servia como outro apoio para garantir o massacre no território de Ruanda, mesmo com a imposição de golpes militares no País.
Kayibanda, o primeiro presidente de Ruanda, foi reeleito em 1962-65 e 69.
No ano de 1964, da vizinha Burundi, que continuava a ser controlada pela aristocracia tutsi, os exilados tentaram uma incursão militar, e muitos tutsis foram mortos em Ruanda e mais milhares deixaram o país novamente
No início de 1973 reascenderam-se os conflitos entre os hutus e os tutsis e novamente 600 tutsis voaram para Uganda.
Em meio aos conflitos em Julho de 1973, o major general Juvénal Habyarimana, primo de Kaybanda, então ministro da defesa, destituiu-o com um golpe militar e dissolveu a Assembléia Nacional abolindo todas as atividades políticas.
Em dezembro de 1978 com eleições democráticas de fachada, apoiado pelo imperialismo, Habyarimana governou até 1990.
Em dezembro de 1978 foram organizadas eleições, nas quais foi aprovada uma nova constituição e confirmado Habyarimana como presidente, que foi reeleito em 1983 e em 1988, como candidato único, ou seja, uma ditadura com formalidades de república apoiada por todo o imperialismo.
 
O massacre de 1994: desfecho da política do imperialismo
 
O maior massacre da história de Ruanda e de toda a África, ocorrido há quinze anos não foi mais que o desfecho encontrado como necessário aos países imperialistas que impulsionaram de maneira organizada a morte de quase um milhão de seres humanos.
Uma crise econômica sem precedentes atingiu Ruanda em 1989, graças ao fato de que o preço mundial do café, um dos principais produtos do país, caiu pela metade. Os lucros com a exportação caíram então em 40%. O governo sustentou então uma das maiores crises alimentares da população, a maior em 50 anos, com centenas de milhares de mortos de fome. Ao mesmo tempo, o governo hutu aumentava os gastos militares para conter revoltas da população como um todo no país.
Aproveitando-se da crise, exilados tutsis, que formaram a Frente Patriótica Ruandesa, realizam outra incursão militar pela fronteira de Uganda e a burguesia hutu assim como a tutsi assinam um acordo de suposto “co-governo”, o Acordo de Arusha.
O acordo foi realizado em abril de 1993, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a resolução 872, intitulada “Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda”, a Mianur.
Com o argumento de impedir os conflitos entre tutsis e hutus, a ONU enviou suas tropas para o País. As tropas, formadas por 2.548 homens, eram de maioria belga.
Em janeiro de 1994, ano do massacre, um carregamento aéreo francês carregado com munições e armas destinadas às Forças Armadas de Ruanda (FAR), chegou à capital Kigali. As tropas militares da ONU não impediram o armamento, já havia sido firmado um acordo militar antes do acordo da ONU.
As armas haviam sido enviadas por Israel, Bélgica, França, Reino Unido, Países Baixos e Egito.
Em abril o presidente de Ruanda Juvénal Habyarimana e o presidente do Burundi, Cyprien Ntaryamira, foram assassinados.
Durante os três meses seguintes, os militares e milícianos mataram 800.000 tutsis e chamados hutus “moderados” com o apoio explícito do imperialismo francês e a completa “neutralidade” do imperialismo norte-americano. Seu objetivo era fazer o controle do país passar das mãos de um para outro bloco imperialista.
Há provas hoje de que o genocídio foi financiado por verbas dos programas de “ajuda social”, fornecido pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, uma verba em torno de US$ 134 milhões, sendo US$ 4,6 milhões em facões.
As seqüelas históricas provocadas pelo imperialismo no país fez com que o povo de Ruanda continuasse a ser igualmente esmagado. Assim como o povo de toda a África é subjugado a centenas de guerras financiadas pelo imperialismo e a uma política de rapina para manter o povo mais oprimido do mundo sob controle.
Hoje o país é o vigésimo da lista de mais pobres do mundo, sendo que todos os primeiros se localizam na África subsaariana, a chamada África Negra, que possui 500 milhões de seres humanos aos quais são impostos os piores índices de condição humana de todo o planeta. Na África Negra, a média de expectativa de vida em seus países não ultrapassa os 45 anos enquanto que em países desenvolvidos o índice ultrapassa os 80 anos.
Ruanda hoje possui a 164º renda per capita mais baixa do mundo US$ 899, uma mortalidade infantil de 83.42 mortos a cada mil nascimentos e um índice de analfabetismo de 35% da população.