compartilhar
de de

190 anos de Karl Marx
Karl Marx e Friedrich Engels
Leia nesta edição um trecho do livro do russo Davi Riazanov que apresentou a biografia de Marx e Engels em conferências realizadas no ano de 1923 e fará parte da apostila de estudos do XXII Acampamento de Férias da Aliança da Juventude Revolucionária, em
Marx, que havia tirado proveito de toda a ciência e a filosofia de seu tempo, formulou, como vimos, um ponto de vista inteiramente novo na história do pensamento social e político do século XIX.
(...)
Pois bem: depois de haver examinado todos os antecedentes contidos nas obras de Marx e Engels sobre a história daquela Liga, devo confessar que não resistem a uma crítica séria. Marx não aludiu mais que uma vez em sua vida a essa história numa obra muito pouco lida, O senhor Vogt, aparecida em 1860. Marx cometeu nela uma série de erros. Mas para informar-se sobre a Liga dos Comunistas se recorre quase sempre a um relato escrito por Engels em 1885. Eis aqui, mais ou menos, segundo Engels, como se representam os fatos.

Houve uma vez dois filósofos e políticos alemães Marx e o próprio Engels que tiveram que abandonar a Alemanha à força. Viveram na França, estiveram na Bélgica e escreveram sábias obras que, depois de atrair a atenção dos intelectuais, se difundiram entre os operários. Um belo dia, estes se apresentaram ante os filósofos, que tranqüilamente sentados em seus gabinetes, conservando-se afastados da ação vulgar, e como formalmente convém a depositários da ciência, esperavam orgulhosos que os operários fossem buscá-los. A desejada hora chegou quando os operários se dirigiram a Marx e Engels convidando-os a unirem-se a eles. Ambos declararam que não o fariam senão quando seu programa fosse acerto. Os operários consentiram, organizaram a Liga dos Comunistas e, imediatamente, encarregaram Marx e Engels do Manifesto Comunista.

Estes operários pertenciam à Federação dos Justos, da qual falei em minha primeira conferência sobre a história do movimento operário na França e na Inglaterra. Como disse, esta organização estava constituída em Paris e havia sido submetida a duras provas depois da infrutífera tentativa de insurreição dos blanquistas, em 12 de maio de 1839. Após esta derrota seus membros radicaram-se em Londres. Encontrava-se entre eles Schapper, que organizou em fevereiro de 1840 a Sociedade de Educação Operária.
Para dar uma idéia melhor acerca da maneira que habituamente se relata esta história, vou ler um fragmento do opúsculo de Steklov sobre Marx:
“Residindo em Paris, Marx mantinha relações pessoais com os dirigentes da Federação dos Justos, formados por exilados políticos e artesãos, mas não se filiava a ela porque o programa da Federação não o satisfazia devido a seu espírito idealista e temerário.

“Mas, pouco a pouco, produziu-se na Federação uma evolução que a aproximou de Marx e Engels, que por conversações, por correspondência e também pela imprensa influíram sobre as opiniões políticas de seus membros. Em alguns casos excepcionais, os dois amigos deram a conhecer seus pontos de vista através de circulares impressas. Depois da ruptura com o revoltoso Weitling e a ‘crítica severa dos teóricos inconsistentes’ ficou preparado o ambiente para a entrada de Marx e Engels na Liga. O primeiro congresso, que aprovou o nome de Liga dos Comunistas, foi assistido por Engels e W. Wolf; do segundo, convocado em novembro de 1847, participou o próprio Marx.

Depois de haver escutado o discurso em que Marx expôs a nova filosofia socialista, o congresso o encarregou de elaborar, junto com Engels, o programa da Liga. Assim, surgiu o célebre Manifesto Comunista”.

Steklov limita-se a repetir o que escreveu Mehring que, por sua vez, repete o que nos conta Engels. E como não acreditar neste último? Com efeito: quem melhor que ele, que participou na organização de uma empresa, pode contar sua história? No entanto, devemos submeter a um exame crítico as palavras de Engels, como as de qualquer historiador, com maior razão quando? Sabe-se que escreveu estas páginas quase quarenta anos após terem ocorrido os episódios que descreve. Em tal espaço de tempo é fácil esquecer algo, sobretudo se se escreve em condições materiais e espirituais completamente distintas.

Existem outras circunstâncias que em nada concordam com aquela narração. Marx e Engels não eram teóricos puros como os apresenta Steklov. Ao contrário, Marx apenas compreendeu que quem julgue necessário transformar radicalmente o atual regime social, não pode apoiar-se senão no proletariado como classe que, por suas condições de existência, encontra todos os estimulantes para a luta contra o dito regime e portanto recorreu aos meios operários, esforçando-se por penetrar com seu amigo em todos os lugares e organizações em que os trabalhadores estavam submetidos a outras influências. Sendo assim, infere-se que existiam então estas organizações. Examinemo-las.

Ao historiar o movimento operário me detive nas proximidades do ano de 1840. Depois da derrota de maio de 1839, a Federação dos Justos deixou de funcionar como organização central e, em todo caso, a ‘partir de 1840, não se encontra mais indícios de sua existência ou atividade como tal. Restaram somente círculos isolados de um dos quais, o de Londres, já falamos organizados por alguns antigos membros da Federação. Outros membros, sobre os quais Wilhelm Weitling exercia grande influência, refugiaram-se na Suíça.

Alfaiate de profissão, Weitling, um dos primeiros artesãos revolucionários alemães, como muitos outros daquela época, andava de cidade em cidade até que em 1837 se estabeleceu em Paris, onde já havia estado em 1835. Filiou-se à Federação dos Justos e estudou aí as teorias de Lamennais, representante do socialismo cristão, de Saint-Simom e de Fourier. Em Paris, ligou-se também a Blanqui e seus adeptos. Em fins de 1838 escreveu, a pedido de seus companheiros, o folheto Como é e como deveria ser a humanidade, no qual já defendia as idéias comunistas.

Depois de sua infrutífera tentativa de estender a propaganda à Suíça francesa e logo à Suíça alemã, começou, com alguns companheiros, a organizar círculos entre os operários e os exilados alemães. Em 1842, publicou sua principal obra As garantias da harmonia e da liberdade, na qual desenvolveu as idéias expostas em 1838 que, no entanto, não vamos comentar aqui. Weitling distinguia-se dos demais utopistas de seu tempo na medida em que influenciado em parte por Blanqui não acreditava na possibilidade de se chegar ao comunismo pela persuasão. A nova sociedade, cujo plano havIa elaborado em todos os seus detalhes, seria alcançada unicamente pela violência. Quanto mais rapidamente se destrua a sociedade existente, mais rapidamente se libertará o povo, e o melhor meio para se chegar a esta situação era, no seu modo de ver, levar a extremos a desordem social existente. O elemento mais seguro, o mais revolucionário, capaz de derrubar a sociedade, era, segundo Weitling, o proletariado desocupado, o “lumpem-proletariat” e até os bandidos.

Na Suíça, Bakunin, que abrigava algumas destas idéias, encontrou Weitling e conheceu suas teorias. Quando, na primavera de 1843, Weitling foi ‘preso em Zurick e processado com seus adeptos, Bakunin viu-se comprometido com a causa e foi obrigado a emigrar.

Cumprida a pena, Weitling foi repatriado em maio de 1844. Depois de inumeráveis vicissitudes, conseguiu, saindo de Hamburgo, chegar a Londres, onde foi acolhido com grande pompa. Em sua homenagem foi organizada uma grande assembléia, à qual assistiram, além dos socialistas e cartistas ingleses, exilados franceses e alemães. Era a primeira grande assembléia internacional realizada naquela cidade e deu a Schapper a oportunidade de organizar, em outubro de 1844, uma sociedade internacional que adotou o nome de Sociedade dos Amigos Democráticos de Todos os Povos. Dirigida por Schapper e seus amigos mais próximos, se propunha a colocar em contato os revolucionários de todos os países, estreitar vínculos fraternais entre distintos povos e conquistar os direitos políticos e sociais. 

Weitling permaneceu em Londres quase um ano e meio. A princípio gozava de muita ascendência na sociedade operária londrina, onde eram discutidos apaixonadamente todos os problemas da época, mas não demorou a encontrar forte oposição.

Seus velhos companheiros, como Schapper, Bauer e Moll, durante a separação haviam se familiarizado com o movimento operário inglês e estavam influenciados pelas doutrinas de Owen. 

Para Weitling, como dissemos, o proletariado não constituía uma classe especial, com interesses próprios era somente uma parte da população pobre, oprimida e, entre estes elementos pobres, o revolucionário era o “lumpem-proletariat”. Sustentava que o bandidismo era um dos elementos mais seguros na luta contra a sociedade existente. Não atribuía nenhuma importância à propaganda. Imaginava a futura sociedade como uma sociedade comunista, dirigida por um pequeno grupo de homens sagazes. Para atrair as massas, julgava necessário recorrer ao sentimento religioso; fazia de Cristo um precursor do comunismo e o respeitava como um cristão expurgado de todos os desvios que se lhe impuseram através dos séculos. Para compreender melhor, as discussões que logo apareceram entre ele, Marx e Engels, convém lembrar que Welthng era um operário muito capacitado, autodidata, dono de considerável talento literário, mas que sofria de todas as deficiências dos autodidatas. Na Rússia são muitos os que se educaram como Weitling.

O autodidata, em geral, se empenha em extrair de seu cérebro algo ultranovo, alguma invenção engenhosa no mais alto grau, mas logo a experiência lhe mostra que gastou mal o seu tempo e forças consideráveis, para não fazer outra coisa senão descobrir a América. Chega a buscar um “perpetum mobile” qualquer ou o meio possível de tornar o homem feliz e sábio num abrir e fechar de olhos.

Weitling pertencia a esta categoria de autodidatas. Queria encontrar a maneira de fazer com que os homens assimilassem quase instantaneamente não importa qual ciência. Queria criar uma língua internacional. Característica notável: um outro operário autodidata
Proudhon, também havia empreendido esta tarefa. É difícil, às vezes, saber o que Weitling preferia, o que adorava mais, se o seu comunismo ou o seu idioma universal. Sentindo-se verdadeiro profeta, não suportava crítica alguma e tinha um receio particular dos homens instruídos, que acolhiam com ceticismo sua mania.

Em 1844, Weitling era um dos homens mais populares e conhecidos não só entre os operários, mas também entre os intelectuais alemães. Heine, o célebre poeta, deixou uma página singular sobre seu encontro com o famoso alfaiate:

“O que mais feriu minha altivez foi incivilidade do moço para comigo durante a conversação. Não tirou o chapéu e, enquanto eu permanecia de pé, ele estava sentado num banco, segurando o joelho direito na altura do queixo, e, com a mão livre, não parava de coçá-lo.

“Supus que esta posição desrespeitosa fosse um hábito adquirido na prática de seu ofício, mas logo vi que me enganava. Como lhe perguntasse por que não parava de coçar o joelho, respondeu- me, num tom indiferente, como se se tratasse da coisa mais habitual, que nas diversas prisões alemãs onde havia estado, era presa com correntes e como o anel de ferro que lhe prendia o joelho era muito estreito, tinha produzido um comichão que o obrigava àquele exercício.

“Confesso: retrocedi uns passos quando este alfaiate, com sua familiaridade repulsiva, me contou esta história sobre as correntes das prisões... Estranhas contradições do coração humano! Eu, que um dia havia beijado respeitosamente em Munster as relíquias do alfaiate Leyde, os grilhões que o haviam prendido, as tenazes com o que o torturaram; eu, que me havia entusiasmado por um alfaiate morto, sentia uma invencível repugnância por este alfaiate vivo, por este homem que era sem dúvida um apostolo e um mártir da mesma causa pela qual padeceu o glorioso Leyde.”

Embora esta descrição não faça honra a Heine, mostra a profunda impressão que Weitling produziu, no poeta, mimado por inumeráveis aduladores.

Heine aparece, nesta circunstância, como o grande senhor da arte e do pensamento, que considera como curiosidade, e não sem repugnância, este tipo de lutador, estranho para ele. Com esta mesma curiosidade ociosa, nossos poetas de outra época examinavam um bolchevique.
Pelo contrário, um intelectual como Marx adotava outra atitude em relação a Weitling, a quem julgava ,talentoso, porta-voz das aspirações deste proletariado cuja missão histórica ele mesmo acabara de formular. Vejamos como escrevia sobre Weitling antes de conhecê-lo:
 
 “Que obra, sobre o problema de sua emancipação política, poderia a burguesia (alemã), inclusive seus filosofos e literatos, Contrapor à de Weitling: As garantias da harmonia e da liberdade? Compare-se a mediocridade esquálida e fanfarrona da literatura política alemã com essa brilhante iniciativa dos operários alemães, compare-se essas botas de sete léguas do proletariado principiante com os pequenos sapatos da ‘burguesia e se verá no proletariado subjugado o atleta futuro de gigantesca estatura.”

Naturalmente, Marx e Engels deviam procurar relacionar-se com Weitling. No verão de 1845, ambos os amigos, durante sua curta estada na Inglaterra, haviam se relacionado com os cartistas e com os exilados alemães, mas não se sabe, com certeza, se encontraram Weitling, que vivia então em Londres. De qualquer modo, até 1846, quando foi a Bruxelas, onde Marx se havia estabelecido no ano anterior, ao ser expulso da França, não se ,vincularam estreitamente.

Marx já se havia dedicado ao trabalho de organização, para o qual, Bruxelas oferecia grandes facilidades devido à situação de estação intermediária da Bélgica, entre a França e a Alemanha. Entre os operários temporariamente estabelecidos em Bruxelas, vários eram homens muito inteligentes.
e:Marx não tardou em conceber a idéia de convocar um congresso de todos os comunistas, para criar a primeira organização comunista geral. Este congresso devia realizar-se em Verviers, cidade situada perto da fronteira alemã, de modo que fosse de fácil acesso aos alemães. Não se pode determinar exatamente se, na realidade, levou-se a cabo o congresso. Mas todos os preparativos haviam sido feitos por Marx ;muito tempo antes que os delegados da Federação dos Justos chegassem a Londres para convidá-lo a ingressar nela. Na verdade, Marx e Engels atribuíam também grande importância à conquista dos círculos influenciados por Weitling e não pouparam esforços para estabelecer com eles uma plataforma comum. Suas tentativas terminaram, sem dúvida, numa ruptura, cuja história nos foi contada por um compatriota nosso, que em viagem à França, passou então por Bruxelas. Refiro-me ao crítico russo P. Annenkov que, se em certo momento, foi admirador de Marx, não tardou em deixar de ser revolucionário.
Annenkov nos legou um curioso relato de sua estada em Bruxelas, na primavera de 1846, relato que contém muitas mentiras, mas também certa parte de verdade. Dali o extrato de uma sessão na qual Marx e Weitling discutiram violentamente.

Gritava-lhe Marx golpeando a mesa com o punho: “a ignorância nunca ajudou a ninguém, nem tem sido útil para qualquer coisa”. Estas palavras são muito verossímeis. Com efeito, como Bakunin, Weitling se opunha ao trabalho preparatório de propaganda sob o pretexto de que os pobres sempre estavam dispostos à revolução e, por conseguinte, esta podia ser declarada em qualquer momento, sempre que houvesse líderes resolutos. Segundo carta do pr6prio Weitling, nessa assembléia Marx sustentou que era necessário deputar as fileiras comunistas e fazer a crítica de todos os teóricos inconsistentes, declarando que se devia renunciar a todo o socialismo apoiado exclusivamente na boa vontade; que a realização do comunismo estaria precedida por uma época durante a qual a burguesia -deteria o poder.

Vê-se assim como as divergências teóricas entre Marx, Engels e Weitling eram quase as mesmas que se manifestaram entre os revolucionários russos, quarenta anos depois.

Em maio de 1846, o rompimento definitivo com Weitling aconteceu, e este partiu em seguida para Londres, de onde foi para a América, ficando até a revolução de 1848.

Com a ajuda de outros companheiros, que se haviam aproximado por essa época, Marx e Engels prosseguiram: seu trabalho de organização. Criaram em Bruxelas a Sociedade de Educação Operária, na qual Marx proferiu, para os operários, conferências sobre economia política. Além de certo número de intelectuais, entre os quais se distinguiam Wolf (a quem Marx dedicou mais tarde o 1º volume de O capital) e Weidemeyer, permaneciam em Bruxelas operários como Bom, Vallan, Seiler e outros.

Com base nesta organização e com a ajuda dos camaradas vindos de Bruxelas, Marx e Engels esforçavam-se para estabelecer relações com os círculos da Alemanha, Londres, Paris e Suíça. É o trabalho que o próprio Marx fazia em Paris. Pouco a pouco, os adeptos de Marx e Engels aumentaram. Marx concebeu então o plano de agrupar todos os elementos comunistas, pensando em transformar aquela organização nacional puramente alemã em uma organização internacional. Tinha que começar por criar em Bruxelas, Londres e Paris núcleos de comunistas que estivessem de comum acordo, os quais designariam comitês encarregados de manter relações com outras organizações comunistas. Deste modo, estabeleceriam relações mais estreitas com outros países e se prepararia o terreno para a união internacional dos comitês denominados de “correspondência comunista”, por sugestão do próprio Marx.

Como os que escreveram a história do socialismo alemão e do movimento operário foram literatos, jornalistas, membros de agências informativas ou dedicados freqüentemente às correspondências, acreditaram que aqueles comitês não eram outra coisa além de simples escritórios de correspondência.

Em resumo, segundo eles, Marx e Engels resolveram fundar em Bruxelas um escritório de correspondência de onde despachavam circulares. Ou melhor, como escreve Mehring em seu último trabalho sobre Marx:

“Carecendo de um órgão próprio, Marx e seus amigos se empenharam em preencher esta lacuna dentro do possível com circulares impressas. Ao mesmo tempo, procuraram assegurar a cooperação de correspondentes regulares nos grandes centros onde viviam comunistas. Semelhantes escritórios de correspondência existiam em Bruxelas e Londres e havia propósito de estabelecer um em Paris. Marx escreveu a Proudhon pedindo-lhe sua colaboração.”

Basta ler atentamente a resposta de Proudhon para ver que se tratava de uma organização muito distante de um escritório de correspondência. E se recordarmos que este intercâmbio epistolar ocorria no verão de 1846, resulta que, muito antes que fossem propor-lhe o ingresso na Federação dos Justos, existiam em Londres, Bruxelas e Paris, organizações cuja iniciativa emanava incontestavelmente de Marx.

Recordemos o que disse sobre a sociedade de correspondência londrina organizada em 1792 por Thomas Hardy. Os comitês de correspondência, organizados pelo Clube dos Jacobinos, quando foi ,proibido criar suas seções nas províncias, representavam uma instituição análoga à de Marx. Estudando e comparando estes fatos, cheguei à conclusão, já há muito tempo, de que Marx, ao fundar estas sociedades, tinha precisamente a intenção de fazer delas comitês de correspondência. E, no segundo semestre de 1846, existe efetivamente em Bruxelas um comitê muito bem organizado que atua como organismo central, ao qual se enviam informes. Reúne um grande número de membros e entre eles muitos operários. Em Paris, funciona outro, organizado por Engels, que realiza intensa propaganda entre os operários, alemães; e o de Londres, dirigido por Schapper, Bauer e Moll (o mesmo que segundo dizem foi a Bruxelas seis meses depois, para convidar Marx a incorporar-se à Federação dos Justos).

E, como prova uma carta de 20 de janeiro de 1847, que enviou a Mehring, Moll foi a Bruxelas não como delegado da Federação dos Justos, mas como delegado do comitê de correspondentes comunistas de Londres, para levar-lhe um informe sobre a situação da sociedade londrina.

Foi assim que me convenci de que o relato da fundação da Liga dos Comunistas, tal como foi feito com a ajuda de Engels, e reproduzido sucessivamente em diversas obras, não passa de uma lenda que não resiste a uma crítica.