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Quinze anos do genocídio em Ruanda
Os acontecimentos que levaram ao massacre dos tutsis
Um dos episódios mais bárbaros da história da humanidade aconteceu recentemente, em 1994, quando em apenas três meses mais de 800 mil pessoas foram chacinadas em sua maioria a golpes de facão. Do processo de independência de Ruanda até o genocídio, os con

Quando a burguesia européia decidiu dividir entre si o domínio colonial sobre a África, em 1885, durante a Conferência de Berlim, Ruanda, no entanto, só seria entregue à Alemanha – juntamente com o vizinho Burundi – em 1890, em uma conferência realizada em Bruxelas, mas as fronteiras deste país só viriam mesmo a ser definidas em 1900. Com a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, o protetorado foi entregue à Bélgica, que impôs um domínio ainda mais duro contra a população nativa com o apoio da Igreja Católica. A elite dos chamados tutsi, produto de uma distinção artificial criada pelo governo belga, foi levada ao poder e manipulada para reprimir o restante da população de maioria hutu e tutsis de oposição, formando uma espécie de segregação social através da cobrança de altos impostos e a imposição de trabalhos forçados.

Após a Segunda Guerra Mundial, novamente a burguesia divide seus protetorados, sendo a Ruanda uma colônia administrada pela Bélgica sob o aval da recém criada ONU (Organização das Nações Unidas).

Foi iniciado um processo de várias reformas a favor dos interesses belgas que impulsionou os conflitos entre tutsis e hutus, resultando no assassinato (sob circunstâncias misteriosas) do rei tutsi Mutara III Charles, em 1959 e a fuga de seu sucessor e último monarca de Ruanda, seu irmão mais novo, o rei Kigeri V, que se refugiou em Uganda. [Muito tempo depois da morte de Mutara III, sua esposa, a rainha Rosalie Gicanda, seria assassinada em 22 de abril de 1994 durante o Genocídio de Ruanda].

O vácuo político levou os hutus ao poder e à sua consolidação após a independência do país em 1962. A República de Ruanda, no entanto, foi declarada um pouco antes, em 1960, quando a ONU organizou um referendo nacional. Pela primeira vez eleições eram realizadas e Grégoire Kayibanda foi eleito primeiro-ministro.

Várias medidas de repressão foram aprovadas contra os tutsis e muitos anos seguiram-se à beira de uma guerra civil. Em julho de 1973, o major general hutu, Juvénal Habyarimana, à época ministro da Defesa, destituiu o premiê, que também era seu primo, dissolveu a Assembléia Nacional e aboliu todo e qualquer tipo de manifestação política. Em Dezembro de 1978 novas eleições foram organizadas e uma nova Constituição foi aprovada, com Juvénal Habyarimana assumindo a presidência, com o apoio da França. Ele ainda seria reeleito em 1983 e em 1988, mas acabou renunciando em julho de 1990 após sofrer pressão de seus opositores.

Ao mesmo tempo, fortes conflitos entre grupos das duas etnias geraram uma luta aberta. A Frente Patriótica Ruandesa (RPF), organização formada por tutsis refugiados nos países vizinhos, iniciou uma série de ataques armados contra o governo hutu. Este, por sua vez, respondeu com inúmeros massacres contra o povo tutsi até um acordo de cessar-fogo ser assinado em 1992 em Arusha, capital da Tanzânia.

Porém, em 6 de Abril de 1994, o presidente Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, presidente de Burundi, foram assassinados quando o avião que ocupavam foi atingido por um lança míssil quando chegavam em Kigali.

Milicianos hutus, chamados Interahamwe, foram treinados e equipados pelo Exército ruandês debaixo da propaganda assassina estimulada pela Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida por facções hutus. A “caça aos tutsis” estava iniciada. Mais de 800 mil tutsis e hutus de oposição foram barbaramente assassinados a golpes de machetes (facões importados da China) para economizar munição. Um estupro em massa também foi incentivado e mais de cinco mil crianças nascidas destes estupros foram posteriormente assassinadas.

Sob as vistas grossas dos EUA, da ONU e do imperialismo mundial, a Frente Patriótica Ruandesa, dirigida por Paul Kagame, ocupou as principais regiões do país e em 4 de julho entrou na capital, dando fim ao massacre e o início da demagogia por parte do imperialismo.

Kagame assumiu como vice-presidente e Pasteur Bizimungu como presidente, mas a rivalidade política entre os dois levou à renúncia de Bizimungu em 2000, com Kagame assumindo de fato o poder. Este seria eleito em 2003 com as primeiras eleições diretas desde o genocídio. Temendo o início de uma vingança, mais de dois milhões de hutus refugiaram-se na República Democrática do Congo. Atualmente, milícias hutus e tutsis mantém nesta região conflitos que já levaram à morte dezenas de milhares de pessoas.

 

Conflitos armados e milhões de refugiados

 

Desde o processo de independência da Ruanda em 1962, os países vizinhos já abrigavam mais de 120 mil refugiados, a maioria tutsis vítimas da perseguição hutu. Duas décadas depois, estes refugiados se organizaram para regressar ao seu país através da luta armada. Cada uma destas tentativas resultou em mais massacres e mais deslocamentos.

No final dos anos 80, cerca de 480 mil ruandeses – cerca de 7% da população total e metade da população tutsi – tinham se refugiado, principalmente em Burundi (280 mil), Uganda (80 mil), República Democrática do Congo (80 mil) e Tanzânia (30 mil).

Esta situação foi levada ao extremo em outubro de 1990, quando a Frente Patriótica de Ruanda iniciou uma guerrilha a partir de Uganda contra o governo ruandês dominado pelos hutus. Na Uganda, a mesma Frente Patriótica havia ajudado o Exército de Resistência Nacional de Yuweri Museveni a assumir o poder. Este, assumindo o cargo de presidente, levou a reivindicação dos tutsis refugiados à mesa do governo de Ruanda, mas o poder hutu recusou o repatriamento alegando escassez de terras no país.

Com o fim da guerra em 1990 e o estabelecimento dos acordos de Arusha, após sofrer pressões internas e externas, Ruanda foi obrigada a abdicar a lei do partido único, formando um novo governo de transição composto por tutsis e hutus. Em 1993 foi finalmente reconhecido o direito dos refugiados regressarem ao país, mas os acordos foram rejeitados por facções hutus extremistas. Uma nova guerra civil estava a caminho e desta vez muito mais sangrenta.

Nada do que aconteceu a partir daí fora fruto de uma histeria coletiva, mas até mesmo os métodos de como seria executado o massacre foi discutido no detalhe, como a venda de mais de 500 mil machetes.

 

Planejando o genocídio

 

O desenvolvimento da situação em direção ao genocídio agravou-se em 1990, quando a Frente Patriótica Ruandesa saiu de Uganda para iniciar uma guerra civil. A França imediatamente apoiou o governo de Habyarimana e, preparando-se para o conflito, compraram armas do Egito, do Reino Unido, da Itália, da África do Sul, da China, de Israel e da República Democrática do Congo, além de outros países.

Ruanda, um dos menores e mais pobres países do mundo, transformou-se no terceiro país africano que mais importava armas. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, graças ao financiamento francês, o país conseguiu da China mais de 580 mil machetes a preço de liquidação. Nenhum país imperialista, muito menos os EUA, se colocou contra estas movimentações e não impuseram nenhuma medida que impedisse o massacre.

A ONU (Organização das Nações Unidas), a OUA (Organização para a Unidade Africana) e alguns governos decidiram iniciar um diálogo com Habyarimana e a Frente Patriótica para discutir o que se tornaria nos acordos de Arusha. Cada representante assinou um Tratado de Paz que na realidade não serviria para nada.

A perseguição contra os tutsis foi aumentando a cada dia. Controlada pelo clã Akazu, ligado à mulher de Habyarimana, a imprensa local criticou duramente os acordos e criou um veículo que se tornaria símbolo do ódio. Paralelamente ao recrudescimento da violência, a missão da ONU, enviada a Ruanda para supostamente fazer valer as decisões do Tratado, foi totalmente inútil.

Na véspera da chegada dos capacetes azuis, o Exército do vizinho Burundi ameaçava derrubar do poder o presidente hutu Ndadaye. Mais de 50 mil pessoas, a maioria hutus, foram mortas. Outros massacres tutsis estavam marcados na história. Em 1972 foram mortos pelo menos 200 mil hutus, seguido de um golpe de Estado.

A crise em Burundi aprofundou ainda mais os conflitos étnicos na Ruanda. Para o general que comandava as tropas da ONU, a única solução aparente para dar fim a um genocídio em curso era impedir o suprimento de armas, estabelecer uma missão multinacional de estabilização e a proteção de todos os civis e líderes políticos. Ele afirma até hoje que fez incontáveis pedidos à instituição, mas jamais fora ouvido.

A morte do presidente Habyarimana – não se sabe por quem – era o que faltava para se iniciar uma solução final contra a população tutsi. Os já formados esquadrões da morte, parte do exército e a ajuda financeira da França resultaram na morte de cerca de um milhão de pessoas.

Enquanto isso, os soldados da ONU apenas olhavam e se importavam mais em proteger os civis estrangeiros. A maioria dos soldados voltaria para casa após a morte de dez capacetes azuis no dia seguinte da morte do presidente. Apenas 400 soldados foram mantidos em Ruanda, a maioria da Tunísia e de Gana, mas o genocídio só foi interrompido com a ação da Frente Patriótica e sua vitória na guerra civil.

O imperialismo mundial acompanhou a crise e não moveu um dedo sequer. Sua única preocupação é justificar a falta de atitude sob, no máximo, o disfarce da mea culpa, sendo que na verdade estes países não foram nem cúmplices, mas muito mais participantes indiretos do massacre.

O presidente dos EUA na época, Bill Clinton, e o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, afirmavam na imprensa terem feito todo o possível. Clintou chegou a desculpar-se diante do mundo inteiro afirmando que não tinha idéia do que estava acontecendo em Ruanda. A Bélgica, antigo dono de Ruanda, também desculpou-se e acusou a ONU e o Vaticano de não terem feito nada. A Igreja durante o massacre estava firmemente aliada aos hutus, apesar de centenas de padres e freiras teriam sido assassinados a golpe de facão.

No entanto, o único país que não fez questão de fazer mea culpa foi a França, que sustentou as milícias hutus durante todo o período que culminou na morte de Habyarimana e, depois, organizou a fuga dos responsáveis pelo massacre.

Desde o genocídio de 1994, mais de três mil pessoas foram julgadas e algumas condenadas, mas os verdadeiros responsáveis são vistos ainda hoje como paladinos da justiça, justamente aqueles que nada fizeram para impedir um dos acontecimentos mais trágicos da história e que até hoje não foi resolvido.

 

Quem está por trás do genocídio

 

A escassez das terras e a dependência econômica de Ruanda fomentaram os conflitos étnicos. O agente ativo desta polarização é o imperialismo. A fraca economia do país, sustentada pela exportação do café, entrou em colapso com a queda da commodity em 50%, que levou o país a perder 40% de sua renda. Uma crise alimentar engoliu Ruanda em sua pior crise dos últimos 50 anos, o ingrediente que faltava para a eclosão de novos conflitos, pois ao mesmo tempo, o governo gastava altas somas em equipamentos militares.

De acordo com Linda Melvern, uma jornalista britânica que teve acesso a documentos oficiais, o genocídio foi detalhadamente planificado. No início do massacre, a tropa ruandesa era composta por 30 mil soldados (um membro por cada dez famílias) e organizados por todo o país com representantes em cada um dos vizinhos.

O genocídio foi financiado, em grande medida, com o dinheiro oriundo de supostos programas de ajuda internacionais, como o financiamento do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) através do Programa de Ajuste Estrutural. Calcula-se que US$ 134 milhões foram gastos só na preparação do genocídio, sendo US$ 4,6 milhões gastos somente com machetes, enxadas, machados, lâminas e martelos.

Quem fornecia todas essas armas? Quem se responsabilizou em ocultar um evidente marcha para um extermínio étnico?

O atual primeiro-ministro de Ruanda, Jean Kambanda, revelou que o genocídio foi discutido abertamente em reuniões de gabinete, com declarações de ministros "pessoalmente a favor de conseguir livrar-se de todo os tutsis”. “Sem os tutsis todos os problemas de Ruanda desapareceriam".

A comissão que estuda o genocídio em Ruanda de 1994 acusou formalmente vários dirigentes franceses, incluindo políticos e militares, de terem participado diretamente do massacre.

Um informe publicado em agosto do ano passado acusa, dentre outros, o ex-primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e o ex-presidente, François Mitterrand, de participarem da execução da etnia tutsi.

Foram relacionados ao todo 33 nomes - 13 políticos e 20 militares. A comissão de investigação ruandesa sobre o papel da França no genocídio - cujo documento tem mais de 500 páginas - concluiu que a França estava "a par dos preparativos e participou nas principais iniciativas e em sua execução".

"Vários militares franceses cometeram eles mesmos assassinatos de tutsis e de hutus acusados de esconder tutsis. Os militares franceses também cometeram inúmeras violações com sobreviventes tutsis".

"O apoio francês foi político, militar, diplomático e tinha base logística", indica o informe”.

"Ante a gravidade dos fatos alegados, o governo ruandês ordenou às instâncias competentes a empreender as ações necessárias para levar os responsáveis políticos e militares franceses incriminados a responder por seus atos ante a justiça", conclui o texto (AFP, 6/8/2008).

Anteriormente, o governo de Ruanda já havia acusado a França de ter encoberto sua colaboração no treinamento dos milicianos hutus que assassinaram em torno de 800 mil pessoas.

Ruanda rompeu relações diplomáticas com a França desde o final de 2006, quando o juiz francês Jean-Louis Bruguière acusou o presidente ruandês, Paul Kagame, de ter participado do atentado que derrubou o avião do ex-presidente Juvenal Habyarimana, sendo o estopim para o genocídio.

Os massacres de 1994 não são frutos de uma explosão de loucura coletiva, mas de uma intervenção ativa do imperialismo com sua política criminosa de dominação e exploração dos países coloniais.